Doenças da pobreza resistem no país

Medidas preventivas para alguns casos não estão totalmente disponíveis. Especialistas veem necessidade de combate mais efetivo

por Ana Pompeu Julia Chaib 03/10/2014 14:00

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Apesar de a incidência das chamadas doenças negligenciadas apresentar índices decrescentes no país, o Brasil ainda convive com número significativo de casos dessas enfermidades. Construções de baixa qualidade, esgoto a céu aberto e contato diário com ambientes sem higiene são situações que deixam a população mais vulnerável a enfermidades como a esquistossomose, a doença de Chagas, a tuberculose e as diarreicas. Não à toa, são também chamadas doenças da pobreza, aquelas para as quais a indústria farmacêutica não volta suas atenções em razão da baixa perspectiva de lucro.

As medidas preventivas e o tratamento para algumas dessas moléstias são conhecidos, mas não estão totalmente disponíveis nas áreas mais pobres. Além disso, a indústria tem menos interesse em desenvolver métodos de diagnóstico mais eficazes e novos medicamentos.Essas doenças são causadas por agentes infecciosos ou parasitas e são consideradas endêmicas em populações de baixa renda. Por isso, especialistas até comemoram a queda nos números. Doenças infecciosas e parasitárias, por exemplo, eram responsáveis por 11,6% das mortes no país em 1980. Em 2009, esse índice baixou para 4,9%.

Ainda assim, os casos resistem. A malária, que atinge principalmente a região amazônica, teve uma queda de 26% entre 2012 a 2013, segundo dados do Ministério da Saúde, mas ainda chama a atenção a quantidade de 179 mil notificações no ano passado. A tuberculose apresenta um índice estável, com 70 mil registros no ano passado, quase o mesmo que os 71 mil de três anos atrás. Hoje, o Brasil está na 16ª posição na lista de países com maior número de casos da doença. As diarreicas, relacionadas a más condições de saneamento, tiveram aumento do número de casos e mataram mais de 4 mil pessoas no ano passado, principalmente crianças de até cinco anos (leia memória). Os óbitos têm a ver com o difícil acesso aos centros de saúde e ao pouco conhecimento referente a soluções caseiras.

Na opinião do presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Carlos Henrique Nery da Costa, o Brasil tem trabalhado para reduzir a incidência dessas doenças, mas os números ainda preocupam. “Ainda falta muito, senão elas teriam desaparecido, uma vez que temos exemplos de nações que conseguiram controlar as doenças. A China, por exemplo, acabou com a leishmaniose visceral e praticamente liquidou a esquistossomose”, detalha. De acordo com o especialista, as taxas brasileiras se assemelham mais às dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que às dos desenvolvidos.
“Outro ponto importante é que, muitas vezes, os programas de controle dentro do Ministério da Saúde são muito bemfeitos e organizados, mas eles têm impacto muito reduzido quando distribuídos entre estados e municípios”, avalia Nery.

Sem controle
Por mais que as doenças tenham o clima e a maior incidência nas classes mais pobres como denominadores comuns, cada uma tem especificidades. De acordo com Nery, dengue e leishmaniose visceral são as mais preocupantes. A primeira por ser endêmica e acontecer em qualquer ambiente. A segunda tem maior incidência e letalidade, além de ser pouco debatida. Os pesquisadores não têm sugestões sobre como controlar a enfermidade, apenas como tratá-la. “Nenhuma das duas tem controle.”

A malária ainda mata muitas pessoas, assim como a doença de Chagas, que a ciência não sabe ainda como tratar na sua forma crônica. A hanseníase provoca sofrimento no paciente, além do estigma e preconceito envolvidos. Ela precisa de diagnóstico rápido e boa estrutura das equipes de saúde. Já a esquistossomose está intimamente ligada às condições de higiene e saneamento básico das comunidades. “É um dos calcanhares de Aquiles do país”, diz Nery.

A tuberculose também atinge principalmente os mais pobres. Epidemiologista, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e integrante da Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose, Ethel Leonor Noia Maciel explica que a doença não se relaciona a más condições de água. “Quando moram 14 pessoas numa casa de dois cômodos, que tem uma ventilação ruim, a probabilidade de transmissão é maior do que em um lugar arejado, com várias janelas”, afirma. “As próprias questões nutricionais fazem diferença. Se a pessoa é bem nutrida, o corpo combate o bacilo.”

A aglomeração de pessoas também é um fator de risco. Por isso, os presídios têm alta incidência da doença. Nos municípios, a maior concentração de casos de tuberculose no país ocorre no Rio de Janeiro. “São as favelas e as comunidades mais pobres”, explica Leonor. “Os indivíduos têm inúmeras verminoses. Há muitos lugares onde não há serviços de saúde”, diz. Segundo ela, tem crescido também a incidência em moradores de rua, porque muitos têm problemas de desnutrição, associação com drogas e contaminação por HIV.

Leonor, entretanto, avalia que o governo tem investido mais no combate a essas doenças, tanto com a criação de um departamento específico para a área no Ministério da Saúde, quanto no financiamento de pesquisas. Mas, segundo ela, a melhor forma de eliminar as doenças é trabalhar para erradicar a miséria.

Memória
Mortes em Alagoas
Uma epidemia de diarreia deixou 165 pessoas mortas em Alagoas no ano passado. De acordo com dados da Secretaria de Saúde do estado, pelo menos 92 mil casos foram registrados. O surto durou entre maio e agosto de 2013. O secretário de Saúde de Alagoas, Jorge Villas Bôas, chegou a dizer que as mortes ocorreram porque muitas pessoas procuraram os centros de tratamento tardiamente ou não receberam o atendimento inicial adequado ao chegarem ao local. A maior parte dos óbitos foi registrada em crianças, muitas com até um ano de idade, e em idosos. O Ministério Público estadual abriu uma investigação no ano passado para apurar as causas da epidemia, relacionada à contaminação da água.

179 mil
quantidade de pessoas atingidas por malária no ano passado

"Os programas de controle são muito bemfeitos, mas eles têm impacto reduzido quando distribuídos entre estados e municípios” - Carlos Henrique Nery, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical


Exame em duas horas

O Ministério da Saúde afirmou ao Correio ter desenvolvido medidas para eliminar as doenças. A pasta ainda considera a tuberculose um problema de saúde pública e, por isso, o Programa Nacional de Controle da Tuberculose está ampliando o diagnóstico da enfermidade por meio da expansão da Rede de Teste Rápido Molecular. O exame identifica o caso de tuberculose em até duas horas. O Ministério afirma que atua na eliminação da esquistossome por meio do diagnóstico rápido, feito com exames de fezes, e levantamento do índice de contaminação no local.

Entre outras medidas anunciadas, estão “tratamento oportuno dos casos conforme estratégia indicada, realização de atividades de educação em saúde para a comunidade sob risco, levantamento dos locais onde existem caramujos e verificação da taxa de infecção para indicar áreas de risco”. A pasta disse que trabalha com a análise de informações para verificar “intervenções em saneamento domiciliar ou ambiental”.

No caso de Chagas, o ministério oferece gratuitamente aos estados o tratamento específico para todos os pacientes identificados com a doença na fase aguda ou portadores crônicos com indicação de tratamento. A Secretaria de Vigilância em Saúde do ministério mantém uma política permanente de apoio técnico aos estados que registram casos agudos da doença.

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