Cuidar de jardins e hortas protege os mais velhos do Alzheimer; veja dicas

O relaxamento e a interação promovidos pela atividade estão entre as razões desse efeito

por Correio Braziliense 15/08/2014 09:00

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Carlos Moura/CB/D.A Press
Maria das Dores e Josefa cuidam da horta do lar de idosos em que vivem e planejam abastecer uma creche com os vegetais (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
As amigas Maria das Dores, 74 anos, e Josefa de Oliveira, 69, atravessam os jardins, sorridentes, até chegarem a uma horta. A dupla diverte-se em um lar de idosos, no Distrito Federal, cuidando dos vegetais “com boa vontade e carinho.” Aparentemente trivial, o hábito rende benefícios que têm chamado a atenção de cientistas. Um estudo do Reino Unido indica que esse tipo de atividade reduz o estresse, promove a capacidade de recuperação diante dos desgastes cotidianos e ajuda a estabelecer vínculos emocionais com o ambiente, prevenindo demências, como o mal de Parkinson e o de Alzheimer (leia Para saber mais).

O impacto positivo do convívio com a natureza foi medido por uma equipe da Universidade de Medicina de Exeter, que apontou que quase metade dos idosos residentes em casos de cuidado tem demência ou os primeiros sintomas dela. O número aumenta para mais de três quartos nas casas de repouso. A jardinagem pode evitar o problema, de acordo com os cientistas, porque promove o relaxamento, estimula a atividade e reduz a agitação dos moradores. Além disso, o espaço ao ar livre facilita a interação com visitantes, ajudando os mais velhos a estimular a memória.

Lúcidas, Maria das Dores e Josefa contam que tiveram contato com plantas durante a vida toda e levaram a experiência para o lar de velhinhos. “Só hoje, cuidei da pimenteira e plantei mostarda”, conta Maria, enquanto a outra completa: “Nós não plantamos com terra socada, fazemos a preparação do local e deixamos tudo fofo para a planta poder crescer bonita”.

A dupla planeja compartilhar os benefícios da prática. Elas têm planos de envolver, no plantio, as crianças da creche localizada no mesmo terreno do lar dos velhinhos. “Temos que ensinar as próximas gerações a saber comer verdura e a ver se ela está boa para a alimentação. Assim, quando virem algo mal lavado ou feio, vão pensar ‘Não vou comer isso, não foi assim que a tia me ensinou’”, diz Maria.

Leonardo Tavares, psicólogo que cuida do abrigo e idealizador da horta, fala que o contato com as crianças enriquecerá ainda mais o projeto. “É ótimo porque os pequenos ficam interessados no assunto, dispõem-se mais a comer vegetais e aprendem a respeitar os mais velhos”, explica. Ele completa dizendo que quem fala sobre a horta sente, ao mesmo tempo, que tem o seu conhecimento valorizado e é incentivado a fazer um bom trabalho.

Ruth Garside, uma das autoras da pesquisa conduzida na Universidade de Medicina de Exeter, conta que o próximo passo do estudo é exatamente este: avaliar como interagem e se beneficiam com hortas e jardins pessoas de diferentes gerações. “A equipe está trabalhando em uma resenha sobre plantações escolares que analisará o impacto delas sobre os hábitos alimentares das crianças. O resultado disso deve ser lançado no próximo ano”, antecipa. Enquanto isso, Josefa tem planos de plantar hortaliças o suficiente para abastecer a creche: “Tenho uma mão boa para abóbora, precisa ver! Para batata-doce, então, nem se fala. Vamos fazer sopas para deixar as crianças fortes e livres dos agrotóxicos”.

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Sinto ter duas casas, uma do lado de dentro e a outra do lado de fora. Mas você acha que eu fico lá atendendo telefone? Eu não. Passo mais tempo aqui, me dá muito mais felicidade - Maria das Graças Dias, 52 anos (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Qualquer tempo

Hartmut Günther, chefe do Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), explica que ambientes verdes são restauradores e podem melhorar o humor em qualquer época da vida. Segundo o especialista, ter um hobby é algo que libera a tensão, seja ele colecionar selos, seja cuidar de cães. No caso das plantas, a atuação em ambientes naturais intensifica os benefícios. “Pode ser pequeno também, como vasinhos em varandas”, garante.

