'Eu me apaixono por pessoas': configuração dos relacionamentos está cada vez mais flexível

Como um presente para as futuras gerações, cada vez mais pessoas rejeitam rótulos, como heterossexual, homo, bi ou pan

por Carolina Samorano 06/10/2014 09:00

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De repente, as classificações que já pareciam confusas para muitos — hétero ou homossexual, bissexual, assexual, transgêneros e a lista ainda vai longe — ficaram insuficientes para definir a diversidade do comportamento sexual de uma geração que não quer saber de se enquadrar, só de ser feliz. Os nomes, as orientações, seus limites e nuances saíram de cena para dar espaço a algo que tem importância muito maior: o amor.
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
A atriz e produtora Tatiana Carvalhedo já teve relacionamentos com homens e mulheres: "Me interesso por gente. É isso que importa" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)



Não que isso seja um traço exclusivo da atual geração, dizem os especialistas. A sexualidade humana sempre pendeu para certo pluralismo. A diferença é que antes não se falava sobre isso. Para se ter uma ideia, uma pesquisa do biólogo norte-americano Alfred Kinsey, no começo do século 20 e que viria a ser o alicerce do estudo da sexologia no mundo, identificou muito mais do que a hétero e a homossexualidade. O estudo, conduzido com milhares de americanos, homens e mulheres, de diferentes classes sociais, resultou no Relatório Kinsey, do qual saiu uma escala que coloca entre o comportamento “exclusivamente heterossexual” e o “exclusivamente homossexual”, outros cinco tipos de preferência (veja quadro). Era o primeiro indício de que a coisa não era assim tão simples quanto se achava.

Alguns estudiosos vão mais longe. Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, compara a noção de que as pessoas devem ser homo ou heterossexuais com a crença antiga de que o mundo era plano e o Sol girava ao redor da Terra. Para ela, em vez de hétero, homo, bi, pan etc., deveríamos dizer que as pessoas são simplesmente “sexuais”.

“Não acontece com todo mundo, mas pode ser que, em diferentes períodos da vida de uma pessoa, ela se sinta atraída por alguém do mesmo sexo. Há evidência de que as mulheres são mais suscetíveis a isso”, diz Jennifer Bass, diretora de comunicação do Instituto Kinsey de Pesquisa em Sexo, Gênero e Reprodução, fundado pelo próprio Kinsey nos anos 1940, na Universidade de Indiana. “Há um movimento hoje de se livrar de rótulos muito restritos, como homo e heterossexualidade, e há mais gente se identificando como ‘queer’ ou ‘questionando’. Eles não querem ser colocados em nenhuma categoria rígida.”

O termo em inglês, antigamente usado de forma pejorativa para designar homossexuais efeminados, perdeu a conotação ofensiva e hoje é usado para pessoas colocadas à margem por não seguirem o padrão da heterossexualidade ou do binarismo de gênero, sejam elas gays, lésbicas, bissexuais, sejam transgêneros.

Quem manda é o desejo
Para a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo, a discussão esbarra ainda no nosso momento histórico: é tempo de debater o tema, como já aconteceu com outros tabus, por exemplo, a masturbação. “Será que é diferente hoje ou será que hoje se fala mais abertamente sobre o assunto?” questiona. Ela acredita que o comportamento sexual parece mais livre porque o debate é mais amplo, e que, um dia, quando a discussão se esgotar, os rótulos deixarão de ter tanta importância. “Acredito que todo assunto, quando é muito debatido, muito falado, cai no lugar comum. Quando se esgota, a postura das pessoas diante daquilo muda”, pontua.

O fato de a juventude ter mais coragem para expor suas preferências e se encaixar ou não em padrões pré-estabelecidos ajuda a acelerar o processo de pôr fim ao estigma da sexualidade. “Vejo as novas gerações vivendo sua sexualidade. Por isso, essas e outras mudanças vão continuar acontecendo. Mas não na maneira como as pessoas fazem sexo. E, sim, na forma como a sociedade lida com as diferenças sexuais. Assim como, antes do surgimento da pílula anticoncepcional, as pessoas já faziam contracepção, usando coito interrompido. Apenas não se comentava. É o mesmo”, compara a especialista.

A sensação de uma suposta “evolução” na maneira de pensar, no entanto, é vista com cautela por Jennifer Bass, do Instituto Kinsey. “Isso tem muito mais a ver com cultura, crenças religiosas e política do que com uma evolução na forma de pensar”, analisa. “Ainda existem partes do mundo em que continua sendo inaceitável — e até perigoso — se abrir quanto à sexualidade. Por outro lado, com a internet e o mundo globalizado, as minorias sexuais e de gênero encontram apoio e informação com mais facilidade”, continua.

Para o psicólogo Henrique Nardi, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o desejo sempre existiu, mas o que faz as pessoas se sentirem livres para se entregar ou não a ele é a norma social vigente, que muda de tempos em tempos. “O desejo não se controla, faz parte do inconsciente. Mas as pessoas se identificam com uma ou outra orientação sexual de acordo com a norma social. Enquanto ela for rígida, as pessoas vão viver mais escondidas. O que precisa ficar claro é que permitir, por exemplo, o casamento homossexual não vai ‘produzir’ mais gays. Isso é desejo. E desejo não se controla com lei”, ressalta o psicólogo.

