Deixar de comer glúten ou tomar leite é moda ou necessidade pra você?

Excluir esses itens da alimentação pode trazer benefícios reais para a saúde desde que a pessoa tenha intolerância à proteína presente nos cereais ou à lactose

por Carolina Cotta 27/10/2014 09:30

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Euller Júnior/EM/D.A Press
Depois que descobriu a intolerância à lactose, o designer gráfico Rick Cavalcante trocou a bebida láctea por sucos e se sente muito melhor (foto: Euller Júnior/EM/D.A Press)
“Quem pode, pode, quem não pode se sacode” poderia virar “quem pode não quer, quem não pode adoraria.” Enquanto os celíacos estão proibidos de comer alimentos com glúten, parte da população, mesmo podendo, deixa de comer a proteína dos cereais para perder peso. Pesquisadores afirmam que a retirada do glúten, em si, não seria a causa do emagrecimento. A perda de peso, que é real, estaria ligada ao fato de se tirar da alimentação as principais fontes de carboidrato. Alguns nutricionistas pensam diferente. Fato é que parar de comer glúten virou moda, pode desequilibrar a alimentação e isso tem consequências.

Para o nutrólogo Mauro Fisberg, professor da Escola Paulista de Medicina, todo modismo é uma situação transitória baseada ou não em evidências científicas. “E eles são muito comuns quando o assunto é alimentação. “Muita gente segue, muita gente tem resultado e muita gente sofre os efeitos colaterais só depois”, alerta.

Com o leite, que algumas pessoas retiram da alimentação sem orientação de um especialista, a questão é diferente. Segundo o gastroenterologista pediátrico Luciano Amedee Peret Filho, professor do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), enquanto a alergia à proteína do leite de vaca é rara em adultos, embora ocorra em crianças de até 2 anos de idade, a intolerância à lactose, o açúcar do leite, pode atingir de 30% a 40% da população adulta em geral, e de 60% a 70% dos negros. O designer gráfico Rick Cavalcante, de 42, que consumia mais de um litro de leite por dia, descobriu, tardiamente, a intolerância e trocou a bebida por sucos.

Rick sempre tomou muito leite. “Era o dia inteiro. Se tinha um intervalo no trabalho ou dava fome, abria a geladeira para tomar leite, e não água”, conta. Dois anos atrás, a mãe, por orientação médica, passou a tomar leite sem lactose. Ele provou e gostou, principalmente porque se sentia mais leve. Em junho, em um processo de reeducação alimentar com nutricionista, ele fez testes que confirmaram a intolerância. E só quando cortou o alimento é que foi possível perceber os benefícios. As rinites e sinusites, antes comuns, deixaram de fazer parte de sua vida. A digestão facilitada e a sensação de leveza após uma refeição também foram uma novidade. “Hoje, no lugar do leite, faço sucos. Por mais incrível que pareça, achei que seria muito difícil, mas não foi”, comemora.

Para a nutricionista Cíntia Tabaral, doutoranda em ciência dos alimentos e professora substituta da Escola de Enfermagem da UFMG, para os que têm a intolerância à lactose é essencial substituir o alimento. “Quando nascemos, e temos uma alimentação baseada em leite materno, produzimos muita lactase, a enzima responsável por quebrar a molécula da lactose. Mas, com o passar dos anos, algumas pessoas têm uma redução na produção da enzima e quando consomem o leite ele não é digerido, provocando uma fermentação no intestino”, explica a nutricionista. Já no caso do glúten, ela alerta que a substituição dos cereais por frutas, muito comum por quem adere a esse tipo de dieta, não é adequada por serem tipos diferentes de alimento. Mas vai falar isso com quem está emagrecendo.

