Mulheres contrariam padrões estéticos e deixam tempo agir naturalmente sobre a beleza

Sem a intenção de manter a juventude a qualquer custo, elas evitam esconder cabelos grisalhos, manchas e rugas na pele

por Paula Takahashi 21/09/2014 10:44

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Por que postar “selfies” nas redes sociais sem maquiagem virou um desafio? Por que mostrar o rosto limpo, sem retoques de cosméticos ou efeitos “embelezadores” dos filtros disponíveis nos aplicativos de fotos, se tornou sinônimo de transpor barreiras, superar tabus e bater de frente com convenções sociais? O fenômeno que mobiliza famosas e anônimas do mundo todo faz parte da campanha norte-americana “Stop the beauty madness” (Pare a loucura da beleza), lançada pela escritora Robin Rice, que se autoproclama “artista das mudanças sociais”. Quem adere à proposta e publica fotos “ao natural” incita outros amigos a fazer o mesmo, criando uma verdadeira corrente contra os padrões estéticos.

Ramon Lisboa/Em/D.A Press
A aposentada Ivna Tarsis Junqueira Reis Guimarães, de 65 anos, não tem medo de mostrar a beleza natural (foto: Ramon Lisboa/Em/D.A Press )
Mas a pergunta ainda permanece. Por que tirar fotos mostrando as imperfeições, manchas, rugas, olheiras e flacidez se tornou uma provocação? Simplesmente porque muitos a veem assim. A revelação e a surpresa que estão por trás da atitude dão à campanha o caráter de desafiadora. Mas o sentimento só é despertado em quem o reconhece de fato. A carapuça não serve para a designer de interiores Valéria Araújo Costa, de 60 anos, ou para a aposentada Ivna Tarsis Junqueira Reis Guimarães, de 65.

Donas de belos cabelos grisalhos, corpos e rostos nunca retocados por cirurgias plásticas e orgulhosas de mostrar uma beleza natural dificilmente ofuscada por bases, pós e blush, elas não têm qualquer dificuldade em aparecer de cara limpa. Assumem as marcas da idade e deixam o tempo agir naturalmente, sem neuras, vergonha, ou qualquer outro sentimento que possa motivar a busca desenfreada e desmedida pela juventude e por um padrão estético contestável.

Não se trata de desleixo, mas de um cuidado saudável, na medida. “Sempre tive um corpo muito bonito e sempre fui muito valorizada por isso. Gosto de manter, mas sem medo, sem sufoco. É preciso ter uma postura e uma autocrítica para envelhecer com qualidade”, ensina Ivna. Equilíbrio, segurança e autoconhecimento são elementos importantes para assumir decisões como as de Ivna e Valéria.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Mesmo se considerando vaidosa, a designer de interiores Valéria Araújo Costa nunca se preocupou em manter a beleza a qualquer custo (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Ninguém falou em abandonar de vez o estojo de maquiagem, jogar fora os cremes ou excluir de vez o salão da lista de compromissos. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Não há mal nenhum em pintar o cabelo, fazer uma drenagem linfática ou um tratamento dermatológico para melhorar o aspecto da pele. “Romper com os apelos criados é muito complicado e não é obrigatório fazê-lo. Não é preciso brigar com a sociedade e abrir mão dos recursos que estão disponíveis. Não é isso”, pondera a psicóloga na área clínica Maria Clara Jost. O que se almeja é o equilíbrio.

A designer de interiores Valéria Araújo Costa, de 60 anos, acha que o alcançou. “Idade para mim nunca foi problema. E olha que quando era mais nova cheguei a ganhar concursos de beleza. Já fui a Rainha do Minério”, lembra Valéria. Nem o apelo pela perfeição que fez parte da sua juventude foi suficiente para que a designer transformasse isso em ideia fixa. “Nunca me preocupei em manter a beleza e a idade a qualquer custo, apesar de me considerar vaidosa. Sou super bem resolvida e acho que quem quiser gostar de mim tem de gostar do jeito que sou”, afirma a designer.

Na virada para a casa dos 60 anos, ela resolveu dar mais uma brecha para que os efeitos implacáveis do tempo transparecessem. Parou de pintar os cabelos de vez. “Queria assumir, mas o início é muito difícil. Até clareei um pouco para amenizar aquele choque. Claro que tem o risco de críticas, mas decidi que quem tem que gostar sou eu”, conta, com a firmeza de quem se viu livre da escravidão imposta pela tintura.

A vaidade vai além da aparência. Também envolve a cabeça. “Faço artesanato e tenho até um site para vender minhas peças. Faço enfeites para porta, produtos de acrílico, tapete”, enumera. Valéria já levantou a bandeira branca, inclusive para a balança, e não é mais vítima da eterna briga com os quilos a mais. “Estou um pouco acima do peso, mas isso não me incomoda em nada. Cheguei a um ponto em que estou satisfeita”, garante, com a certeza de que emagrecer não é uma preocupação.

