Além da bombinha: novos estudos indicam medidas alternativas para evitar a asma

Ter contato com animais nos primeiros meses de vida é uma delas

por Correio Braziliense 26/09/2014 15:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
José Teixeira, 43 anos, sofre com a asma desde pequeno. Até conseguir controlar de vez os sintomas da doença, o engenheiro civil foi submetido a uma diversidade de tratamentos. “De 6 meses até os 16 anos, era com nebulização e remédio. Também fiz natação para aprender a respirar melhor”, conta. As intervenções ajudaram José a ficar livre do problema respiratório até os 24 anos. “O médico me explicou que quem tem asma desde criança costuma não apresentar os sintomas durante a puberdade”, diz. Aos 40 anos, porém, os incômodos voltaram e José passou a ser medicado com a famosa bombinha, uma combinação de broncodilatadores e anti-inflamatórios.

Além do remédio, ele se preocupa em escolher móveis e decorações que sejam fáceis de limpar, impedindo o acúmulo de poeira, e evita ter animais dentro do apartamento. Mesmo tendo convivido com bichos de estimação na adolescência e não tendo crises respiratórias, ele pediu para a mulher não comprar um gato. “Eu gosto muito, mas, por conta da asma dele, tive que abrir mão”, conta Gisandra Faria.

Mas, de acordo com os pesquisadores do centro de pesquisa alemão Helmholtz Zentrum München, uma alternativa para evitar que bebês desenvolvam a doença pode ser justamente uma atitude oposta à tomada pelo casal e vivenciada por José quando pequeno: o contato diário com bichinhos de estimação nos primeiros meses de vida. O estudo indicou que bebês que dormiram sobre o pelo de pets nos três primeiros meses apresentaram menos chance de ter a asma durante a infância.

“Estudos anteriores sugerem que micróbios encontrados em zonas rurais podem proteger contra a asma. Na pele animal, também podem ser encontrados vários tipos desse micro-organismo”, explica Christina Tischer, integrante da pesquisa. Os cientistas analisaram aproximadamente 2.500 recém-nascidos expostos à pele e ao pelo de animais durante o sono. Informações clínicas foram coletadas das crianças até elas completarem 10 anos.

Os resultados, apresentados durante o Congresso Internacional da European Respiratory Society (ERS), no início deste mês, em Munique, na Alemanha, indicam que a chance de desenvolver a asma aos 6 anos é 79% menor em crianças que tiverem contato com o pelo animal; e o risco para crianças de 10 anos é 41% menor em relação àquelas que não foram expostas ao mesmo material.

Para Antônio Carlos Pastorino, pediatra imunologista do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa reforça que o sistema imunológico dos bebês ainda é fraco e, por isso, pode criar uma resistência a certos tipos de substâncias que causam alergia. “Quando crianças dessa idade são expostas com frequência ao pelo do animal, por exemplo, o sistema entende que essas substâncias não são estranhas para o corpo, não reagindo a elas no futuro”, detalha.

Mas Pastorino alerta que é importante ter cuidado com os resultados do estudo, pois nem todas as crianças reagem da mesma maneira. Segundo o especialista, o contato nos primeiros meses de vida com o pelo animal ou outras substâncias que causem algum tipo de alergia não impede que esses bebês desenvolvam a doença.

Apoio psicológico

Outra pesquisa, também apresentada no Congresso da ERS, buscou no apoio mental uma alternativa para controlar os sintomas da doença respiratória. O estudo, do Hospital Universitário de Southampton, no Reino Unido, mostra que 27% das pessoas que sofrem com a asma também enfrentam problemas psicológicos, o que pode interferir no tratamento da enfermidade crônica. Para chegar a essa conclusão, analisaram 11 pacientes com problemas psicológicos e que foram hospitalizados por causa de crises asmáticas duas ou mais vezes nos 12 meses antes de a pesquisa ser realizada.

Os dias em que as pessoas ficaram no hospital e o número de internações foram monitorados seis meses antes do início do atendimento psicológico e seis meses depois. Os resultados do início da pesquisa mostraram que os participantes totalizaram 19 hospitalizações devido às crises da doença e permaneceram 159 dias no hospital. Após os seis meses de análise, quando houve o apoio psicológico, as quantidades reduziram para 10 internações e 93 dias, uma queda de 42% comparado aos primeiros resultados.

