Açúcar é um dos ingredientes mais questionados da alimentação diária

Há quem o aponte o doce como eterno vilão, mas outros apenas condenam o excesso do consumo. Açúcar só não é mais questionado do que o sódio e a gordura

por Lilian Monteiro 23/11/2014 10:49

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KHALED AL-HARIRI
Bancas de balas e outras guloseimas em mercado público: olhos são atraídos pelas cores e cheiros, mas na hora de comer, o primeiro mandamento é a moderação (foto: KHALED AL-HARIRI)


Vilão ou mocinho? O açúcar, colocado em xeque assim como o sódio e a gordura, é salvo por uns e apontado como “do mal” por outros. No entanto, profissionais da saúde concordam que o perigo está no excesso. Nina Rosa de Castro Musolino, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), confirma que, há um ano, a entidade, ao lado da indústria e com o conhecimento do Ministério da Saúde, tem feito palestras e conversado a respeito de um possível acordo sobre a redução de açúcar nos alimentos industrializados. “É o primeiro passo para, futuramente, numa ação progressiva, conseguir o mesmo que ocorreu com o sódio.” Não existe um cronograma para redução do ingrediente nos alimentos industrializados. “Pedimos, neste momento, uma colaboração da indústria, mesmo porque a população terá dificuldade de aceitação. Reduzir o açúcar é um aprendizado.”

Segundo Nina, “o açúcar está presente nos alimentos, no leite, frutas, carboidratos, que na digestão libera a glicose, e é fonte de energia. Mesmo o açúcar refinado é aceitável, desde que dentro de quantidade razoável. O problema é o abuso do fast food, carboidratos, sucos industrializados, refrigerantes, guloseimas… O ideal é que a conscientização comece na infância. Prefira sempre fontes de nutrição como as frutas que, além da sacarose, têm fibras e vitaminas. É melhor fonte de açúcar do que o refinado, já que no processo de refinamento são adicionados produtos químicos.”

Além da obesidade, diabetes, dislipidemia (níveis elevados de lipídios no sangue), doenças mais comuns ligadas ao açúcar, a presidente da SBEM cita como riscos aumentados pelo seu consumo o da acidez gástrica (úlcera), a hipertensão e o desequilíbrio de um grupo de bactérias, que pode desenvolver doenças. “Por outro lado, estudos provam que um pouco de açúcar ajuda a manter a flora intestinal normal.” O problema, alerta Nina Musolino, é que vivemos a “tendência do radicalizar, uma onda de tirar o glúten, a lactose, o açúcar, o sal... A verdade é que todos os alimentos fazem parte e têm papel na nossa nutrição. E todos devem ser usados com moderação”.

Força na dança

A designer e analista de comunicação da Vallourec Débora Nunes Vera, de 40 anos, teve de aprender a limitar o açúcar para não adoecer. Ela conta que “nasceu gordinha” e com 8 meses seu pediatra já recomendava à sua mãe cortar o açúcar da sua alimentação. “Era leite puro e nada de mingau.” Mas na escola... “Não teve jeito e, como sempre gostei demais de doce, foi difícil me controlar. Balas, chocolates e sorvetes são perdições. Adulta, além de continuar a comer, aprendeu a cozinhar doces, torta holandesa, pavê, trufa... Com 7 anos já fazia brigadeiro e com 15 para 16 anos pesava 120kg. O doce passou a ser uma necessidade física. Tratei com psicóloga, endocrinologista e a grande preocupação da minha mãe era não tomar remédio. Ela me exigiu a dieta da boca e com 20 e poucos anos meu peso caiu para 98kg.”

No entanto, lembra Débora, o açúcar sempre a rondava. “Nunca consegui largar o doce. É aquela história: nervosa, feliz, triste, merecimento, sempre arrumava desculpa para um chocolate. Há três anos, num exame periódico, minha glicose deu bem alta, um pré-diabetes, e o triglicérides também, mesmo com o peso regular. Encontrei o endocrinologista Geraldo Santana, passei a fazer uma dieta seletiva e restritiva de carboidratos. Foi um desafio. Agora, cheguei aos 76kg, minha meta é 73kg, e os exames estão normais. Percebi minha relação estreita com o açúcar, já que se relaxar, a glicose sobe”.

