Dislexia: veja quando suspeitar e como ajudar

por Flávia Duarte 24/09/2014 09:02

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Ler é mesmo uma tarefa árdua para quem tem o distúrbio. Mais ou menos para alguns deles. Maria Eugênia descreve uma cena que parece saída de filmes de magia. “As letras dançam, as linhas andam. Na hora de ler, você pode pular partes. Por isso a leitura para o disléxico é um processo muito cansativo”, comenta.

Otávio também não tem a leitura como uma atividade propriamente relaxante. “Posso demorar de um ano a 15 dias para ler um livro.” Mas ele não desiste. Lê algumas páginas e anota do jeito que pode em um resumo. Escrever, para ele, nunca será um processo natural. “É a coisa mais louca e arbitrária que alguém pode imaginar.”

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
"Reconhecer as próprias limitações também é uma forma de ser sábio" - Marco Vinícius Fernandes, professor (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Na mochila, ele carrega O herói de mil faces, de Joseph Campbell. Traz dentro dele vários papéis com anotações. São ideias registradas do que já leu para, quando retomar a leitura, recapitular a narrativa. Se não escreve, passado algum tempo, pode perder o rumo da história e ser obrigado a recomeçar tudo. Por isso, lê mais de um livro ao mesmo tempo. É inquieto demais para se concentrar em uma mesma história. Ainda mais quando o raciocínio é tão fugidio. E também lê o mesmo livro mais de uma vez. E o enredo nunca será igual ainda que o mesmo. “Leitura é uma divagação. A gente sempre reedita, mesmo já conhecendo a história.”

Mas por que, para pessoas como Otávio, é tão complicado fazer uma leitura? Maria Eugênia explica que os símbolos que definem o alfabeto não querem dizer nada para um disléxico como ela. Aliás, tudo se mistura. Letras como p, b, d, nada mais são do que o desenho gráfico de uma bolinha com uma perninha em posições diferentes. Por isso, quando estudante, morria de medo de ser chamada em sala para ler algum texto em voz alta. Certamente iria se embananar. “A criança disléxica se finge de árvore dentro da sala de aula. Ela fica encostada na parede para ninguém notá-la”, comenta.

Marco Vinícius Fernandes, 35 anos, não está livre de igual dificuldade. Em casa, o professor lê a Bíblia com a mulher. Ela assume um parágrafo, ele arrisca o próximo e assim seguem sucessivamente. Se ele se dispersa, cria novas palavras. Ela não alivia e o faz voltar à palavra que saiu do prumo. Incentiva o marido a se concentrar e a dizê-la corretamente. Marco sabe o quanto custa a leitura. Demanda tempo e concentração demasiada. Quando está em sala de aula, o esforço ainda é maior para não se perder nos enunciados das tarefas que passa aos alunos. E assim a cada dia supera a própria limitação.

Brincalhão, ele assume logo no primeiro dia de aula que tem algumas particularidades na escrita. Os alunos dele, todos do ensino médio, “e muito preparados no português”, como ele fala, são avisados de que acentuação é algo que não faz parte do português desse simpático professor de biologia. “Já falo que vou escrever algumas palavras erradas e eles me corrigem quando coloco alguma coisa sem sentido no quadro”, diz, tranquilo.

Marco é bem resolvido quanto à dislexia. Sempre desconfiou que sua dificuldade de ler e escrever não podia ser algo normal. Queria estudar medicina, mas percebia que não conseguia passar no vestibular. Queria vê-lo confuso, era pedir para analisar entre as questões da prova aquela que estava incorreta. Decidiu mudar o curso. Passou nas faculdades de biologia e fisioterapia. Fez pós-graduação. Estudava com a mulher. Às vezes, ela lia o conteúdo em voz alta. É que quando o disléxico ouve, registra tudo. Diferente se tem que ler. Mais eficiente aprender ouvindo do que se embaralhar em letras que, muitas vezes, não querem dizer nada.

E, determinado, Marco foi dar aula. Não desistiu do sonho de ser médico, porém. Pagou um ano e meio de aula particular de português, física e matemática. Também tem traços de discalculia e fazer contas não é algo que faça com um pé nas costas. Fez três vestibulares em faculdade particular e passou. Está no terceiro ano de medicina. “Eu sabia que não conseguiria entrar na UnB. Reconhecer as próprias limitações também é uma forma de ser sábio”, garante ele. E, assim, ele lida com o problema. Brinca com o que não consegue fazer. Cantar uma música? Não dá, pois ele não decora a letra. Deixa de cantar? Nem pensar! “Então crio uma nova letra”, faz uma piada séria.

Na hora de escrever um documento mais formal, no qual os erros não serão aceitos, Marco pede ajuda ou simplesmente pensa até encontrar as palavras que já decorou a ortografia. O resto, leva na brincadeira. Se apresenta um power point na aula e nota que uma palavra saiu errada, avisa logo à plateia que o autor do texto foi um disléxico. “Por isso, criei um mecanismo de defesa: como não sou bom na escrita, sempre faço um resumo do que estou estudando e o decoro”, comenta o professor, que há seis anos procurou ajuda de um psiquiatra porque estava se achando muito esquecido, a ponto de ter deixado a mulher trancada em casa mais de uma vez.

Quando suspeitar

Alunos com desempenho inconstante.
Lentidão nas tarefas.
Demora na aquisição da leitura e da escrita.
Escrita incorreta, com trocas, omissões, aglutinações, desaglutinações de fonemas.
Dificuldade em rimas.
Discrepância entre as realizações acadêmicas e o potencial cognitivo.
Dificuldade em organização sequencial, por exemplo, meses do ano, alfabeto, tabuada.
Prejuízo na orientação temporal: direita, esquerda, horas.
Desconforto ao tomar notas, bilhetes, recados.


Fonte: Mariflor Maia, psicopedagoga do centro especializado em dislexia e dificuldades de aprendizagem


Como ajudar
  • Leia para a criança todos os dias: livros, jornais, revistas e qualquer coisa que realmente o interesse.
  • Encoraje-o a ler todo tipo de texto, não importa o modo como o faça. Quanto mais agradável for, melhor.
  • Permita o uso de marcadores para seguir a leitura.
  • Grave textos.
  • Use canetas marca-texto para ressaltar os itens a serem lembrados.
  • Incentive revezar a leitura, em voz alta, de frases e parágrafos de um texto com outra pessoa.
  • Associar sons e imagens a palavras ajuda a gravar o modo de escrevê-las.

Fonte: com informações do livro Nem sempre é o que parece — como enfrentar a dislexia e os fracassos escolares e da fonoaudióloga Alice Sumihara, especialista em transtorno de deficit de atenção (TDAH) e dislexia pela ABD.

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