Entenda como a ciência usa as mensagens do sonho para ajudar pacientes a resolverem traumas

Cientistas e terapeutas apostam que as vivências durante o sono podem ajudar a definir o diagnóstico de doenças mentais e a tratar traumas

por Flávia Duarte 12/09/2014 15:00

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Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Para Cibele Pereira, interpretar um sonho recorrente significou uma importante mudança de comportamento (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Falar de sonhos é entrar em um mundo impalpável. É tentar compreender um enredo cujo significado só faz sentido para o sonhador. Afinal, ele é personagem principal da história. Entrar na realidade aparentemente fictícia dos sonhos é correr o risco de se perder no caminho da superstição, dos mitos e das falsas interpretações. É visitar um local que só existe no cérebro de quem sonha e cuja existência é tão efêmera que, muitas vezes, nem o próprio criador lembra-se da criação onírica.

Cada vez mais, porém, deixa-se de lado o misticismo e acredita-se que os sonhos tenham papel importante na cura do corpo e da alma. Pesquisadores e cientistas se debruçam sobre os roteiros aparentemente sem sentido que aparecem durante a noite para entender o que se passa dentro dos indivíduos. Em Natal, por exemplo, o Instituto do Cérebro dedica-se a pesquisas para desvendar como os sonhos estão relacionados ao funcionamento físico do cérebro, inclusive como os relatos do que se pensou enquanto dormia podem confirmar diagnósticos de transtornos bipolares ou de esquizofrenia, por exemplo.


Terapeutas aprimoram cada vez mais as técnicas de análise dos sonhos para ajudar seus pacientes a resolverem traumas e conflitos internos. O médico Victor Dias, fundador e coordenador da Escola Paulista de Psicodrama, acaba de publicar um livro sobre o tema. Em Sonhos e símbolos na análise psicodramática, propõe dedicar-se ao material codificado que os sonhos apresentam para encontrar respostas para dramas pessoais.

O que não se nega é que o sonhar, desde a Antiguidade, desperta curiosidade e, quando acordados, há muitos séculos, os homens tentam atribuir a essa ação uma função. Os reis tinham interpretadores de sonhos. Oráculos capazes de desvendar as imagens que vinham à cabeça dos poderosos e tentar entender que mensagens elas traziam. As crianças da tribo Senoi, na Malásia, por exemplo, sempre tiveram o costume de relatar seus sonhos para os pais. A partir do que contavam, recebiam os conselhos dos mais velhos.

No século 2, Artemidoro de Daldis (veja abaixo) ficou conhecido por ser um adivinho romano que tinha o dom de avaliar os avisos dados pelos sonhos. Em 1900, o psicanalista Sigmund Freud, ao lançar o livro A interpretação dos sonhos, declara oficialmente o material onírico como uma ferramenta de análise do subconsciente. Para ele, os sonhos não passavam de desejos reprimidos. Assim, o que não se podia fazer na vida real era realizado, sem culpas, pelo cérebro enquanto o corpo dormia. Em seguida, seu discípulo Carl Gustav Jung apresentou uma proposta menos limitada do sonhar. “Ele amplia essa visão e defende que os sonhos também têm uma função elucidatória, que fala o que está acontecendo na dinâmica psíquica e propõe soluções”, explica João Rafael Torres, psicoterapeuta e analista junguiano.

A partir deles, o mundo onírico se abriu. Atualmente, muitos são os terapeutas que não dispensam as mensagens sonhadas para entender a realidade vivida. O especialista em análise psicodramática Victor Dias compartilha a tese de que os sonhos são mensagens que o psiquismo manda para si mesmo. Na prática, funciona assim: algumas experiências e pensamentos não condizem com seu estilo de vida, valores e crenças. Assim, o cérebro mandaria todas essas informações para o que ele chama de zona de exclusão. Como defendia Jung, porém, a psique não se conforma com episódios mal resolvidos e encontra uma válvula de escape. E, durante os sonhos, avisa para a pessoa que ela precisa resolver certos incômodos aparentemente abafados, batizados pela psicologia de neuroses.

