Confrarias dos mais variados temas favorecem socialização

A criação de grupos informais em torno de interesses comuns é um fenômeno que se reinventa na contemporaneidade

por Carolina Cotta 23/11/2014 10:15

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Marcos Vieira/EM/D.A. Press
Clarissa, Jaqueline, Juliana, Ingrid, Luisane, Watylla, Ludmilla e Lígia fazem parte da Confece, considerada a primeira confraria feminina de cerveja do país (foto: Marcos Vieira/EM/D.A. Press)


Versos, brindes e sabores que unem. Em torno de prazeres comuns, ancorada em um elemento agregador, a sociabilização flui mais fácil. Um livro, um vinho ou uma deliciosa receita podem fazer de desconhecidos grandes amigos. De cara eles reconhecem algo em comum e já se foi o primeiro passo. Na contemporaneidade, que mostra a sua cara nas comunicações, serviços e relacionamentos que já não são, necessariamente, presenciais, é paradoxal ver a velocidade com a qual grupos informais emergem de valores socialmente construídos e compartilhados. Como se fosse essencial conviver. Porque é.

Multiplicam-se, por exemplo, as confrarias. Com variados temas, configurações e elementos comuns que a tornam um exemplo desse tipo de aglutinação, elas estão em toda parte. Às tradicionais confrarias de vinho e gastronomia somaram-se confrarias de cerveja, de literatura, de jogos. Em todo o prazer que se encontra em um par é possível ver nascer uma confraria. Foi assim com a Confraria Feminina de Cerveja, a Confece, considerada a primeira representante brasileira do gênero. Em torno da bebida mais popular do país, 10 mulheres se reúnem uma vez por mês para degustar, aprimorar o paladar e, claro, confraternizar.

São desmedidos os ganhos com a socialização. Segundo o psicoterapeuta Rodrigo Prates, é por meio desse processo que nos tornamos indivíduos aptos a viver coletivamente. “Afinal de contas, é por meio da socialização que percebemos, entendemos e absorvemos as regras, normas, hábitos e culturas daquele meio em que vivemos. E para o especialista não há momentos a serem criados para estarmos com outras pessoas e encontrá-las de fato. “É preciso que nos conscientizemos de que o momento mais propício para esse encontro é o presente, o agora. Não importa onde estejamos”, defende.

Dentro desse espectro, todos os momentos são perfeitos, uma vez que são os momentos possíveis. E isso não muda quando a socialização ocorre em torno de um prazer compartilhado por aquele grupo. Mas, segundo Rodrigo, esses gostos comuns são um facilitador, um catalisador, já que a socialização ocorre em torno de um ponto de convergência. “Ao redor desse ponto, o contato inicial, e talvez alguns posteriores, se estabelecerá, criando assim uma atmosfera mais favorável, de maior segurança e confiança, favorecendo uma integração.”

A ceramista Nícia Braga, de 67 anos, tornou-se membro de uma confraria quase que estrategicamente. Quando se separou, ela decidiu não se envolver em nenhuma atividade solitária. “Era um jeito que tinha de ver gente”, lembra Nícia, que logo se inscreveu em um curso de vinho e criou, junto a outra apreciadora da bebida que conheceu ali, uma confraria. “Ou se busca o outro ou se isola. Essa movimentação das confrarias caminha nesse sentido. Se você não se movimentar para o outro, você fica fechado em você mesmo. E como hoje nada mais obriga você a sair de casa, tudo vem a nós, é uma forma de sair da inércia”, acredita. Um brinde à união!

Rodrigo Clemente/EM/D.A. Press
Há cerca de 20 anos, um grupo de amigas se reúne para jogar buraco toda segunda-feira no salão de um clube (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A. Press)


As confrarias são associações criadas no século 13 por pessoas piedosas que se comprometiam a realizar, conjuntamente, práticas assistenciais, e, por isso, se assemelham às congregações e irmandades, outro tipo de associação laica. O mesmo nome é usado para definir o conjunto de pessoas do mesmo ofício, ou que levam um mesmo modo de vida, assim como aquelas unidas por algo comum. No passado e também nos dias atuais, confraria nada mais é do que um conjunto de pessoas que se associam em torno de interesses e objetivos comuns.

