Como manter o colesterol sob controle?

O cardiologista Raul Santos explica por que a variação "ruim" dessa gordura é nefasta para o coração e avisa que alguns indivíduos são geneticamente propensos a taxas elevadas

por Flávia Duarte 14/10/2014 13:00

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	Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Alimentação rica em gordura saturada, em carne vermelha, queijos amarelos, gordura de porco e dendê aumentam as taxas de colesterol (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Hábitos de vida pouco saudáveis, alimentação inadequada e fatores genéticos aumentam as taxas de colesterol do sangue, que, somadas a uma série de fatores de risco, tornam o coração uma verdadeira bomba-relógio. Por isso, controlar as taxas de LDL (o colesterol ruim) — seja com mudanças na rotina, seja pelo uso de medicações cada vez mais eficientes — foi um dos temas debatidos no 69º Congresso Brasileiro de Cardiologia, que reuniu médicos especialistas de todo o mundo em Brasília há duas semanas. Entre eles, o doutor Raul Santos, diretor da Clínica de Lípides do Instituto do Coração (Incor), da Faculdade de Medicina da USP, São Paulo, e secretário da Sociedade Internacional de Aterosclerose, que defende, veementemente, a manutenção das taxas adequadas do colesterol como uma medida preventiva eficaz contra doenças cardíacas.

Qual é a função do colesterol no organismo?
Você precisa de colesterol para viver. Esse lipídio só existe em animais e faz parte da membrana das células. Os hormônios sexuais, os hormônios da suprarrenais, os sais biliares — são todos ricos em colesterol. Além de o colesterol estar nos tecidos, ele também circula no sangue e é carregado pelas lipoproteínas. A mais importante delas é a LDL, que causa o problema cardiovascular. E tem a boa, que é a HDL. Quando você tem excesso de LDL, essa lipoproteína, carregada de colesterol, vai para a sua artéria e a entope com o tempo. Alimentação rica em gordura saturada, em carne vermelha, queijos amarelos, gordura de porco e dendê aumentam essas taxas.

É fato que o colesterol alto aumenta o risco de problemas no coração?
Associam-se as concentrações de colesterol do sangue com o risco de problemas cardiovasculares, principalmente das doenças coronárias, como o infarto do miocárdio. Se for avaliar a literatura médica, há milhares de estudos que avaliam a relação entre os valores de colesterol do sangue e o risco de problemas cardíacos. Isso é muito claro. É um fator importante, mesmo você corrigindo valores de pressão, de diabetes, tirando o cigarro. Teoricamente, quando você reduz o colesterol do sangue, está levando menos colesterol para as artérias, prevenindo o entupimento e a inflamação das artérias. O colesterol é altamente inflamatório e esse efeito leva ao infarto.

Arquivo Pessoal
Especialista defende colesterol sob controle como medida preventiva para doenças cardíacas (foto: Arquivo Pessoal )
Hoje, qual é a forma mais eficiente de controlar o colesterol?
A prática de exercícios aumenta o bom colesterol. Estilo de vida é extremamente importante, mas é preciso avaliar o seu risco. Você precisa medir a pressão, dosar o colesterol, a glicose, prestar atenção no histórico familiar, olhar para a barriga e ver se ela está grande. Dependendo do grau de risco, toma-se remédio ou não. No baixo risco, muda-se o estilo de vida.

Então as drogas entram nos casos em que só mudança de dieta e exercício físico não são suficientes?
O tratamento do colesterol vai ser para sempre. Não tem cura para colesterol alto na maior parte das situações. Então será um tratamento crônico, em que o indivíduo terá de tomar remédio para o resto da vida. As estatinas são medicamentos seguros e baratos. Temos seis ou sete tipos de estatinas — elas fazem parte de um grupo de medicamentos surgidos em 1987 que bloqueiam a produção do LDL e aumentam a quantidade de receptores hepáticos, responsáveis por absorver o LDL do sangue e o eliminar. Mas elas têm ação limitada. A melhor estatina reduz em 50% o LDL.

E por que em alguns casos nem as estatinas são eficientes para controlar o colesterol?
Existem pessoas com o colesterol extremamente elevado por causa da genética. Esses indivíduos têm uma doença chamada hipercolesterolemia familiar (HF). Você herda dos pais genes que vão aumentar o seu colesterol. O indivíduo tem o colesterol alto desde o nascimento — não é erro dietético. E lembre-se: é possível ter colesterol alto mesmo que seja magrinho, se tiver o gene. A HF afeta 1 em cada 200 ou 300 pessoas na população. Não é uma doença rara. Quando você herda um gene, tem o dobro do colesterol e vai ter problemas cardiovasculares provavelmente aos 40 anos, talvez um pouco antes, dependendo do quanto for alto o colesterol e se há outros fatores de risco associados. Na população normal, o risco vai aparecer pelos 55, 60 anos de idade. A HF aumenta o risco de problemas cardiovasculares de 15 a 20 vezes, comparando com quem não tem.

E como diferenciar esse quadro de uma taxa elevada de colesterol que se pode contornar?
O diagnóstico inicial é clínico, em que se verifica o nível de colesterol. Em geral, está acima de 190mg/dL. Vemos se a pessoa tem depósito de colesterol na pele — manchas amarelas nos olhos, bolas amareladas em cima dos tendões, dos joelhos, dos cotovelos. Existe ainda um exame genético, de sangue, que fornece evidência muito forte da HF. Conhecemos basicamente quatro genes que causam a doença. No Brasil, o único lugar que está fazendo esse teste é o Incor, de São Paulo, em um programa chamado Hipercol Brasil, de triagem ativa de paciente.

Uma vez identificada a HF, como tratar?

A hipercolesterolemia familiar é uma doença grave, de difícil controle. Mesmo com as estatinas, dificilmente conseguimos fazer esses pacientes ficarem com o colesterol dentro do recomendado. Vamos dizer que de 70% a 80% não ficam. As estatinas abaixam as taxas, reduzem a mortalidade, mas o colesterol continua alto. Um dos genes que causa a HF chama-se PCS-K9. O que essa proteína faz? A LDL, vilã do infarto, diminui quando se toma a estatina e é removida pelo fígado, que tem receptores dessa proteína. Se a pessoa tem muito PCSK9 , tem menos receptores para a LDL no fígado e menos capacidade para limpar o colesterol que está circulando. Nos últimos cinco anos, estão sendo testadas pelo menos quatro novas drogas que se ligam a essa proteína. A maior parte delas são anticorpos monoclonais, uma proteína que você sintetiza a partir de linfócitos e se liga somente a essa proteína específica e a inativa. Assim, a PCSK 9 não se ligará ao receptor da LDL e a concentração desse colesterol no sangue cai.

Essa é a grande promessa para reverter casos de colesterol muito altos?
Três desses anticorpos estão em fase bem avançada de desenvolvimento, já na fase 3. O efeito é impressionante: você consegue reduzir a LDL em 50% a 70% com uma injeção a cada 15 dias ou com uma injeção mensal. Será indicado para pacientes com HF já tratados com estatina, mas que persistem com LDL alta. Também poderá ser indicado para pacientes que não tomam estatina por causa das dores musculares. É uma revolução. Conseguiremos reduzir a LDL dos pacientes com HF grave para níveis normais.

Quando esse medicamento estará disponível?
Já estão pedindo a liberação no Food and Drug Administration (órgão regulador norte-americano), que deve sair em até dois anos. Para chegar ao Brasil, leva um pouco mais de tempo.

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