Conhecido pelo uso estético, pesquisa mostra que botox pode paralisar câncer

Injetada em tumores gástricos, a toxina botulínica impediu o crescimento da doença em ratos. O experimento abre a possibilidade de novo uso clínico do composto, já usado para tratar problemas musculares

por Bruna Sensêve 28/08/2014 14:00

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Normalmente conhecida pelas agulhadas capazes de preservar expressões faciais na luta contra o tempo, a toxina botulínica — ou simplesmente botox — não precisa apenas de justificativas estéticas para ser aplicada no corpo humano. Antes mesmo de sumir com as rugas indesejadas, durante a década de 1980, a substância chamava a atenção por provocar relaxamento de músculos oculares em pacientes com estrabismo. A partir de 1990, passou a ser usada em pessoas com distúrbios do movimento, principalmente nos casos de espasticidade. A exploração clínica do composto tem se ampliado exponencialmente. A mais recente novidade é a utilização dele para interromper o crescimento de tumores gástricos.

O efeito acontece porque o sistema nervoso é crucial para a regulação de diversos órgãos do corpo, inclusive dos que sofrem com cânceres. O grupo de pesquisadores que desenvolveu o procedimento, ainda experimental, acredita que o crescimento do cancro pode ser suprimido com a eliminação de sinais enviados pelos nervos que estão ligados a células-tronco do tumor. Esse bloqueio, chamado denervação, é alcançado por procedimento cirúrgico ou apenas pela aplicação local de botox. Os resultados foram publicados na última edição da revista científica Science Translational Medicine por cientistas de grandes instituições de pesquisa, como a Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, a Universidade de Columbia e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: CB/D.A Press)
Uma das principais vantagens da terapia proposta é que a toxina proporciona um procedimento barato, seguro e eficiente. Os testes foram realizados somente em camundongos (veja infografia), mas há a intenção de começar em breve com humanos. Inicialmente, os cientistas tentaram três métodos para interromper a ligação entre os nervos e o tumor: por corte do nervo vago gástrico (vagotomia) e com medicamento e intervenção genética para bloquear o receptor do neurotransmissor que estimula o crescimento de células cancerígenas. Todos foram bem-sucedidos em suprimir o avanço tumoral, mas sem as vantagens do botox, especialmente a ausência de intervenção cirúrgica.

Pesquisador da universidade norueguesa, Duan Chen acredita que o tratamento com a toxina é superior por poder ser usado localmente e ter como alvo as células-tronco do câncer. “O botox pode ser injetado por meio de gastroscopia e só requer que o paciente permaneça no hospital por algumas horas”, detalha. Ele acrescentou que o procedimento também é menos tóxico do que a maioria dos tratamentos-padrão e quase não tem efeitos colaterais.

Complemento
Ainda assim, os pesquisadores sugerem que, para a maioria dos pacientes, a denervação deverá funcionar melhor em combinação com a quimioterapia tradicional. Isso porque o procedimento também parece fazer as células cancerígenas mais vulneráveis à quimioterapia, deixando-a mais eficiente. O grupo também acredita que a aplicação local da toxina possa ajudar no combate a cânceres que não sejam gástricos. “A ligação de crescimento do nervo ao tumor é possível em outros tumores sólidos, como na próstata. Porém, os nervos envolvidos podem variar de órgão para órgão e de tumor para tumor. São necessários estudos adicionais”, pondera Chen.

Para Heber Salvador, cirurgião oncologista do Núcleo de Abdômen do Centro de Câncer A.C. Camargo, essa é uma nova linha de raciocínio e pesquisa na área do câncer de estômago. “Em toda a situação que precisa de um bloqueio muscular duradouro, o botox pode ser usado. Para o câncer, não há relatos. Esta foi uma primeira publicação de um grupo de peso, mas a história deve evoluir”, aposta.

Salvador ressalta que o composto também é usado para doenças em que há uma hipercontratividade, consequência de enfermidades geradas por lesões nos nervos. “Ao acessar a célula, o nervo lança uma substância que faz com que ele se contraia. O botox bloqueia o lugar que essa substância age no músculo. Então, podemos usar esses efeitos terapêuticos contra o excesso de contração”, explica.

Especialista no tratamento dos distúrbios do movimento e professora da Universidade de Federal de São Paulo (Unifesp), Lúcia Helena Mercuri Granero frisa que o tratamento com a toxina é adjuvante e não deve ser instituído isoladamente. Especialmente em condições neurológicas que estão associadas a espasticidades e distonias (espasmos musculares involuntários), seria mandatório, segundo ela, o apoio e a prescrição de outras medidas terapêuticas.

Granero acredita que o uso de botox no auxílio do tratamento do câncer é algo mais recente e ainda requer tempo para demostrar sua eficácia. “Em relação às patologias neurológicas e aos distúrbios musculares, há quase 30 anos a toxina é reconhecida como tratamento seguro e eficaz. Nos casos de Parkinson, esclerose múltipla e nas lesões cerebrais, como acidente vascular cerebral e traumatismo craniano encefálico, a utilização dela como parte do tratamento tem importante papel no controle da rigidez”, detalha.

Movimentos dificultados
É uma sequela de lesões do sistema nervoso central que leva a um descontrole da contração mínima muscular (tônus), fazendo com que a pessoa tenha dificuldade para realizar atividades diárias, como caminhar, comer e escovar os dentes. Ocorre em decorrência de doenças que provocam lesões em células do sistema nervoso, responsáveis pelo controle dos movimentos voluntários, como acidente vascular cerebral, esclerose múltipla e lesão medular.

Tratamento reduz sintomas depressivos
A toxina butolínica age principalmente em lesões nervosas, mas outras condições clínicas podem se beneficiar do composto. Um artigo publicado na edição de abril do Journal of Psychiatric Research relata que pacientes que receberam a substância tiveram uma melhora substancial em sintomas depressivos.

O estudo, conduzido por Eric Finzi e Norman Rosenthal, da Faculdade de Medicina de Georgetown, incluiu 74 indivíduos com depressão moderada a grave. Eles receberam a injeção de uma única dose de botox ou placebo no músculo entre as sobrancelhas. Mais da metade dos participantes apresentou melhora substancial, superior ou igual a 50% do estágio inicial da doença.

“Essa pesquisa é inovadora porque oferece uma abordagem totalmente nova para tratar a doença e que não entra em conflito com quaisquer outros tratamentos”, declarou Rosenthal. Ele concluiu que a nova pesquisa apoia antiga teoria do feedback facial de Charles Darwin e William James na qual as expressões faciais influenciam o humor. A inibição da testa franzida por injeção facial de botox poderia ajudar, então, pacientes com depressão.

Vale lembrar que o efeito da toxina dura de três a quatro meses. Portanto, é um tratamento que precisa ser repetido, além da necessidade de avaliar a conduta conforme os resultados obtidos. “Devemos observar que a toxina botulínica é produzida por uma bactéria existente na natureza e, portanto, estranha ao nosso organismo. Não se deve expor o paciente ao uso frequente pelo risco da formação de anticorpos. Caso isso aconteça, o efeito dela será neutralizado”, observa Lúcia Helena Mercuri Granero. Segundo a professora da Universidade de Federal de São Paulo (Unifesp), deve ser respeitado um intervalo de 90 dias entre uma aplicação e outra.

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