CELÍACOS
O glúten é uma proteína presente em cereais como trigo, cevada, centeio, aveia e em todos os seus derivados, do pãozinho à cerveja. Segundo o gastroenterologista pediátrico Luciano Amedee Peret Filho, uma fração dessa proteína, a gliadina, é intolerada pelo organismo de algumas pessoas, que podem desenvolver a doença celíaca, uma lesão na parte alta do intestino que diminui a absorção de nutrientes. Em quem tem essa predisposição, as moléculas não digeridas de gliadina, ao entrar em contato com as camadas mais internas da mucosa intestinal, disparam uma reação imunológica no intestino delgado, causadora de processo inflamatório crônico que gera sintomas variados.

Mudança de hábito
Não dá para simplesmente deixar de lado o leite. É importante descobrir se há de fato intolerância e buscar orientação de especialistas para a substituição correta da alimentação

Tirar o leite da alimentação não é para qualquer um. O alimento é a principal fonte de cálcio para o organismo e sua reposição a partir de outras fontes é difícil. A principal preocupação dos especialistas é o motivo dessa mudança na dieta, principalmente aquela feita sem orientação, simplesmente para emagrecer. Por que as pessoas estão parando de beber leite? Por que se sentem melhores com isso, um estímulo a seguir sem ele? Somos os únicos mamíferos a manter o leite na alimentação mesmo depois de adultos. E o leite de outra espécie. Isso é possível porque a espécie humana sofreu uma adaptação para manter os níveis de lactase, a enzima essencial para a digestão do leite.

É preciso diferenciar a intolerância à lactose da alergia à proteína do leite de vaca. A primeira é causada pela incapacidade do organismo de digerir o açúcar do leite devido à deficiência de uma enzima. A segunda é uma reação do sistema imunológico à caseína, principal proteína do leite de vaca. Essa última, segundo a nutricionista Cíntia Tarabal, pode causar alterações no trânsito intestinal, com ou sem diarreia, alergias na pele, coceira e vermelhidão e pode também influenciar no processo respiratório. Mas a prevalência na população adulta é muito pequena, coisa de 2%. “Muita gente relata esses sintomas, mas nem sempre é alergia”, explica.

Leandro Couri/EM/D.A Press
Desde que se tornou vegana, a jornalista Patrícia Dutra, de 45 anos, bebe apenas leite de soja (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Para a especialista, a não ser que o indivíduo tenha um desses dois quadros, não há benefícios em retirar o leite da alimentação. O gastroenterologista pediátrico Lucian Amedee Peret Filho não vê grandes problemas em priorizar o leite sem lactose, que tem realmente menos calorias, mas se preocupa com as deficiências de cálcio possíveis com a interrupção ou diminuição do consumo de leite e derivados. “Não tem necessidade”, defende. É muito diferente de quem tem a alergia ou a intolerância, que realmente precisam mudar a alimentação. Mas mesmo para esses casos há recursos. Pessoas com intolerância à lactose, por exemplo, podem consumir a enzima lactase em forma de comprimido ou sachê, o que melhora a qualidade de vida, permitindo o consumo de leite e derivados em algumas ocasiões.

O quadro pode ser identificado por meio do teste de tolerância à lactose, quando o indivíduo passa por uma sobrecarga de lactose, tomando o açúcar do leite misturado à água para observação das reações e dosagem da glicemia. Os sintomas podem variar de leve a intensos, como aumento da produção de gases intestinais, distensão abdominal, diarreia, náuseas e vômitos. Tirando ou diminuindo o consumo de leite, eles melhoram. Pessoas com uma intolerância leve podem tomar, por exemplo, fermentados como o iogurte, porque eles têm 50% menos lactose. “Pode ser que passe mal com leite e não com o iogurte”, explica. E é importante saber: com o passar dos anos a produção da lactase diminui e a dificuldade de digestão do leite, consequentemente, vai crescer.

