Tela ou papel? Especialistas acreditam que convivência de modelos pode fortalecer o gosto pelos livros

Crianças, adultos e idosos buscam informações e diversão tanto em obras tradicionais quanto nas plataformas eletrônicas

por Correio Braziliense 29/09/2014 15:00

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Apesar de Alice Brites usar um tablet na escola, a menina de 7 anos prefere obras impressas. “Gosto de passear nas livrarias e ver coisas interessantes”, conta. O irmão mais velho dela, João Diogo Brites, que foi educado em livros de papel, não esconde a preferência pelo meio virtual. “É mais barato, prático e fácil de ler”, justifica o jovem de 20 anos. A uniformidade definitivamente não se aplica quando o assunto é a leitura. Além das preferências com relação aos estilos, o público se divide entre as opções tradicionais e eletrônicas. Especialistas avaliam a convivência entre os novos formatos. Conforto e saudosismo estão entre as razões de tamanha diversidade.

Daniel Ferreira/CB/D.A Press
A leitura é hábito para os irmãos Alice e João. A menina gosta dos livros de papel. O adolescente, dos virtuais (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Lúcia Santaella, livre-docente em liguística, acredita que uma das razões da coexistência entre os formatos esteja nas experiências distintas que eles proporcionam. “O cheiro do papel, o manuseio e o folhear do livro como um objeto físico diferem da manipulação de um leitor eletrônico”, compara. Ela explica que a interatividade da internet é fundamental nesse contexto. “É certo que, embora aparentemente linear, o livro impresso também permite retomadas, idas e vindas, leituras repetidas, mas a manipulação do papel e o volume à esquerda e à direita que vai se formando no desenrolar da leitura são bastante distintos da navegação interativa”, descreve.

Se crianças e jovens ficam divididos entre os benefícios de cada formato, o que dirá os mais velhos. A psicóloga Natalie Mas reforça que as ponderações entre vantagens e desvantagens ganham outra preocupação quando se levam em conta os ensinamentos que serão repassados aos filhos. “Ainda que eu não acredite na tendência do desaparecimento total do impresso, acho, sim, que ele está sendo em uma grande proporção substituído pelo conteúdo virtual. E isso, com certeza, deve causar consequências na forma com que a criança se relaciona com o hábito da leitura.”

Mesmo passando bastante tempo folheando páginas em casa, Alice Brites vive a leitura virtual na escola. Há, inclusive, um concurso que contabiliza as obras lidas pelos alunos. “Tem todos lá, mas só em versão digital”, lamenta. Marcelise Azevêdo, mãe da menina, incentiva em sentido contrário. Ela estimula a filha a procurar os impressos para perceber que “o mundo vai além do virtual”. “Não acho que pelos eletrônicos seja ruim, mas as crianças precisam ver que existem outros meios. Se a bateria acaba e a energia também, elas não vão saber o que fazer”, avalia.

Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press
João Paulo escolhe a versão conforme a conveniência: notícias na internet e literatura no formato tradicional (foto: Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press)
Natalie Mas aprova a atitude de Marcelise e percebe as consequências dela em seu consultório. “Eu tenho uma estante de livros. Uma criança cujos pais não apresentaram a mídia impressa fica sentada brincando no celular. A que foi apresentada à leitura tradicional olha e fala: ‘Que legal! Quantos livros!’”, compara.

A observação pode sinalizar um entendimento melhor dos pequenos sobre as realidades que os cercam. “Existe a falsa impressão de que palavras e atos podem ser apagados com uma borracha. Como se fosse um blog em que a pessoa escreve, edita e ninguém percebe. É importante que as crianças saibam que não dá para voltar atrás sempre. Por isso que na escola a transição de escrever com lápis para escrever com a caneta é um evento tão grande.”

Incentivos
Não dá para usar apenas um formato de leitura. João Paulo Novais, 34, utiliza todos. “Leio notícias e artigos on-line porque é mais rápido. Ainda assim, para a literatura, reservo os livros. Eu gosto de pegar neles, ver quantas páginas faltam, sentir o cheiro…” Pai de dois meninos, o analista de sistemas lê à noite para eles. “Já foram vários, como As aventuras de Pi e As crônicas de Nárnia. Estamos agora na série do Harry Potter”, lista. Ainda assim, os atrativos da versão tradicional parecem não ter conquistado os pequenos: “Eles estão crescendo em outra realidade, os gadgets são quase a extensão dos braços deles, mexem com muita facilidade.”

Para a psicóloga Natalie Mas, João Paulo está certo no método de despertar nos filhos o interesse pela leitura. “Acho que incentivar esse hábito está mais para a oferta da possibilidade de praticá-lo, que pode vir de um ‘agora o papai vai ler uma história para você’, do que na decisão de colocá-lo como obrigatório. Além disso, no momento atual, isso pode ocorrer não só a partir do impresso, até porque isso beira o impossível”.