ALÉM DA APARÊNCIA Saber o seu valor e ter consciência de que tem mais a oferecer do que apenas a aparência é uma das primeiras providências para evitar excessos. “O problema ocorre quando a pessoa acha que não tem mais nenhum valor porque o cabelo está branco”, explica Maria Clara Jost. Ou quando cria necessidades difíceis de ser atendidas e que acabam se tornando um tormento, como acrescenta Marisa Sanábria, psicóloga coordenadora da Comissão Mulheres e Questões de Gênero, do Conselho Regional de Psicologia. “Quando, por exemplo, tem 60, mas quer o corpo de 28. Essa fixação sim, será um fantasma que irá assombrar constantemente”, afirma.

Para a especialista, o que ocorreu nos últimos anos foi uma moralização da estética. “A ponto de os quilos a mais serem uma transgressão moral”, afirma. As pessoas se sentem inadequadas às formas e medidas esperadas e aceitas. “Seu estilo corporal não atende ao padrão exigente da sociedade, que é o de manter um corpo de 20 anos”, esclarece Marisa. A partir daí se desencadeou todo o fenômeno que presenciamos. Certamente, na geração dos nossos avós o desafio de se expor sem maquiagem não teria a menor adesão e morreria antes mesmo de nascer.

Mas Marisa reconhece que cada vez mais mulheres querem romper com essa imposição e o fazem, uma a uma, a seu tempo. “É importante encontrar uma medida de bem-estar na qual a pessoa não se castigue, não se cobre e viva o amadurecimento com tudo o que ele trás, inclusive com as marcas da idade”, aconselha a psicóloga. “Esse tempo é de cada pessoa. Cada uma vai amadurecer em sintonia com a história que construiu. Afinal, envelhecemos no jardim que plantamos”, acrescenta Marisa.


PALAVRA DE ESPECIALISTA
Aceitação social

“A aparência hoje é um fator muito importante de aceitação social. Tanto em termos de estética, de beleza, como de parecer que tem. Parecer que tem dinheiro e que tem poder, por exemplo. O que parece ser se tornou semelhante ao ser propriamente dito. Por isso, as pessoas podem entrar num estágio doentio de ter que parecer belas e jovens. Afinal, o que se valoriza é o novo, por isso se descartam muito facilmente as coisas antigas. Isso ocorre com produtos e também com pessoas. A percepção é de que quanto mais novas e belas, mais queridas. A pessoa idosa está fora de conformação, sem lugar, e perde o seu valor. É um nível muito materialista, um apelo do consumo, não apenas material, como nas relações pessoais.”

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Ivna Tarsis Junqueira Reis Guimarães não vê motivo para esconder seus 65 anos por trás de maquiagem ou tratamentos estéticos (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Bem resolvida, firme e segura de suas decisões, a aposentada Ivna Tarsis Junqueira Reis Guimarães não tem nem a aparência nem a cabeça de 65 anos. Por isso, não vê motivo nenhum para esconder a idade por trás de maquiagem ou tratamentos estéticos. “Não tenho cabeça de 65. Até me assusto quando falo a minha idade porque minha cabeça é muito nova. Sou muito antenada, ligada no que está acontecendo e, por isso, não me preocupo com as consequências da idade”, garante. “Sou o que sou física, interna e materialmente”, acrescenta com firmeza a aposentada.

Adepta das caminhadas, Ivna ainda faz ioga. “Preocupo-me com o físico. É uma questão de capricho, de cuidado”, garante a aposentada, que valoriza mais ainda a manutenção de uma cabeça boa e saudável. “Gosto de dar notícia de tudo, de saber o que está ocorrendo. Leio muito, sou ligada em economia. Faço questão disso e é a minha prioridade”, reconhece.

Para deixar os sinais do tempo transparecerem, Marisa Sanábria, psicóloga coordenadora da Comissão Mulheres e Questões de Gênero do Conselho Regional de Psicologia, atenta sobre a necessidade de um bem-estar interno, como o que transparece Ivna. “Se a pessoa está em conflito consigo mesma ou acha que tem dívidas pendentes com a vida, é muito difícil deixar que o tempo aja naturalmente. Ela precisa justamente desse tempo para resolver essas pendências”, pondera. Um amor nunca vivido ou a realização profissional que não veio podem ser algumas das motivações para retardar o avanço dos anos.

Necessidade de aceitação, de amor e valorização, também podem alimentar essa postura. “Não significa que quem não tenha esses sentimentos e seja equilibrado e seguro não tenha problemas. Mas ele enfrenta com mais segurança essa fase da vida. Por isso, é importante ter um cuidado interno, que pode estar sendo protelado pelas mudanças externas”, avalia Maria Clara Jost, psicóloga na área clínica.

Deixar o tempo seguir seu curso envolve, até mesmo, um processo de pacificação e conciliação pessoal. “É importante que a pessoa encontre sua medida de bem-estar, de um envelhecimento com autonomia, saúde e também de pacificação consigo própria”, aconselha Marisa. E pensar em amadurecimento com autonomia é um importante passo para ter a segurança e liberdade necessárias para tomar as decisões que julgar mais corretas. “Vivemos em uma sociedade que não prepara as pessoas para isso. Sobretudo no Brasil. Mulheres que chegam na velhice com uma certa condição de autonomia econômica vivem uma realidade diferente daquelas em dificuldade”, reconhece Marisa.

