Bactérias intestinais interferem em vacinas

A descoberta feita por cientistas dos EUA pode ajudar na criação de imunizações mais eficazes. Uma das possibilidades é manipular esses micro-organismos para potencializar a proteção contra doenças

por Isabela de Oliveira 20/09/2014 14:00

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Valdo Virgo/CB/D.A Press
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Epidemias de gripe são responsáveis por milhares de diagnósticos graves da doença que causa até meio milhão de mortes a cada ano. Pesquisadores do Emory Vaccine Center, nos Estados Unidos, descreveram, na última edição da revista Immunity, uma relação que pode reduzir o alto número de vítimas. Eles detalharam como os micróbios do intestino influenciam no efeito da vacina sazonal da enfermidade. Embora a imunização proteja o organismo contra a infecção viral, esses micro-organismos exercem grande papel no estímulo do sistema imunológico ao criar anticorpos mais eficientes para combater a doença.

“Até onde sabemos, esse é o primeiro estudo a mostrar que a eliminação da microbiota intestinal com antibióticos prejudica as respostas imunes geradas pela vacinação, nomeadamente a contra a gripe sazonal”, sustenta Bali Pulendran. O líder do estudo indica que a descoberta tem potencial de aumentar a eficiência de estratégias globais de saúde pública contra a influenza. Outra aplicação potencial do estudo é a capacidade de manipular micróbios que vivem no intestino para tentar aumentar os efeitos da vacina.

Pesquisas anteriores desenvolvidas pelo mesmo grupo indicaram que a ação de anticorpos produzidos em adultos saudáveis vacinados contra a gripe sazonal estava relacionada com a expressão de um gene chamado receptor Toll-like 5 (TLR5). Ele detecta a flagelina, uma proteína que ajuda na locomoção de bactérias. Diante dessas informações, a equipe passou a suspeitar que alguns micro-organismos que vivem no intestino — órgão envolvido em 70 a 80% das respostas imunes — estivessem influenciando os efeitos da vacina. Os pesquisadores ganharam mais motivos para acreditar que a hipótese poderia ser real com os resultados do estudo mais recente, feito com ratos (Veja infográfico).

Ao contrário das normais, as cobaias geneticamente programados para não ter o TLR5 tiveram respostas imunes prejudicadas ao receberem a vacina influenza trivalente inativada (TIV). Animais criados em ambientes esterilizados ou tratados com antibióticos também apresentaram defesas mais fracas. O mesmo foi detectado quando os ratos sem TLR5 foram vacinados contra a poliomielite, que possui o mesmo arranjo da TIV.

“Ficamos surpresos ao descobrir o envolvimento desse gene na imunidade gerada pela vacinação contra a gripe. Nossa pesquisa mostra que a flagelina de bactérias do intestino estão sendo reconhecidas pelo TLR5 em células produtoras de anticorpos que responderam à vacina contra a gripe, e isso resulta na produção reforçada de anticorpos por essas células”, disse o principal autor ao Correio.

Segundo Pulendran, ainda é cedo para afirmar que o efeito das imunizações vai depender da presença de bactérias no organismo. “Esse estudo foi feito em camundongos. Por isso, vai ser importante verificar essa observação em humanos”, pondera. Ainda que seja cedo para especular os impactos clínicos da descoberta, o autor espera que os resultados obtidos demonstrem que a composição microbiana do intestino de diferentes populações seja levada em conta quando os impactos das vacinas forem avaliados.

Pulendran cita, no artigo, que outras pesquisas mostram que as imunizações tendem a ser menos efetivas em regiões subdesenvolvidas se comparadas a áreas industrializadas. Ainda não se sabe a razão disso, mas pode ser que as bactérias desempenhem um papel crucial. “Falta de saneamento leva ao aumento da exposição bacteriana fecal-oral nos primeiros anos de vida e à desnutrição ou as diferenças na natureza da dieta podem ser algumas das causas”, diz o autor. “Todos esses fatores podem afetar a composição da microbiota e, potencialmente, influenciar o sistema imunitário.”

Reações conectadas
O virologista Fernando Motta, pesquisador do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, explica que essa associação especifica com a influenza é nova. Mas a relação da microbiota intestinal com a resposta imunológica, não. Para ele, a grande ideia do trabalho é mostrar que o sistema de defesa funciona como um todo. “Não necessariamente uma vacina destinada a um micro-organismo de contágio respiratório vai ficar confinado no trato respiratório. No arranjo das respostas de defesa, há ligações entre diferentes tecidos, sendo eles mais associados do que imaginamos”, diz.

O especialista diz que, embora o trabalho seja preliminar, é valido para esclarecer a relação inédita da microbiota com os efeitos de uma vacina. “Já sabíamos que a gravidade de uma doença poderia ser maior ou menor de acordo com os micro-organismos do trato gastrointestinal e, por isso, o aspecto apontado por esses pesquisadores é interessante. Estamos acostumados a ver esses seres como inimigos, mas tenho plena convicção de que são mais amigos do que qualquer coisa. Apenas uma parcela pequena oferece dor de cabeça”, conclui.

De acordo com o infectologista Alexandre Cunha, os médicos já levam em conta o estado de saúde do paciente antes de indicar uma vacina. “A gente sempre avalia se ele não tem nenhuma ocorrência clínica e se está tomando antibióticos. Se faz uso dos medicamentos, é porque precisa, porque tem alguma coisa acontecendo”, conta o médico consultor do Laboratório Sabin, frisando, sem seguida, que não se deve parar de tomar os remédios para se vacinar. “Raramente, a vacina é uma coisa de urgência. Então, a gente espera que a condição se resolva antes de qualquer coisa.”

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