As confreiras da Confece compartilham o gosto pelas cervejas artesanais ou especiais, e se reúnem para aprender mais sobre a bebida com degustações e troca de informações. Segundo a gestora de mídias sociais Jaqueline de Oliveira Silva, de 49 anos, com o aparecimento de bares cervejeiros elas aproveitam para visitar os lugares e conhecer a estrutura e carta de cervejas, mas há espaço também para harmonizações na casa de alguma das 10 apreciadoras. Isso quando elas não se juntam para produzir as próprias cervejas – Conceição e Aurora – que, por não serem registradas, não são comercializadas.

O grupo nasceu em uma palestra sobre cervejas em uma casa especializada, oito anos atrás. Elas não se conheciam, mas resolveram se juntar para aprender juntas. “São pessoas muito diferentes, de realidades e visões de mundo diferenciadas. Mas o grupo formou amigas. Depois de um dia de trabalho, encontrar com pessoas que gostam do que você gosta e falar com elas sobre isso dá alegria e vivacidade. A cerveja é um “lubrificante social. A gente ri, conta casos, não é uma reunião chata. Dá gosto participar”, acredita.

Considerada a primeira confraria feminina de cerveja do Brasil, elas se orgulham de mudar um pouco esse estereótipo de que cerveja é bebida para homens. A própria configuração de uma confraria, por mulheres, tem um caráter político à medida que essas associações também eram típicas do universo masculino no passado. Segundo o psicoterapeuta Rodrigo Prates, tal fato pode ser creditado não só à liberdade conquistada pelas mulheres, mas a uma maior flexibilidade social. “Esse trânsito é favorável pela troca de experiências e percepções e também pelo desejo das mulheres de criar os próprios ambientes e não ficar somente acompanhando seus parceiros nos ambientes e grupos deles”, explica.

RESGATE DE AMIZADE

Às vezes, a formação de um grupo combina prazeres. Há cerca de 20 anos, 12 amigas se reúnem toda segunda-feira para jogar buraco. A paixão pelo jogo de baralho não é o único elo entre elas. A “jogatina” foi uma forma de aproximar antigas amigas dos jogos de peteca do Sírio, que trocaram as quadras pelos salões do clube. Najla Abrão Lelis Vieira, de 64, sempre jogou buraco. Antes, reunia mais três pessoas em casa para promover as partidas, mas chegou um momento em que se juntaram mais amigas e elas mudaram a diversão pro Sírio, onde ficam das 14h30 às 20h30 no começo da semana. Jogam-se duas “mãos” com cada parceiro e, ao fim do dia, aquela que tiver somado mais pontos em todas as partidas é a vencedora.

Elas não se consideram uma confraria, mas é como se fossem. Apesar de não adotar um nome, seguem regras, mantêm uma regularidade de encontros e são um grupo fechado. Apesar de a amizade ser anterior ao grupo de buraco, Najla acredita que o encontro as aproximou e fortaleceu as amizades, que extrapolam aquele ambiente. “Nos encontramos sempre, marcamos almoços. Somos amigas mesmo, algumas mais próximas do que outras, mas sempre dispostas a ajudar”, acredita. Isso não quer dizer que tudo seja harmonioso. “Na idade em que estamos vai ficando difícil. Aparecem umas manias sem necessidade, tempestades em copo d’água, e às vezes uma fica chateada. Mas esse encontro promove nossa união.”

Arquivo Pessoal
Confraria Maria Gomes: há sete anos, Rosângela, Virgínia, Martha, Júlia, Jane, Fátima, Clarete, Adriana e outras duas amigas se encontram para apreciar vinho (foto: Arquivo Pessoal)


Troca de conhecimento, confraternização e promoção de laços de amizades estão entre as conquistas de quem participa de uma reunião de pessoas em torno de um gosto em comum. Mas é preciso cuidar para que essas não se tornem as únicas fontes de relacionamento, e mesmo de assunto. Para o psicoterapeuta Rodrigo Prates, os ganhos dependem diretamente da individualidade de cada um. Há, por exemplo, introvertidos que buscam em confrarias uma forma de se relacionar, de se abrir e se expor. Já para algumas pessoas inseguras, os ganhos podem ser semelhantes. Porém, caso esses se mantenham exclusivamente em sua zona de conforto, a confraria pode ser desfavorável, pois essa pessoa se arrisca a se apoiar unicamente naquele grupo como uma forma de proteção e evitação; grupo este que em dado momento pode se dissolver.