VEGANOS
A jornalista Patrícia Dutra, de 45 anos, é vegetariana desde 2006 em função de sua compaixão pelos animais. Em 2012, tornou-se vegana, uma filosofia de vida que respeita qualquer ser vivo de forma integral. Não toma leite, só o de soja. Mas ela abandonou o leite de vaca bem antes disso. Há 10 anos, ela interrompeu o consumo em função das crises de sinusite. “Procurei um nutricionista e ele me orientou substituir o leite. Os sintomas melhoraram muito, mas ainda comia queijo e iogurte. Desde que me tornei vegana, entretanto, não tenho mais as crises alérgicas”, conta Patrícia, que é voluntária de uma ONG de proteção animal e vê o veganismo não como uma dieta, e sim como filosofia de vida. “Minha alimentação é uma prioridade hoje”, conta.

Para o nutrólogo Mauro Fisberg, professor do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina e coordenador do Centro de Dificuldades Alimentares do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, o veganismo pode trazer benefícios para prevenir doenças cardiovasculares, embora esteja relacionado a baixos níveis de ferro e ácido fólico. O que preocupa é quem adere à restrição sem qualquer orientação. “Se retirar tudo e não recorrer a suplementos, fica complexo”, alerta. Apesar de ter tirado um importante grupo alimentar do prato, as proteínas, Patrícia fez tudo com acompanhamento e faz exames para acompanhar os níveis de nutrientes. “O cálcio tento repor com o consumo de folhas escuras. A única suplementação que faço é de vitamina B12”, conta.

Alimentação consciente
Dieta balanceada é importante para evitar carências nutricionais e o comprometimento da saúde

Marcos Michelin/EM/D.A Press
"Não realizei exames que confirmassem alguma intolerância, mas, atualmente, consumo leites de amêndoas, castanhas, inhame e iogurtes feitos pelos mesmos. Tomo suplementos e consumo alimentos com cálcio", Glícia Kelly dos Santos, de 42 anos (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
A modificação na composição corporal da humanidade é uma realidade. O Brasil, por exemplo, deixou de ser um país desnutrido para ser um país com excesso de peso. Para o nutrólogo Mauro Fisberg, é desse cenário que nascem os modismos na alimentação, que, apesar de seguidos por muitos, podem ou não ser adequados. “A busca desenfreada pelo emagrecimento tem feito as pessoas lançarem mão de qualquer processo para isso”, alerta o especialista, que chama a atenção para as restrições de grupos alimentares. “Fomos feitos para comer gordura, proteína e carboidrato em proporções estabelecidas. Toda vez que faço uma restrição estou desbalanceando a dieta e isso tem um custo gigantesco para o metabolismo, que pode ir de carências nutricionais, ganho de peso em efeito rebote e até dificuldade de crescimento”, alerta.

Segundo Mauro Fisberg, que é professor do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina e coordenador do Centro de Dificuldades Alimentares do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, as restrições podem ser de ordem religiosa, filosófica ou por moda. A mais conhecida é a restrição ao consumo de carne dos vegetarianos, ou de qualquer produto animal, caso dos veganos. Mas a que chama a atenção atualmente é a moda de tirar a lactose e o glúten da alimentação mesmo que não se tenha intolerância ou alergia a eles. Do ponto de vista clínico, o ser humano tem uma diminuição, geneticamente determinada, da lactase, impossibilitando a digestão da lactose. A questão é que o homem precisa de fontes de cálcio e de diferentes alimentos para suprir esse nutriente.

O consumo médio da população brasileira é de 600 miligramas (mg) de cálcio por dia, sendo necessários 1000mg. Segundo Fisberg, só com vegetais não se chega aos 500mg. O brasileiro toma pouco leite, um copo diário, em média, quantidade que seria tolerável até por quem tem a intolerância à lactose. Além disso, os derivados do leite têm de três a quatro vezes menos lactose por causa do processo de fermentação e se priorizados poderiam manter os níveis adequados de proteína, cálcio, vitaminas e minerais. “As pessoas acham que o leite e a lactose causa inflamação intestinal, mas quem não tem a intolerância não terá nada disso. Só deve tirar a lactose quem tem a intolerância comprovada por exame”, defende.