Por se tratar de um material negado, o recado não aparece escancarado. A solução é mandar mensagens simbólicas e, por tal razão, os sonhos, aparentemente, não têm sentido algum. “O psiquismo sai do impasse quando envia uma mensagem excluída para o eu consciente e, ao mesmo tempo, preserva o material negado que a pessoa não está em condição de aceitar”, explica o terapeuta.

CB/D.A Press
(foto: CB/D.A Press)
Apesar da resistência em se conscientizar de certos recalques, ignorar um recado do inconsciente não seria uma boa ideia. São, supostamente, os conteúdos negados os responsáveis por tantos transtornos físicos e emocionais. Aí surge o desafio: se é uma mensagem cifrada, incompreensível inclusive para o paciente, como fazer para interpretá-la? Victor trabalha com a análise psicodramática dos sonhos. A proposta não é tentar fazer adivinhações e muito menos incorrer no erro de atribuir significados clichês aos elementos da história sonhada. A ideia é decodificar a mensagem aos poucos.

Para esclarecer, o terapeuta dá um exemplo. Uma mulher sonha que está sendo perseguida por um grande macaco peludo. Ela se sente amedrontada quando pensa na cena. O importante, para Victor, não é entender por que ela sonhou com um macaco, mas sim desvendar o porquê de ela ter produzido um contexto de perseguição. Assim, nos encontros com o terapeuta, o paciente é convidado a contar quais as situações da vida em que se sentiu da mesma maneira, acuado, com a sensação de ser vítima de uma outra pessoa mais forte.

Esse estímulo, o de pensar em momentos reais nos quais as mesmas emoções vieram à tona, produziria novos sonhos, e, aos poucos, seria possível compreender a mensagem que o inconsciente manda em doses homeopáticas por puro medo de a consciência rejeitá-la. “Na decodificação dos sonhos, você vai interpretar o mínimo possível e esperar os outros sonhos, em que os elementos irão se repetir até ir clareando”, explica o médico. “Não adianta perguntar o que significa o sonho. Se o paciente soubesse, o material não viria codificado. Por isso, atentamos para a sequência dos sonhos e a evolução da simbologia até ser integrada pelo eu consciente ou sofrer uma reparação dentro dos próprios sonhos”, afirma Victor.

No consultório do terapeuta Gisnaldo Amorim, quem não sonha não precisa nem entrar. Ali, nada é escolhido por acaso. Nem as janelas cobertas de tinta vermelha, com desenhos que sugerem uma casa, tampouco as mandalas coloridas espalhadas pelo corredor, que liga a sala de espera à sala de atendimento. Para o psicanalista, todas as imagens e cores inspiram os sonhos, assim como ajudam a interpretá-los. Para ajudar os pacientes, não abre mão de conhecer os elementos que invadem a mente deles durante o sono. Ele garante que, mais que do que se prender a conceitos estereotipados para compreender os símbolos oníricos, é preciso ter criatividade para ler a mensagem que o sonho quer mandar. Nesse caminho, é preciso atentar-se a todos os detalhes que aparecem na fantasia: as pessoas, os tons das roupas que elas usam, os objetos de cena, o local. Tudo pode dar um sinal do seu eu mais profundo e desconhecido.

“A primeira proposta ao tentar entender os sonhos é conhecer a si mesmo. O entendimento de nós mesmos permite transformar energias, inclusive quadros de doenças graves”, explica o profissional. “O segundo objetivo é melhorar nossas funções psicológicas, entre as quais se incluem pensamentos, sentimentos, intuições e sensações do corpo”, acrescenta Gisnaldo, que há quatro anos ministra o curso Alquimia dos sonhos, cuja proposta é ensinar os sonhadores a desvendarem o simbolismo dos comunicados oníricos.

Qualidade do sono, aliás, é um dos sinais que a terapeuta Wânia Alvarenga avalia para curar o corpo e a mente dos pacientes. No que considera o sono ideal — revigorante para os órgãos e para o equilíbrio das emoções —, o conteúdo dos sonhos é um quesito bem importante. Para deixar o sono mais saudável, Wânia diz que tudo pode interferir, a começar pelo colchão e pelo travesseiro que a pessoa escolhe, até mesmo os sonhos que ela terá. “Sustento que nós sonhamos para liberar as emoções. Quando o cérebro dorme, ele faz uma reparação física, além de liberar o estresse diário e as emoções”, define.

A terapeuta compartilha a crença de que os sonhos podem ser indícios de problemas físicos, uma forma de, sabiamente, o corpo encontrar caminhos para a autocura. Para exemplificar, Wânia cita o exemplo de uma criança que foi levada ao consultório dela pelos pais. O pequeno fazia xixi na cama enquanto dormia e a tentativa dos adultos era entender o porquê. A razão aparecia na forma de assustadores lobos. Explica-se: é que, muitas noites, o menino sonhava com os ferozes animais e de tanto medo não controlava a bexiga. A criança foi tratada pela sonhoterapia, técnica de melhorar o sono, para liberar a memória da emoção do pânico noturno. Se o menino não temesse mais os lobos quando eles aparecessem no sonho, não acordaria mais molhado. E deu certo. Wânia garante que provavelmente o menino não será mais atormentado pelas feras enquanto dorme.

“Sonho é uma fonte de compreensão de traumas. Também sugere distúrbios do sono e distúrbios emocionais. Uma pessoa que tem insônia, por exemplo, apresenta o sono leve e pode ter sonhos de ansiedade, de preocupação com o dia seguinte, de medo. Já os pesadelos podem ter a ver com síndrome do pânico, por exemplo”, explica a especialista. Por essa lógica, pessoas com problemas respiratórios não raro sonhariam com cenas dentro da água ou situações em que se sentiriam sufocadas.

Para tentar harmonizar as emoções e o corpo, Wânia usa um conjunto de técnicas, entre elas o teste muscular, em que a terapeuta estabelece conexão com o self do paciente por meio de respostas apresentadas pela tensão muscular do braço dele. A descrição parece complicada para o leigo, mas seria algo como se o corpo literalmente falasse, com movimentos leves do braço, e esclarecesse o que anda em desarmonia a ponto de provocar noites de sono ruins e sonhos piores ainda. “O corpo tem a sabedoria inata da autocura e algumas técnicas permitem reparar aspectos que estão em disfunção”, explica a psicóloga. “No início, a gente tratava a simbologia dos sonhos como clichê. Hoje, minha visão é mais holística. Você deixa que a inteligência da pessoa faça referência aos conflitos dela usando os símbolos. O cérebro sonha aquilo que o coração sente”, acrescenta.

Eles acreditavam
  • Artemidoro de Daldis, de Éfeso, um adivinho romano que viveu no século 2, acreditava que os sonhos eram mensagens dos deuses e deveriam ser interpretados pelos oráculos, clarividentes e sensitivos. Para compreender o sonho de alguém, misturava, na hora da interpretação, os valores da época à história do sonhador.
  • Sigmund Freud, em 1900, lançou o livro A interpretação dos sonhos e defendeu a tese de que o “sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido”. Para ele, impulsos sexuais e agressivos, por exemplo, eram liberados durante o sonho. Isso seria uma forma de proteger o sonhador e impedir que ele satisfaça tais desejos no cotidiano.
  • Carl Gustav Jung acreditava que o sonho era uma orientação de vida e propunha esclarecer o que o psiquismo queria revelar ao sonhador. Uma forma de interpretar os sonhos, para ele, era compreender os símbolos que tinham a ver com a experiência da humanidade, que ele chamava de inconsciente coletivo.

Fonte: com informações do livro Sonhos e símbolos na análise psicodramática – Glossário de símbolos, de Victor Dias.

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