PREPARO Planejar de forma disciplinada como passar dos 40 com segurança suficiente para não se tornar um escravo dos tratamentos cosméticos e ter o corpo e a cabeça em sintonia com a idade deve ser uma preocupação prematura. Bons hábitos alimentares associados à prática regular de atividades físicas são fundamentais para a saúde do corpo, da cabeça e, por que não, da pele. Alimentos antioxidantes, que estimulam a produção de colágeno e melhoram o aspecto da derme, são aliados na prevenção do envelhecimento precoce e podem tornar a ação do tempo menos dura, impactante e, muitas vezes, traumática. Os cuidados antecipados certamente garantirão mais confiança para tomar a atitude de deixar os rejuvenescedores de lado e assumir a idade com mais prazer.

O primeiro passo em busca de uma aparência condizente com os anos de vida é transformar o uso do protetor solar em hábito. “Tem que ser diário, de acordo com o tipo de pele”, orienta a fisioterapeuta dermatofuncional Tatiana Campos Rocha, proprietária da clínica Espaço Equilíbrio. Ter cuidado em manter a pele sempre limpa também deve ser prioridade. “Elimina aquela camada mais externa que, à medida que acumula, pode trazer um caráter mais envelhecido. Com uma limpeza adequada, a pele fica mais uniforme, elástica e hidratada”, garante. O objetivo aqui é deixar o tempo agir naturalmente, mas mantendo os cuidados e a beleza própria. “Assim, o processo de envelhecimento fica mais harmônico e menos agressivo”, reconhece Tatiana.

NO PRATO Buscar na alimentação mais uma fonte de qualidade de vida é a próxima providência a ser tomada. “Os radicais livres são os principais fatores ligados ao envelhecimento e à degeneração celular. E para combatê-los há uma série de alimentos com propriedades antioxidantes”, afirma o médico nutrólogo Fabiano Robert. Reduzir a quantidade de açúcar é importante para quem está interessado nos efeitos positivos da comida sobre a aparência. “O excesso de açúcar leva a uma má oxigenação celular e, consequentemente, ao envelhecimento precoce. É bom evitar também as farinhas brancas”, aconselha o nutrólogo.


UMA MAOZINHA DA ALIMENTAÇÃO
10 alimentos que podem ser aliados do tempo


- Açafrão (ou cúrcuma)
A especiaria é lotada de curcuminoides, compostos com ação anti-inflamatória e anti-idade. A cúrcuma é a raiz e o açafrão é a cúrcuma torrada, em pó. Se almoça fora, leve um potinho com o tempero e salpique sobre o arroz com feijão.

- Azeite de oliva
Rico em gorduras monoinsaturadas, tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Dê preferência ao extravirgem, que tem taxa de acidez inferior a 1%. Consuma, no máximo, duas colheres de sopa por dia.

- Frutas cítricas
Limão, lima-da-pérsia, laranja e goiaba contêm a poderosa vitamina C, além de bioflavonoides, que aumentam o tônus das veias, favorecendo a microcirculação. A vitamina C é um importante catalisador na produção do colágeno.

- Linhaça
Rica em ômega 3, anti-inflamatório natural, auxilia na regulação hormonal. Também faz uma faxina interna, graças ao alto teor de fibras, contribuindo para evitar o acúmulo de impurezas que dificultam a irrigação e favorecem a celulite. Sugestão: leve de casa a linhaça triturada para salpicar sobre a salada, de preferência batida no liquidificador, pouco antes de sair para o trabalho. Isso porque as sementes oxidam e perdem boas doses de ômega 3.

- Óleo de gergelim
Grande fonte de vitaminas, em especial a E, que atua como antioxidantes e, assim, protegem as células da ação dos radicais livres. Também tem ação anti-inflamatória.

-Iogurte
Tem probióticos, que são as bactérias boas para o organismo. Previne doenças gastrointestinais e melhora o aspecto da pele.

- Semente de abóbora
Ajuda a tornar o pH do sangue mais alcalino, o que afasta as inflamações. A semente de girassol, outro poderoso antioxidante, pode ser preparada da mesma forma.

- Suco de uva integral, frutas secas e chá verde
Em comum, esses alimentos são ricos em flavonoides, importantes para impedir a degeneração celular. O suco de uva tem antioxidante e também tem ação anti-inflamatória.

- Tomate
Tem licopeno, presente em outros alimentos de cor vermelha, como goiaba e melancia. Além de combater a produção de radicais libres, tem fator de proteção natural contra os raios ultravioleta.

- Carnes em geral
As proteínas presentes na carne, mas também no ovo, derivados do leite e na soja, fornecem matéria-prima importante para a produção de colágeno

 

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