Andrew Tan, médico responsável pela pesquisa, acredita que os resultados do estudo não trazem benefícios apenas para quem sofre com a asma. “A pesquisa não ajuda somente a melhorar a qualidade de vida para o paciente, também diminui a carga do sistema de saúde ao reduzir a quantidade de tempo que esses pacientes ficam no hospital.”

Pollyanna Abreu acredita que o acompanhamento psicológico ajuda a pessoa a aprender como lidar melhor com os sintomas da doença. “O terapeuta olhará para todos os aspectos da vida do paciente, o ambiente no qual está inserido, e analisará quais intervenções individuais ou junto à família serão necessárias. Essas intervenções apresentam grandes chances de amenizar sofrimento na vida do paciente”, explica a psicóloga.

Bronquíolos estreitados
Doença crônica das vias aéreas que causa principalmente falta de ar, tosse e sensação de aperto no peito. Quando expostos a substâncias alergênicas — pólen, mofo e inseticidas, por exemplo —, os bronquíolos, canais de ar dos pulmões, ficam estreitos , dificultando a passagem de ar. Em crises mais severas, o asmático pode sofrer com diminuição grave de oxigênio no sangue, causando confusão, sonolência e pele azulada.

Ansiedade piora os sintomas
“Pacientes com o diagnóstico de asma, tendo um controle emocional nos episódios de exacerbação da doença, poderão seguir melhor as orientações médicas indicadas. Sabe-se também que o controle da respiração é, em grande parte, dependente do estado psíquico. Paciente ansioso respira mal, o que, nas situações de agravamento da asma, contribui em muito para a piora dos sintomas. Essas novas linhas de tratamento são bem-vindas se gerarem a possibilidade de reduzir a quantidade do uso de fármacos nas formas de maior gravidade.” - Ricardo Martins, pneumologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB)

Remédios na cozinha
Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) apostam na ingestão de ômega 3, ácido graxo encontrado em peixes, e da mangiferina, substância com propriedades anti-inflamatórias e antiespasmódicas presente na casca da mangueira, para o alívio dos sintomas da asma. O objetivo da pesquisa é achar alternativas aos corticoides, o que beneficiará principalmente os pacientes que não melhoram com o uso de anti-inflamatórios esteriodais. De acordo com o estudo, de 5% a 10% das pessoas que apresentam o quadro severo da doença têm a capacidade respiratória reduzida e, por isso, a medicação não consegue chegar aos pulmões.

Patrícia Silva, pesquisadora do Laboratório de Inflamação do IOC, estudou o efeito do ômega 3 para o tratamento de crises alérgica em camundongos. Um grupo de animais consumiu ração com o óleo de peixe, enquanto outro continuou se alimentando apenas de ração. Depois de quatro semanas, uma reação alérgica foi provocada nas cobaias com albumina de ovo. A crise alérgica dos animais que ingeriram ômega 3 foi reduzida em 60% comparada à reação dos outros animais.

Segundo Patrícia Silva, a substância funcionaria como um tratamento preventivo da asma, não como um remédio para uso imediato. “O uso contínuo do óleo de peixe ajudaria a diminuir os sintomas de futuras crises, mas ainda não podemos dizer que haverá melhora ao tomar ômega 3 durante uma crise”, pondera. O estudo contou com a colaboração das pesquisadoras Márcia Águila e Thereza Bargut, do Laboratório de Morfometria, Metabolismo e Doenças Cardiovasculares da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Na mangueira
O uso da mangiferina contra os sintomas da asma foi analisada por Marco Aurélio Martin, também do Laboratório de Inflamação do instituto. O composto já é encontrado em remédios fitoterápicos no Caribe e em Cuba para tratar infecções virais. Na primeira etapa da pesquisa, Martins ministrou a mangiferina em um sistema de órgão isolado e o expôs a antígenos, substância que provoca resposta imune no corpo. Os sistemas tratados com o composto tiveram menores contrações das vias aéreas, facilitando a passagem de ar para os pulmões.

Na segunda fase, camundongos foram submetidos a testes depois de ingerir a mangiferina. Novamente, o uso do composto evitou a contração das vias aéreas. Assim como na pesquisa com ômega 3, a próxima etapa é adaptar o composto para o uso clínico em humanos. “Ainda precisamos ver as reações em humanos para afirmar o sucesso do remédio porque o estudo em ratos apenas imita reações alérgicas”, explica Martins. Os resultados indicaram ainda que a substância presente na casca da mangueira pode ser vantajosa em pacientes com asma e diabetes. Segundo Martins, os remédios usados atualmente para tratar as crises respiratórias agravam o quadro do problema metabólico.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA