Sonambulismo gera situações constrangedoras, mas há como evitar episódios. Entenda

Ficar muito tempo sem dormir e abusar do álcool são alguns dos fatores que desencadeiam o problema

por Augusto Pio 10/09/2014 08:32

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Lelis / EM / DA press
Diz-se que o sonambulismo é leve quando ocorre menos de uma vez por mês e não traz consequências para o indivíduo ou para outros. É moderado quando mais frequente que o leve, mas ainda sem consequências. Já o grave ocorre quase todas as noites e está associado a danos físicos do paciente ou de outros (foto: Lelis / EM / DA press)
Imagine o susto ao ver uma pessoa andando pela casa de madrugada e ainda por cima dormindo. Mas isto é mais comum do que se imagina. Assim é o sonambulismo, que, em linhas gerais, é sair da cama durante o sono, andar ou exercer alguma atividade sem que se tome consciência e se lembre do ocorrido. “O sonambulismo é muito frequente e, em geral, surge na infância com uma prevalência que pode chegar a 17%, dependendo da população estudada. Geralmente, aparece entre 11 e 12 anos. Na vida adulta, a tendência será a redução do número de episódios, mas ainda será relativamente comum”, explica Maurício Viotti Daker, médico do sono, professor de psiquiatria e psicogeriatria da Faculdade de Medicina da UFMG (FM-UFMG).

O sonambulismo é tradicionalmente considerada uma parassonia (distúrbio caracterizado por movimentos anormais durante o sono), ou seja, um transtorno do sono que não o afeta propriamente. A pessoa acorda bem e não apresenta sonolência diurna ou cansaço. “Outros exemplos de parassonia são o pesadelo e o terror noturno”, enumera o médico.

“No pesadelo, acordamos assustados com o sonho atormentador, tomamos consciência da situação e até sentimos alívio por aquilo não ser verdade, dormindo em seguida. No terror noturno, a pessoa geralmente senta ou se move na cama e se mostra confusa e com medo, podendo gemer ou gritar. Dorme em seguida, sem ter consciência do ocorrido. Também são consideradas parassonias aquelas sensações repentinas de estar caindo ou de movimentos abruptos, bem como falar durante o sono”, esclarece o especialista.

Ele ressalta que esses transtornos se distinguem das dissonias (termo geral para distúrbio do sono), ou seja, de transtornos que afetam os mecanismos fisiológicos geradores de sono e de estar desperto, de modo que a pessoa fica com aquela sensação de acordar mal e de que o sono não foi reparador. Por exemplo, nas insônias e na apneia do sono.

“Não há propriamente tipos de sonambulismo, mas pode ser subdividido conforme a gravidade e o período de tempo em que se apresenta. Diz-se que o sonambulismo é leve quando ocorre menos de uma vez por mês e não traz consequências para o indivíduo ou para outros. É moderado quando mais frequente que o leve, mas ainda sem consequências. Já o grave ocorre quase todas as noites e está associado a danos físicos do paciente ou de outros. Diz-se que o sonambulismo é crônico quando se manifesta por período superior a três meses.”

Não se conhecem as causas. “As parassonias em geral resultam de alterações fisiológicas normais do sono, mas podem gerar problemas, se acentuadas. Supõe-se que no sonambulismo haja alguma alteração no mecanismo fisiológico de acordar, como se o sonâmbulo o fizesse pela metade. O que se sabe é que o sonambulismo, assim como o terror noturno, ocorre durante as ondas lentas (estágios 3 e 4), que predominam na primeira metade da noite de sono. Já o pesadelo ocorre usualmente na segunda metade do sono, quando as ondas são mais rápidas – há, inclusive, mais períodos de ondas muito rápidas, em que ocorrem os sonhos.

Segundo o médico, sabe-se também que muitos fatores podem predispor ao sonambulismo: privação do sono (noites maldormidas por qualquer motivo), vários tipos de medicamentos, intoxicação alcoólica, febre, asma, interrupção das ondas lentas pela apneia do sono e estímulos internos (como bexiga cheia) ou externos (como barulho).

