Especialistas avançam em técnica de preservação da fertilidade de pacientes com câncer

Clínica mineira de reprodução assistida e centros internacionais de pesquisa avançam em técnica de maturação de óvulos em laboratório para uso em pacientes com câncer

por Carolina Cotta 21/09/2014 09:58

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Jair Amaral/EM/D.A.Press
Andreza Soares, mãe de Caio, decidiu participar da pesquisa da Pró-Criar, principalmente, para ajudar outras pacientes de câncer (foto: Jair Amaral/EM/D.A.Press)
O adiamento da maternidade, o diagnóstico precoce e os avanços no tratamento de alguns tipos de câncer contribuíram para que um número cada vez maior de pacientes em fase reprodutiva sejam diagnosticados com a doença. É nesse contexto que a relativamente nova oncofertilidade, que envolve a medicina reprodutiva e a oncologia, tem avançado em técnicas que permitam a esses pacientes serem pais ou mães no futuro, já que o tratamento – com cirurgia, radioterapia e/ou quimioterapia – pode levar a quadros de subfertilidade ou infertilidade, transitórios ou permanentes.

Uma das esperanças vem de Minas. A Rede Pró-Criar Medicina Reprodutiva – em parceria com a pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, o Oregon National Primate Research Center/Oregon Health and Science University e o Oncofertility Consortium – tem conseguido resultados promissores no desenvolvimento de uma técnica alternativa para a preservação da fertilidade em pacientes jovens com câncer. O estudo “Maturação in vitro de folículos ovarianos pré-antrais humanos em sistema de cultivo tridimensional” ganhou, inclusive, o primeiro lugar no prêmio do 18º Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida.

Inédita no Brasil, a pesquisa conseguiu realizar a maturação de folículos ovarianos em laboratório, recriando o ambiente ovariano e permitindo a expansão do folículo de forma tridimensional, ou seja, o óvulo cresceu para todos os lados, como ocorre dentro do organismo. A técnica – ainda em estado inicial de desenvolvimento, e por isso até agora sem perspectiva de estar disponível clinicamente a curto prazo – tem como objetivo evitar o transplante de células malignas que poderiam estar presentes no tecido ovariano.

Hoje existem três técnicas disponíveis. Segundo Ricardo Marinho, diretor científico da Pró-Criar e professor da pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas, a mais antiga é a fertilização in vitro sem implantação dos embriões. Trata-se da estimulação da ovulação, o congelamento dos óvulos, a fertilização in vitro e o congelamento do embrião para ser implantado no período de dois a cinco anos após o término do tratamento do câncer, se houver bom prognóstico. “Mas essa técnica exige um parceiro, só que existe a possibilidade de ele mudar com o passar dos anos”, pondera.

Outra opção é congelar os óvulos. Quando a paciente puder engravidar, o óvulo será fertilizado com o sêmen do parceiro e transferido para o útero. A desvantagem dessas duas técnicas é que ambas exigem um período de 15 dias para a estimulação da ovulação antes da coleta, tempo muitas vezes precioso para uma paciente que precisa começar o tratamento para o câncer. Isso também limita o material disponível para a fertilização, já que não há tempo para acumular tantos óvulos. “A paciente fará, no máximo, uma estimulação, excepcionalmente, duas”, afirma Marinho, segundo o qual clínicas dedicadas à oncofertilidade priorizam essas pacientes.

Há uma terceira técnica, ainda experimental, mas possível de ser realizada como protocolo de pesquisa, que não depende de estimulação ovariana. Ela consiste na retirada de fragmentos dos ovários, por laparoscopia. Quando a paciente terminar o tratamento do câncer e puder engravidar, esses fragmentos que ficaram congelados são retransplantados. “São pouco mais de cinco anos de técnica e há registro de 31 nascimentos no mundo. É experimental porque ainda não há um número suficiente de nascidos para calcular a taxa de sucesso, e ainda deve ser padronizada”, explica o médico.

Além de não atrasar o tratamento oncológico, por não precisar da indução da ovulação, essa técnica é uma opção para crianças com câncer, que ainda não entraram em idade reprodutiva, mas podem querer engravidar no futuro. “Existem, entretanto, alguns problemas a serem resolvidos, como a possibilidade dos fragmentos preservados conterem células metastáticas e a curta duração do funcionamento do tecido ovariano, que ao ser retransplantado sofre uma isquemia local. É uma opção promissora, mas que ainda precisa evoluir”, alerta o especialista.

NOVA TÉCNICA
É nessa mesma linha que a Pró-Criar, o Oregon National Primate Research Center/Oregon Health and Science University e o Oncofertility Consortium estão trabalhando. A ideia é que a criopreservação (congelamento) prévia de fragmentos de tecido ovariano permita um futuro retransplante ou a maturação dos folículos em laboratório. Segundo a embriologista Jhenifer Rodrigues, coordenadora do Departamento de Pesquisa da Pró-Criar, o projeto de pesquisa, que está sendo realizado em parceria com a Faculdade de Ciências Médicas, tem três subprojetos.

O principal deles é o de criopreservação do tecido ovariano, quando a paciente tem um fragmento do ovário congelado para uma posterior tentativa de engravidar. Sem custo para a paciente, o projeto faz parte de um protocolo de pesquisa e por isso 10% do fragmento é destinado aos estudos. Podem participar pacientes de 18 a 40 anos, diagnosticadas com câncer de mama ou linfomas com bom prognóstico e desejo de gravidez futura. Também não devem ter iniciado a quimioterapia. “Alguns oncologistas têm receio de adiar o tratamento do câncer, muitas vezes sem saber que existe a possibilidade de preservar a fertilidade sem recorrer à indução”, explica a embriologista.

A artesã Andreza Soares, de 37 anos, que participa do projeto, descobriu no ano passado que estava com câncer de mama. Ela já tem um filho, Caio, de 8 anos, mas como ainda não decidiu se quer outro optou pela preservação da fertilidade. Foi sua oncologista que lhe falou sobre a pesquisa. A princípio, ela teve medo de fazer uma cirurgia, mesmo que por laparoscopia, mas, como precisaria retirar a vesícula antes de começar o tratamento, aproveitou o procedimento para fazer as duas coisas. “Fiquei chateada de saber que o câncer traz mais esse problema. Participo do projeto principalmente para ajudar outras pessoas com o mesmo problema. Queria até doar uma maior parte do meu ovário para ajudar mais nos estudos”, conta.

Os resultados até aqui significam um grande avanço na área, pois a maturação em laboratório de folículos provenientes do tecido ovariano é uma etapa fundamental no desenvolvimento da nova técnica, que futuramente pode se tornar uma alternativa para que a paciente obtenha uma gestação. No procedimento, retira-se um pedacinho do tecido ovariano da mulher, que é dividido em várias partes para ser congelado. O folículo fica de 40 a 60 dias em cultivo, envolto em um gel de alginato, permitindo assim que ele se expanda de forma tridimensional, mantendo seu arcabouço natural, assim como ocorre dentro do ovário.

Além da possibilidade de se obter um grande número de folículos a partir de um pequeno fragmento, a técnica evitaria o transplante de células malignas que poderiam estar presentes no tecido ovariano em alguns tipos de câncer. “Os resultados preliminares, com cultivo e crescimento folicular por 28 dias, estimulam a realização de mais pesquisas, que têm como intuito atingir estágios mais avançados de maturação folicular, com a presença de oócitos com competências para serem fertilizados. Ficamos muito satisfeitos com esse primeiro passo. Agora temos que melhorar o meio de cultivo com a inserção de hormônios, assim como ocorre no ovário”, diz a embriologista.

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