Escala Kinsey (1948)
0 - Exclusivamente heterossexual
1- Predominantemente heterossexual, com incidentes homossexuais
2 - Predominantemente heterossexual, com mais do que incidentes homossexuais
3 - Igualmente hétero e homossexual (bissexual)
4 - Predominantemente homossexual, com mais do que incidentes heterossexuais
5 - Predominantemente homossexual, com incidentes heterossexuais
6 - Exclusivamente homossexual

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Eduarda Pontual, de 22 anos, já namorou homens e mulheres: "Se a pessoa me faz feliz, seja ela quem for, eu vou ficar com ela. É isso" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Sem amarras
“Qualquer maneira de amor vale a pena.” O coração da atriz e produtora Tatiana Carvalhedo, 37 anos, funciona mais ou menos como a música de Milton Nascimento. Tem espaço sobrando para o amor, não importa se por homem ou mulher, não importa se hétero ou homossexual. Nunca deixou se definir por rótulo algum a não ser o da entrega. Romântica, casou-se cedo: aos 17 anos, com o primeiro namorado. Já tinha ficado com algumas meninas. “Fui criada com uma liberdade muito grande, as coisas sempre foram bem naturais”, conta. Do casamento precoce, guardou as lembranças e o filho, de 19 anos, que hoje vive com ela.

Anos e relacionamentos depois, foi por uma mulher que o coração bateu mais forte. Sem crise existencial, Tatiana se deixou viver mais uma história de amor, que durou oito anos. “Minhas amigas levaram um choque”, lembra. “Elas diziam: ‘Como assim, sempre te vi com homens enormes, másculos!’”, ri Tatiana. Em casa, a reação de estranhamento veio do filho. “Ele disse: ‘Mãe, eu adoro ela, mas eu não gosto que ela seja sua namorada’. E eu disse a ele que não precisava gostar, mas tinha de respeitar, e tem de ser assim para todo mundo. Ninguém precisa gostar de ver duas pessoas do mesmo sexo juntas, mas precisam respeitar. Tenho amigas que namoram homens que eu não gosto, que as maltratam, que as humilham, e eu os respeito ainda assim.”

Na adolescência, as coisas ficaram mais naturais para o filho. A juventude, ela diz, vem hoje com outra mentalidade, mais aberta e menos preconceituosa, algo que ela vê como um prenúncio de que, no futuro, as pessoas vão dar mais espaço ao amor e menos ao preconceito. “Eu sou Tatiana, mas sou muito mais que isso. Me interesso por gente. É isso que importa”, resume. Algumas semanas atrás, a notícia do assassinato de um menino homossexual, da idade de seu filho, a deixou incrédula. “Fico pensando se eles tinham os mesmos sonhos, a vida parecida. Poderia ter sido meu filho. Enquanto as pessoas ficarem discutindo rótulos, as coisas não mudam. É de amor que eu estou falando. E se é bom para as duas partes envolvidas, então que bom. É isso que importa”, diz.

A estudante de publicidade Eduarda Pontual, de 22 anos, faz parte do time das pessoas que preferem não se enquadrar em time nenhum. “Não saio dizendo que sou lésbica, que sou hétero, bi, isso ou aquilo. Se a pessoa me faz feliz, seja ela quem for, eu vou ficar com ela. É isso”, sintetiza.

Para ela, a sua geração ainda não lhe permite o privilégio de viver com mais liberdade. Embora, entre os amigos mais próximos, seus relacionamentos nunca tenham sido tabu, vez ou outra, ela ainda esbarra no preconceito — e não só de heterossexuais escandalizados com os relacionamentos de Duda com outras meninas.

“Outro dia me vi discutindo com uma menina da minha sala totalmente contra a legalização do casamento homossexual. E ela tem a minha idade, estuda comigo. Já vi lésbicas revoltadas também porque fico com meninos de vez em quando”, conta. Não se encaixar em nenhuma das orientações, ela diz, às vezes é mais difícil do que simplesmente se dizer uma coisa ou outra. “ Tenho fases. Agora, por exemplo, tenho me relacionado muito com meninas, mas se encontrar um cara que me faça feliz e com eu queira me casar, caso com ele”, sublinha a estudante.

O caminho de descobertas começou cedo. Conheceu o primeiro namorado, 11 anos mais velho, na igreja evangélica que frequentava. Ela tinha 12; ele, 23. O plano era que o casamento ocorresse quando ela completasse 18 anos. Com três anos de relacionamento, Duda terminou. “Percebi que sentia atração por meninas também. Na época, claro, achava aquilo errado. Mas disse para ele que queria experimentar.”

Duda chegou a viver dois anos com uma menina, além de ter tido outros relacionamentos menos longos, de alguns meses. “Digo que gosto de seres humanos, é isso. Não sou nada, aceitem”, ri. Para os pais, no entanto, não é tão simples. “Meu pai aceita melhor, mas sempre se referiu às minhas namoradas como ‘amigas’. Já minha mãe acha que eu estou querendo acabar com o casamento tradicional (risos), mas aprendeu a respeitar”, conta.

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