Ou então o ganho pode ser simplesmente compartilhar de algo que gostamos e apreciamos com outras pessoas que tenham os mesmos interesses. “Sugiro que sempre averiguemos a nossa motivação e intenção a cada passo que damos”, afirma Rodrigo. Em uma análise dos significados de consumo de vinho no contexto de uma confraria feminina, tema da dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a pesquisadora Mariana Variani Bertuol debruçou-se sobre um grupo fechado de mulheres gaúchas que se reuniam sistematicamente para degustar e fazer provas cegas de vinho entre elas.

Entre os principais resultados do estudo, constatou-se que a confraria exerce papel fundamental na mudança do estilo de vida das participantes. “Por meio dela as mulheres reafirmam o seu papel na sociedade, conquistando o seu espaço em uma área tradicionalmente dominada pelos homens”, defende Mariana Variani Bertuol, que percebeu uma grande influência do perfil das participantes nas opiniões sobre a participação dos homens ou não. No caso estudado, as mulheres casadas resistiam mais fortemente à abertura da confraria ao público masculino. Para muitas, a confraria representa uma certa independência, uma forma de distinguir a sua opinião da opinião de seus maridos, sem que haja nenhum tipo de aborrecimento ou mesmo anulação de suas ideias.

Por outro lado, as mulheres solteiras e as que já tiveram a experiência em confrarias mistas não se sentiam ameaçadas ou anuladas em cogitar a presença dos homens. Pelo contrário, até demonstram interesse pela diversificação de gênero. O estudo identificou alguns significados atrelados ao consumo de vinho, entre eles qualidade de vida, família, prazer e relaxamento, gastronomia, status, comemoração, socialização e religião. E nesse lugar fica claro o posicionamento de algumas confrarias femininas em ter ali um lugar delas, mesmo que os parceiros sejam convidados para as confraternizações de fim de ano. E só. A Confraria Maria Gomes, por exemplo, reforça essa questão da valorização da mulher logo no seu nome.

Segundo a ceramista Nícia Braga, quando buscava um nome para a confraria, queria que ele tivesse um som, fosse uma evocação, uma coisa viva. Não devia ser um nome comum, e sim uma mensagem, um título, dar credibilidade. Pensando como os portugueses, onde os nomes falam de uma região de origem, que trazem junto uma história, um conceito, um cheiro e um paladar, buscou na região da Bairrada a inspiração. Nessas terras morava uma senhora fidalga no século 13, Maria Gomes. Ao mesmo tempo, o lugar estava relacionado a um nome masculino: Fernão Pires. “Como disse um amigo meu, é possível que Fernão Pires tenha levado Maria Gomes por maus caminhos e mais uma vez as mulheres perderam o nome na história. Essa é a nossa homenagem a uma mulher e a uma história curiosa”, explica.

Arquivo Pessoal
Andréa Melo, Magda Rocha e Fábio Urcelino fazem parte de um grupo que se reúne mensalmente para cozinhar (foto: Arquivo Pessoal)


Certo é que, há sete anos, 10 mulheres se reúnem em torno do prazer de apreciar um bom vinho, e a bebida que tanto apreciam acabou tornando amigas aquelas que eram, antes da confraria, desconhecidas. Segundo a professora aposentada Virgínia Mendes, de 61, que junto a Nícia formou o grupo, além de desenvolver conhecimentos e relações, essas microcomunidades criam também uma espécie de solidariedade entre as confreiras. “Recentemente, uma de nós teve um problema de saúde e todo o grupo se reuniu, mandou mensagens, esteve presente”, conta. A cada mês, uma dupla é responsável por promover uma degustação harmonizada com entradas, pratos principais e sobremesas. Para Virgínia, não existe uma competição, mas há uma preocupação em se superar. “Quando chega sua vez, cada uma quer fazer o melhor.”

PRIMEIROS PASSOS

Se o nome Maria Gomes marca o lugar da confraria de vinho, uma outra, recém-formada e mista, nem pensou em um título. Talvez pela forma descontraída como se formou, há menos de um ano. Tudo começou em uma festa que reuniu amigos de infância, que naquele momento reviveram com saudosismo as receitas de suas mães e avós. A festa terminou com uma reunião agendada em torno do fogão, e desde então eles se encontram mensalmente para cozinhar. Segundo a fisioterapeuta e professora universitária Magda Rocha, de 45, além de reatar amizades do passado, outro motivo para a formação do grupo foi uma espécie de “represália” aos altíssimos preços praticados nos restaurantes da capital. E o nome? “Nunca tocamos no assunto, mas sempre usamos a expressão explosão de sabores quando servimos nossos pratos. Acho que vou sugerir esse nome”, brinca Magda.

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