Ela aconselha todos a terem moderação. “O açúcar dá uma falsa sensação de animação e felicidade. Quanto cortei, fiquei de baixo astral, mas com o tempo a animação foi maior e tenho mais energia. Agora, meu açúcar vem dos carboidratos, legumes, frutas, da alimentação balanceada. E chocolate só o amargo, 80% de cacau. Reeduquei meu paladar, acordo melhor e mais disposta, trabalho com tranquilidade e desde 2012 passei a dançar flamenco, minha atividade física. Sei que preciso viver com muito menos açúcar e tudo bem. É possível.”

Marcos Vieira/EM/D.A. Press
A designer Débora Nunes, que chegou a pesar 120kg aos 16 anos e sempre teve que lutar contra a balança, tem na dança flamenca importante aliada para manter a forma (foto: Marcos Vieira/EM/D.A. Press)


Na medida certa

O nutrólogo Enio Cardillo explica que “o açúcar é novo na civilização. Antes era uma especiaria só consumida por quem podia pagar. Com o caminho das Índias, ele foi disseminado na alimentação, nos últimos 500 anos”. Cientista, professor de bioquímica por anos na UFMG e membro da Academia Mineira de Medicina, ele ressalta que “o açúcar é uma fonte de energia e de prazer. O excesso é prejudicial porque aumenta a glicemia e leva à supersecreção de insulina pelo pâncreas, com consequências ruins a médio e longo prazo. A decisão correta não é proibir, mas não abusar.”

Cardillo desmistifica a ideia de que o açúcar branco refinado é o terror se comparado ao mascavo, demerara ou mesmo ao mel. “A única diferença entre o branco e o mascavo é que o segundo tem mais minerais. É uma opção, mas em termos de saúde é tudo igual. E a qualidade do mel é só ser gostoso. Nada medicinal. Aliás, tem muita frutose, que é três vezes mais doce do que o açúcar.”

Quanto aos adoçante, qual seria o mais indicado - aspartame ou sacarina? Sucralose ou stévia? Cardillo é taxativo: “A população precisa ter consciência de que há uma guerra entre a indústria do açúcar e a do adoçante. Não existe nada comprovado de que o adoçante provocaria câncer, por exemplo. Sem abuso, o adoçante é uma opção. Há restrição para grávidas, já que ele poderia ter efeito sobre o feto”, afirma.

A diferença básica entre os adoçantes é que a sucralose não é absorvida. A stévia é uma planta, natural. O gosto deforma o paladar, mas não tem nada de errado. O ideal é consumi-la após refeições ricas em fibras, já que elas retardam a absorção da glicose.”

Compulsão

O diretor clínico do Instituto Mineiro de Endocrinologia, Geraldo Santana, reforça que o açúcar “não é diferente de outros carboidratos de absorção rápida, como os farináceos, arroz e batata cozida. Nosso organismo está preparado para lidar com quantidades moderadas. É um alimento que praticamente só contém energia, sem nutrientes como vitaminas, minerais ou aminoácidos. Não há nada de errado no seu consumo por crianças e adultos de peso normal, que praticam exercícios e têm bom gasto de energia. Para a população carente, é fonte de energia e alimento barato. Não teria justificativa tirá-lo da alimentação. Açúcar não é veneno, mas o fato é que 50% da população brasileira está acima do peso, esse, sim, um problema de saúde pública.”

O endocrinologista lembra que “no cérebro o açúcar estimula neurotransmissores que ativam os centros cerebrais de recompensa, detonando necessidade de quantidades cada vez maiores. É o caminho para que algumas pessoas mais predispostas se sintam dependentes. Aí já é preocupante, pois torna-se uma compulsão alimentar por alimentos doces”.

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