Primeiros desenhos da infância servem como indicativo do nível de inteligência na vida adulta

Especialistas ressaltam que essa habilidade é influenciada por outros fatores, como atividades extracurriculares e relações sociais saudáveis

por Correio Braziliense 25/09/2014 13:00

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Minervino Junior/CB/D.A Press
André Luiz Alcântara (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Aos 5 anos, André Luiz Alcântara fez um desenho da família que foi escolhido para estampar uma camiseta comemorativa da escola em que estudava. Nesse mesmo ano, começou a ler antes dos ensinamentos da professora. Destaques de aprendizagem se repetiram ao longo da vida estudantil. O mais recente é a aprovação no último vestibular da Universidade de Brasília antes mesmo de o jovem completar o ensino médio. Um estudo feito no Instituto de Psiquiatria do King's College London, no Reino Unido, indica que pode existir relação entre a primeira e a atual vitória. Publicada na revista científica Psychological Science, a pesquisa indica que os primeiros rabiscos de uma criança servem como indicativo do nível de inteligência quando ela fica mais velha.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram mais de 7 mil pares de gêmeos idênticos e não idênticos, convidados a desenhar uma pessoa. As ilustrações receberam nota conforme a equivalência com a realidade. Dez anos depois, os voluntários retornaram para realizar um novo teste. Dessa vez, mais cognitivo (saiba mais abaixo). Aqueles que se destacaram no primeiro experimento chamaram a atenção também no segundo.

Segundo Rosalind Arden, líder da pesquisa, o tamanho da amostra dá grande confiança aos resultados, mas as conclusões foram apenas de que há alguma associação entre os escores de desenho aos 4 anos e a inteligência. “Muitas crianças que apresentaram resultado baixo vão ser brilhantes. Percebemos uma tendência, não uma certeza”, ressalta. Ao longo da vida, habilidades se sobrepõem. Quando se tem facilidade com alguma coisa e se começa a aprender outra, mesmo que utilizando diferentes partes do cérebro, ambas as habilidades evoluem. “Muitas vezes, usamos essa sobreposição entre facilidades como nossa medida de inteligência”, explica a pesquisadora.

Durante os ensinos fundamental e médio, André sempre ficou entre os primeiros da turma e quase não teve dificuldade com as matérias. “Quando não sei alguma coisa, ‘dou uma lida’ e aprendo rápido. Os momentos em que eu sentava e abria o livro por mais de uma hora eram a véspera de provas”, diz o estudante de engenharia civil. A mãe, Maria do Carmo Alcântara, 50, se lembra de quando tentou sentar para estudar com o filho ainda pequeno: “Ele virou para mim e falou ‘Eu não preciso, já sei’. Então, eu o desafiei dizendo que, já que sabia, tinha que tirar 10. Pois é, perdi”, lembra.

Pesquisar artigos sobre biologia e física, ver tevê e ler livros de literatura estão entre as diversões do jovem. Até chegar à universidade, André fez futsal e participou da banda de música do colégio tocando trombone. De acordo com o psicólogo Julio Laurnagaray, fazer outras atividades ajuda no desenvolvimento de diferentes tipos de inteligência. “Qualquer contato com o mundo — seja ele por meio das artes, da leitura, seja pela alimentação variada — acrescenta para as áreas do cérebro, que são desenvolvidas com mais facilidade ao longo da fase de crescimento.”
Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press
Tinta e papel são a grande diversão de Eduardo. A mãe, Valdênia, se impressiona com a habilidade do filho (foto: Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press)

Basta estimulá-los
Arden, responsável pelo estudo, reforça que a relação entre os primeiros desenhos e a inteligência é uma tendência. Outros fatores vão interferir na construção dessa habilidade, como os estímulos recebidos pela vida. Cabe aos pais, portanto, estimular os filhos a expressarem a forma como veem o mundo. “Vamos incentivar as crianças a desenhar sem que eles, os pais, avaliem a si mesmo e os filhos”, propõe.

É no jardim de casa e usando tintas que Eduardo Pires, 5, gosta de ficar. “Durante um tempo, se chateava porque não conseguia colocar no papel o que imaginava”, conta a mãe, Valdênia Pires, 33. “Mas eu o incentivei a continuar e ele voltou.” A insistência da mãe e a prática do filho o levou a ter um olhar bem mais detalhista. “Se peço para ele desenhar uma casa, fica muito claro a casa que ele escolheu. Quando é a nossa, por exemplo, ele faz a cor, o número de janelas e as plantas bem certinhos”, orgulha-se. A maturidade que o pequeno mostra nos traços também impressiona a mãe. “Se ele está triste, desenha. Se está feliz, desenha. Ele se abre a uma expressão diferente dos sentimentos e consegue mostrar as emoções.”

De acordo com o psicólogo Julio Laurnagaray, crianças reproduzem o que está ao redor delas de formas distintas e, normalmente, de um jeito que condiz com o tempo que viveram. “Uma dica para desenvolver o intelecto e as habilidades emocionais é estimulá-las desde cedo. Adequar o tipo de ensino à idade também é fundamental.”

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Beatriz já fez esportes, inglês, violino e até aula de desenho (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Valdênia aguarda para matricular o filho em outras atividades, além da escola e da capoeira. Planeja que ele entre no escotismo, aprenda um idioma e um instrumento musical. “Estou mostrando todos os sons aos poucos para ele poder escolher algum”, conta. Dentro de casa, também há espaço para correr, subir em árvore e brincarem juntos. “Invento várias coisas. Fizemos cartazes para colar na parede e fingir que eram outdoor e montamos um gibi completo”, conta a assessora jurídica.

Não faça cobranças
A pesquisa do Instituto de Psiquiatria do King's College London também ressaltou como as experiências vividas influenciam a capacidade cognitiva, o que eles chamam de inteligência do ambiente específico do indivíduo. Ela envolve eventos aleatórios, que, em alguns casos, foram experimentados por apenas um gêmeo participante do estudo. “Todas as experiências fazem parte do meio ambiente específico de cada pessoa e vão desde as biológicas às sociais”, conta a estudiosa Rosalind Arden, líder do estudo que relacionam o intelecto a ilustrações feitas por crianças aos 4 anos.

Por isso mesmo, a pesquisadora ressalta que os pais não devem ser preocupar com as filhos que não desenham conforme a realidade. O mais importante, segundo ela, é mantê-los ativos cognitivamente. Beatriz Kaminski, 15 anos, foi provocada desde cedo. Frequentou até aula de desenho quando menina. “Também fez violino, inglês, natação, ginástica rítmica, escalada… Nem lembro de tudo!”, ri a mãe, Helena Toledo Kaminski. Hoje, a jovem frequenta a academia, é escoteira e quer voltar a fazer violino assim que for aprovada no vestibular. Os principais benefícios que as duas sentem com as atividades são maior sociabilidade, foco e concentração.

Segundo a neuropsicóloga Ana Paula Ribeiro, as atividades extracurriculares são essenciais para o desenvolvimento da memória de trabalho, que permite ao cérebro manter ativas representações da informação que acaba de receber. “Os pais podem oferecer aos filhos atividades que estimulem essa parte cerebral, como jogos de memória, videogame, xadrez, dama, jogos de tabuleiro, além de outras atividades que os levem a armazenar e manipular uma quantidade de conhecimento em um pequeno intervalo de tempo”, sugere.

De acordo com a Helena, a filha Beatriz nunca teve problema com aprendizado. “A única vez em que ela teve rendimento menor foi quando a mudei de escola no primeiro ano do ensino médio e ela não se adaptou aos outros alunos.” Depois da troca, a jovem voltou a se destacar nas notas tiradas. E anda dando mais “gás” nos livros para ser aprovada no vestibular de medicina. “Fico no colégio o dia todo e estudo durante cerca de quatro horas por dia. Desde que comecei a fazer isso, passei a me sentir mais confiante em relação ao que quero.”


Apenas tendência
Aos 4 anos, 7,7 mil pares de gêmeos idênticos e não idênticos foram convidados a completar um teste chamado Desenhe uma criança. A ilustração de cada participante recebeu uma nota de 0 a 12, dependendo da quantidade e da localização correta das seguintes partes do corpo: cabeça, olhos, nariz, boca, orelhas, cabelo, tronco, braços, pernas, mãos e pés. Dez anos depois, os mesmos gêmeos foram chamados para montar jogos de quebra-cabeça e vocabulário. Ao comparar os experimentos, os cientistas perceberam uma ligação entre os desenhos e a inteligência genética. Houve uma tendência que as que obtiveram as melhores notas na ilustração apresentaram maior capacidade cognitiva. Ainda assim, os pesquisadores reforçam que a relação não passa de uma tendência porque a inteligência não é composta apenas pela genética, mas também pelas experiências ao longo da vida e o que a pessoa tira delas.


Cérebro mais plástico
“Um fator que influencia diretamente a inteligência é a herança genética, sendo preponderante no quociente de inteligência (QI). Contudo, na infância e adolescência, nosso cérebro é mais plástico e imaturo, conseguindo adquirir mais conhecimento quando comparado à fase adulta. Então, oferecer às crianças brincadeiras, esportes e aprendizagem de idiomas, os favorece cognitivamente, assim como a construção de um ambiente favorável ao desenvolvimento, com harmonia familiar e alimentação saudável, por exemplo. Manter-se aberto a adquirir conhecimentos por meio de estímulos variados é importante para o desenvolvimento humano e nos favorece até a maior idade, prevenindo um declínio cognitivo abrupto na idade senil.”

Ana Paula Ribeiro Imbuzeiro, neuropsicóloga

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