Zumbis
A principal manifestação, como o nome diz, é andar dormindo. “Daí, há uma grande variabilidade de comportamentos, conforme a gravidade e o contexto. Tipicamente, o indivíduo caminha pelo quarto, vai ao banheiro, pode subir e descer escadas e até sair de casa, assim como pode se alimentar e falar alguma coisa. Às vezes, há comportamento inadequado, como o caso da criança que urina no armário. Geralmente, o episódio dura de minutos a meia hora. Há redução de resposta ao meio, ou seja, ausência de resposta à comunicação e olhar vazio, como se o indivíduo estivesse agindo automaticamente. Ele não se lembra do evento quando acordado, seja pela manhã ou durante o sonambulismo, neste caso, se mostrando confuso e desorientado por algum tempo”, relata Maurício.

Beto Novaes/EM/D.A Press
'Tipicamente o indivíduo caminha pelo quarto, vai ao banheiro, pode subir e descer escadas e até sair de casa, assim como pode se alimentar e falar alguma coisa%u201D - Maurício Viotti Daker (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
O neurologista e professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG Rogério Gomes Beato, explica que existem evidências de que o sono dos indivíduos com sonambulismo é instável, com tendência a apresentar vários despertares. “Ao mesmo tempo, os mecanismos que levam ao aprofundamento do sono não permitem que os despertares aconteçam normalmente e o indivíduo desperta apenas parcialmente”, destaca. Segundo Beato, num trabalho no qual se estudou a circulação cerebral no sonambulismo, foi observada redução do fluxo sanguíneo cerebral nas regiões frontais e parietais, o que pode explicar a não consciência durante o evento, e um aumento deste na região do giro do cíngulo. Isso pode traduzir a estimulação motora, emocional e vegetativa observada durante os episódios.”

Beato ressalta que, na maior parte dos casos, é o componente genético o mais importante para o aparecimento dos episódios de sonambulismo. “Um episódio simples de sonambulismo, por exemplo, no qual o indivíduo caminha pelo quarto e volta para a cama e dorme, não traz consequências. No entanto, nos casos em que o indivíduo sai de casa, ele pode se expor a perigos.”

O médico salienta que a prevenção inclui evitar todos os fatores desencadeantes. “Ao se acordar um indivíduo de um episódio de sonambulismo, este apresentará confusão mental, mas não existem maiores riscos para os pacientes. Existem relatos raros de pessoas que utilizaram o computador e enviaram mensagens pela internet durante um episódio de sonambulismo. Entretanto, provar que o indivíduo fez compras ou mesmo cometeu crimes ou atos violentos (casos muito raros) durante o sono e, portanto, não estava consciente, será difícil.”

O especialista ressalta que existe tratamento. “Este deverá ser individualizado. Na maior parte dos casos será necessário apenas fornecer orientações à família. Em outros casos, além das orientações, deverão ser adotadas medidas de proteção do ambiente (portas e janelas fechadas, dormir no térreo). Nos casos mais graves, pode ser necessário o uso de medicamentos para resolver os episódios. O uso desses fármacos deve ser realizado com supervisão médica. Existe uma tendência à redução progressiva do número de episódios após a adolescência e após os 35 anos.”

 

Briga de irmãos
O professor J.B.L.*, de 36 anos, lembra que tudo começou na adolescência e que era sempre acordado por alguém da casa onde morava com os pais e irmãos. “A primeira vez foi quando tinha uns 16 anos e minha irmã me acordou no banheiro lá de casa. Estava sentado em cima do vaso, que estava com a tampa fechada, e dormindo ali. Confesso que não me lembro como fui parar lá. Aquilo foi ficando frequente”, conta J.B.L. Ele recorda que, a partir dali, os irmãos trancavam a casa com medo de ele sair à noite e ser assaltado ou mesmo atropelado por algum veículo.

“Engraçado que eu circulava pela casa e raramente trombava em alguma coisa. Certa vez, durante um surto de sonambulismo, cheguei a fazer xixi no armário no qual meu irmão guardava as camisas dele. É claro que não me lembro, mas todos me contaram no outro dia e meu irmão ficou uma fera. Foi uma briga feia e meu pai acabou me levando ao médico, que me receitou um remédio, que era manipulado em farmácia”, lembra J.B.L.

Hoje casado e com dois filhos, J.B.L. diz não ter mais surtos de sonambulismo, mas já houve época de sua mulher buscá-lo na sala de casa. “Acredito que não sou mais sonâmbulo e hoje não tomo nenhum remédio. Mas, por via das dúvidas, trancamos as portas que dão saída para a rua. As janelas lá de casa têm grades e acho que não sofro nenhum perigo de queda. Meus filhos, ao que parece, não herdaram isso de mim, graças a Deus.”

*Foram citadas apenas as iniciais, a pedido do entrevistado

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