POLÊMICA
A questão do glúten é mais polêmica. O trigo é a base da alimentação há milhares de anos e embora alguns estudos mostrem que o cereal dos dias atuais tem maior quantidade de glúten, segundo Fisberg isso não representa um aumento de casos de alergia à proteína, que teve sim, mais diagnósticos, mas por uma evolução dos métodos de investigação. De acordo com o professor, há três situações em que ele deve ser retirado. Quando há diagnóstico da doença celíaca, uma alergia ao glúten que provoca uma resposta do sistema imune ao consumo de qualquer quantidade; quando existe alergia a outros componentes dos cereais; e quando há uma intolerância ao glúten. Esse último, contudo, segundo Fisberg, ainda é assunto polêmico na comunidade científica.

“Um pequeno grupo de investigadores percebeu que alguns pacientes, apesar de não ter alergia ao glúten, ao comer os cereais tinham um aumento da inflamação do intestino, e quando tirava se sentiam melhor. Mas é um trabalho ainda muito contestado, sem evidência cientifica, não há um conjunto de estudos com grupo-controle para confirmar esse quadro. Mas isso chamou a atenção dos entusiasmados e dos nutricionistas funcionais, que tomaram isso como bandeira, já que é uma possibilidade de diminuir o mal-estar de pessoas acima do peso. Elas tiram o glúten e falam que se sentem melhor”, explica Fisberg, segundo o qual a retirada do glúten pode beneficiar alguns, mas não deve ser feita por quem não tem as alergias.

Glícia Kelly dos Santos, de 42 anos, cortou o gluten em janeiro deste ano, após orientação nutricional. Na época, ela estava pesando 128 quilos, tinha um quadro de inflamação, dores no joelho, problemas gastrointestinais, fadiga, azia e cansaço, entre outros problemas por causa do peso e da alimentação incorreta. Na mesmo ocasião retirou o leite, que nunca esteve muito presente em sua alimentação. “Não realizei exames que confirmassem alguma intolerância, mas, atualmente, consumo leites de amêndoas, castanhas, inhame e iogurtes feitos pelos mesmos. Tomo suplementos e consumo alimentos com cálcio”, conta.

Fisicamente, ela se sente outra pessoa. Faz academia, não tem mais problemas nas articulações e nem as dores, que eram quase diárias. Glícia, inclusive, faz os próprios pães, bolos, iogurtes e pães de queijo, priorizando a funcionalidade dos ingredientes. “Estou totalmente adaptada e sem nenhuma vontade de comer alimentos com glúten ou lactose. Hoje, estou mais leve 35 quilos, sem remédios, somente com alimentação consciente, suplementos e esporte. Esse tipo de reeducação alimentar me fornece uma segurança para manter o meu peso quando chegar na meta, pois as restrições foram totalmente substituídas.”

Segundo a nutricionista funcional Ana Paula Fidélis, o glúten pode causar uma superativação do sistema imunológico. Por isso, defende que os sinais do paciente sejam avaliados para se observar se há uma reação tardia a esse tipo de proteína. Essas reações não são como a alergia já conhecida, mas sim sintomas que aparecem depois de dois a quatro dias da ingestão da proteína. “Elas são somatizadas, pois a pessoa consome diariamente e os sintomas ficam presentes e podem evoluir. Mas retirada do glúten deve ser bem orientada, pois não é somente essa proteína que pode causar a inflamação, e sim o consumo excessivo de farinhas brancas, embutidos, adoçantes, produtos industrializados, leite e derivados etc.

A nutricionista explica que a matéria-prima utilizada para a fabricação de produtos sem glúten nem sempre é saudável, mas sim rica em farinhas brancas, como mandioca, arroz, batata, o que pode levar à piora da inflamação e ao ganho de peso. “Não há um malefício çna retirada do glúten a ponto de ter que substituir essa proteína. Ela não tem um valor nutricional importante. O consumo de uma alimentação sem glúten balanceada e nutritiva é relevante para os pacientes que a retiram”, acredita.

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