Prática de exercícios ajuda a reduzir gordura dos ossos

O acúmulo de gordura ainda é pouco compreendido pela ciência, mas há indícios de que agrave a osteoporose

por Bruna Sensêve 22/10/2014 15:00

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Muito se engana quem pensa que só é possível perceber as gordurinhas a mais flagrando as sobrinhas que saem das roupas. Nem todas ficam evidentes assim. Podem estar onde menos se imagina: no interior dos ossos. Mas sem neuroses! Não há certeza entre cientistas se ela faz totalmente mal à saúde. Em um estudo publicado recentemente na revista Bone, a equipe da pesquisadora Maya Styner, da Escola de Medicina da Universidade de North Carolina, nos Estudos Unidos, detalha como usou uma nova técnica para obter imagens do interior de ossos e analisar duas importantes questões: o que uma dieta rica em calorias e a prática de exercício físico fazem à gordura de dentro do osso e, principalmente, por que isso importa para a medicina.

“Esse é um novo campo”, garante Styner. “Nós não sabemos exatamente como ela é produzida ou por que está lá. Há um monte de perguntas sem resposta.” Uma das dificuldades na análise é o fato de esse tipo de gordura estar completamente envolto no osso. Exige que os cientistas utilizem pequenas fatias do tecido — uma de cada vez — para estudá-la. Em busca de uma maneira mais precisa de avaliação, Styner apostou na coloração por ósmio, desenvolvida pelo pesquisador Mark Horowitz, da Universidade de Yale, nos EUA.
Thiago Fagundes/CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)

A equipe de pesquisadores deixou que os camundongos corressem à vontade em uma roda. Sob uma dieta normal, os bichos que se exercitaram sofreram uma diminuição da gordura óssea — que se manteve igual entre os animais sedentários. O mesmo experimento foi feito com ratos que seguiram uma dieta altamente calórica. Como esperado, a gordura óssea disparou entre os sedentários, mas, quando esses mesmos animais fizeram atividade física, diminuiu significativamente. Os resultados, segundo a equipe, mostram como determinadas partes de ossos podem mudar de semana para semana, particularmente nas áreas perto das articulações.

Comum na velhice
A existência de gordura no interior dos ossos é conhecida há uma centena de anos, mas o crescente interesse dos pesquisadores pela gordura da medula óssea (BMF) aumentou nos últimos 15. Isso porque deixou de ser visto como mais um simples tecido de enchimento para ser considerado um dos atores do microambiente interno do osso.

O osso não é composto só de tecido ósseo, mas também de medula óssea. Ela pode ser chamada de vermelha quando está cheia de células hematopoéticas, isto é, do tipo mais comum de células-tronco adultas; ou ainda de medula amarela devido à maior ocorrência de adipócitos – células que armazenam gorduras e regulam a temperatura corporal. Ao nascer, as cavidades ósseas são preenchidas principalmente com a medula vermelha, no entanto, a partir da infância, começa a ocorrer uma conversão. As células hematopoéticas são gradualmente substituídas pelo tipo amarelo.

Uma reconversão, porém, já pôde ser observada em pessoas que passam por situações de falta de oxigênio em tecidos do corpo humano, como fumantes ou pacientes com apneia do sono obstrutiva. Nessas condições, as células hematopoéticas começam a substituir as de gordura dentro do osso, processo que, embora pareça o contrário, é ruim para o organismo. “Apesar de serem encontradas grandes variações individuais, existe, globalmente, correlação positiva entre a gordura óssea e idade”, reforça o especialista Pierre Hardouin, da Universidade de Lille Nord-de-France, na França.

Efeitos diversos
Em um trabalho publicado sobre o assunto no início deste ano, na revista científica Joint Bone Spine, Hardouin descreve que os adipócitos da medula óssea são células que interagem com o ambiente. Em adultos, a medula óssea amarela apresenta um volume de aproximadamente 7% da gordura total do corpo e cerca de 2,6kg do peso corporal, equivalente a um dispositivo de armazenamento de cerca de 23 mil calorias. Como outros, os adipócitos da medula óssea não têm somente a função de armazenamento. Estão envolvidos também com células secretoras, ligadas, por exemplo, à secreção de hormônios, em particular, a leptina e adiponectina.

A leptina pode ser secretada, inclusive, em maior quantidade pelos adipócitos da medula do que pelas células de gordura subcutâneas. O principal efeito desse hormônio é sobre o controle do apetite, mas evidências recentes demonstram que está envolvida no controle da massa corporal, na reprodução, na imunidade, na cicatrização e na função cardiovascular. “Um bom conhecimento sobre ela nos traria muito, tanto para o diagnóstico quanto para a terapêutica. No entanto, vários aspectos continuam sem uma completa elucidação”, pondera Hardouin.

Entre as preocupações, está a interferência dessa gordura na ocorrência de doenças. A osteoporose, por exemplo, é uma complicação frequente da anorexia nervosa, e uma forte suspeita de participação nesse problema é o aumento da gordura nos ossos. “Nos seres humanos, é bem-estabelecido que a alta gordura da medula está associada com perda de massa óssea na osteoporose, em particular durante a anorexia nervosa e no envelhecimento”, descreveu, em 1971, o cientista francês Pierre Jean Meunier, o primeiro a relatar essa relação inversa de fatores.


Mau efeito revertido
“No osso, temos as células que fazem sangue e as gordurosas. À medida que envelhecemos, aumenta a quantidade das gordurosas. O princípio disso está no fato de que a mesma célula progenitora pode formar a célula gordurosa e as células ósseas (osteoblácitos). Na infância, a produção maior é de osteoblácitos, mas isso muda até a velhice, quando a quantidade de gordura é maior que a de células ósseas. Um grupo da Associação Americana de Diabetes, em 2010, fez um estudo com pessoas que usavam a rosiglitazona para o diabetes, avaliando a densidade óssea. A descoberta foi que havia uma diminuição dessa densidade em quem administrava o remédio porque ele promovia a produção de células adiposas em detrimento de osteoblácitos. A novidade do estudo de Styner é que o exercício físico pode reverter isso.”

João Lindolfo, membro do Departamento Metabolismo Ósseo e Mineral da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

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