Natalie Mas reforça que a plataforma não importa. O interesse pode ser mantido independentemente do dispositivo de leitura. A observação é repetida por Lúcia Santaella. “Crianças de 1 ano começam a manipular iPads. Com três, já são experts. Quem disse que isso não é um modo de ler? Começam, inclusive, a memorizar formas de letras, dando início ao processo de alfabetização. Ao mesmo tempo, também sentem atração por revistas e por livros ilustrados impressos. Passam de um para o outro com a maior naturalidade, sem as nostalgias que, muitas vezes, podem afetar os pais e professores.”
Para a especialista, há que se considerar ainda que as mídias digitais acabam por prestar um grande serviço aos livros em papel em termos de divulgação, arquivo, edição, leitura, consulta, análise e comercialização. “A existência de sites de editoras e de blogs de autores oferece uma importante ferramenta, funcionando como difusores que ajudam a incrementar a venda tanto de livros em papel quanto eletrônicos.”

Velocidades distintas
Um estudo feito pela empresa americana Nielsen Norman Group mostrou que ler na mídia impressa é mais rápido que na virtual. No experimento, os participantes utilizaram quatro plataformas de leitura (impressa, computador, tablet e e-reader) para lerem contos de Ernest Hemingway, considerados pelos estudiosos obras prazerosas e descomplicadas. Em média, cada história tomou 17 minutos e 20 segundos dos leitores. No fim, percebeu-se que o e-reader diminui em 10,7% a velocidade de leitura em relação ao livro impresso, enquanto o tablet reduz em 6,2%. Além disso, as obras em papel foram classificadas como mais relaxantes e o computador, a plataforma com a menor nota de satisfação dos participantes.

Linguagens vivas e em evolução
“O mundo em que estamos vivendo é um mundo de coexistência e congraçamento de todas as formas de linguagem: a oral, a escrita, a impressa, a audiovisual e a digital. Há linguagens e mídias para todos os gostos e predileções. É certo que a leitura interativa, que também chamo de imersiva, aquela que se tem nas redes, é a dominante. Mas isso não significa que as outras tenham desaparecido. É só prestar um pouco mais de atenção para se dar conta de que todas elas estão ativas e vivas, inclusive em constante transformação. À primeira oralidade acrescentou-se uma segunda oralidade, aquela do cinema, do rádio e da tevê. À primeira escrita, caligráfica, seguiu-se uma segunda, a impressa, e, agora, a terceira, a digital. A tendência das linguagens humanas é crescer e se multiplicar. Não creio que vai desaparecer o leitor meditativo, concentrado, apto a memorizar a aprendizagem que a leitura lhe traz. Tão logo alguém tenha a curiosidade despertada por um assunto no qual queira se aprofundar e se especializar, o leitor contemplativo entra em cena. Em suma, são as possibilidades de leitura e a riqueza cognitiva do leitor que estão se expandindo, não o contrário.”

Lúcia Santaella, especialista em linguística
Minervino Junior/CB/D.A Press
Amarílio é um entusiasta da tecnologia e estimula a família a aderi-la (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Sem interferência na compreensão
Uma pesquisa feita pelas universidades de Johannes Gutenberg de Mainz e Georg August Göttingen, na Alemanha, e publicada em fevereiro pela revista científica Plos One indica que o nível de compreensão de um texto não varia significativamente conforme o formato usado independentemente da idade do leitor. Por isso, Amarílio Tadeu é um defensor da leitura digital e incentiva a família a adotar o formato.
Aos 69 anos, o aposentado comemora os benefícios da tecnologia principalmente antes de dormir. “Eu posso ler sem incomodar minha mulher com a luz da lâmpada do quarto ou de uma luminária. Ambos ficamos felizes”, conta. Amarílio começou a usar o meio digital em 2010, quando adquiriu o primeiro tablet.

O aposentado diz que a adaptação foi rápida porque o objeto é compacto e não apenas permite ler sem precisar de iluminação externa, mas também acessar sites e aplicativos. “Eu fui um dos primeiros a ter laptop entre meus amigos. Também tenho tablets desde o primeiro que foi lançado.” Com a leitura digital, não foi diferente. “Minha mulher já pega para ler notícias. Minhas filhas e meu neto estão começando a pegar o jeito também. Sempre que vão comprar alguma coisa, perguntam para mim antes se vale a pena”, orgulha-se.

Especialista em linguística, Lúcia Santaella concorda com a visão de Amarílio, uma vez que acredita na flexibilidade do formato digital. “Há múltiplas camadas e habilidades para entrar, alterar, emendar e sair de um texto de modo não linear, saltar para um gráfico, um mapa, uma animação, um vídeo, tudo isso acompanhado de som, enfim, uma atividade que demanda mudanças dramáticas nos hábitos de leitura”.

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