A professora Maria das Graças Dias, 52, porém, não gosta de economia quando o assunto são suas plantas. “Devo ter mais de mil na minha chácara, de flores a árvores típicas do cerrado. Não tenho uma preferida, conheço todas e cada uma tem um lugar no meu coração.” Ela conta que o jardim que tem em casa, no Lago Norte, é excelente para a interação com a família, já que gosta de colocar a mesa no quintal para fazer as refeições em conjunto.

“Sinto ter duas casas, uma do lado de dentro e a outra do lado de fora. Mas você acha que eu fico lá atendendo telefone? Eu não. Passo mais tempo aqui fora, me dá muito mais felicidade”. A professora conta que gosta de andar descalça pelo jardim para sentir a energia que a natureza emana. Segundo a psicóloga clínica Selma Nazaré, o contato com a natureza, além de reduzir o estresse, a pressão arterial e melhorar a socialização, facilita o equilíbrio interior. “Promove a harmonização entre o pensar, o sentir e o agir”, diz. A especialista reforça que o interesse por essas atividades pode, e deve, ser despertado o quanto antes.

No caso de Maria das Graças, o gosto pelas plantas começou quando ela era criança e passava os dias na casa da avó. Uma vez, viu uma tia tirando as folhas secas dos gerânios e resolveu imitá-la. “Percebi que minha mão ficava com um cheiro bom”, recorda. Hoje, a professora conta que sente uma “felicidade legítima” quando vê crescer uma muda que plantou. E se entristece ao ouvir alguém falar que não há graça em cuidar de plantas sem flores ou árvores não frutíferas. “A beleza é maior que isso. Veja as árvores do cerrado, por exemplo. Como o meu pai dizia, elas têm personalidade. Você nunca verá uma exatamente igual a outra.”

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Carmen doa as frutas e verduras do seu quintal para asilos e familiares (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Mesmo indireto

O psicólogo Hartmut Günther diz que o benefício de plantar e colher varia conforme as percepções individuais sobre a atividade. Por isso, caso a pessoa não goste de mexer na terra, outras interações podem ser benéficas: “O simples contato com a natureza por meio da janela do carro no caminho para o trabalho ou nas ciclovias faz mais bem do que uma via cheia de anúncios”, exemplifica.

Ele acrescenta que, no caso de um idoso não conseguir mexer nas plantas por limitações físicas, há o risco de frustração. “Nas casas de cuidados, por exemplo, isso pode gerar um mal-estar para o cuidador e um efeito negativo sobre a autoestima do cuidado. Nessas situações, eu aconselho a contemplação da beleza natural.”

Vale a pena compartilhar
O que causa mais bem-estar: um ambiente natural e calmo ou um espaço artificial e relaxante? Uma pesquisa realizada por estudiosos de psicologia ambiental da Universidade de Brasília (UnB) indica a primeira opção. Segundo estudo intitulado Ambientes restauradores: definição, histórico, abordagens e pesquisas, estudos empíricos sugerem que as atividades em ambientes naturais “reduzem o estresse da vida diária, promovem a capacidade de recuperação ante os desgastes cotidianos”.

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Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os jardins não só apresentam a oportunidade de relaxamento em um ambiente calmo, mas também ajudam a lembrar habilidades e hábitos que trouxeram alegria (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Carmen Carreira, 74 anos, não apenas sente esses benefícios, como também supre três lares com a horta que tem no jardim de casa, ONDE, além de doar parte da plantação para instituições carentes. A aposentada conta que começou a plantar na fazenda em que foi criada e acabou tomando gosto pela atividade, uma vez que diz preferir vegetais a carne na alimentação. Além disso, cultiva flores e árvores. “Posso ter tudo sem precisar ir à feira”, ri.

A atividade também promove bastante a interação das mais variadas formas. Carmen convida os familiares para comer na casa dela e os presenteia com vegetais e sucos de frutas. “Eles adoram o suco da minha tangerineira”, conta. Faz campanhas de doação para instituições carentes. “No ano passado, doei 150 abóboras para lares de velhinhos.” E ainda sobra colheita para o “escambo”. “Quando não tem alguma coisa no meu quintal, troco pelo que sobra do dos meus amigos.”

Hartmut Günther, chefe do Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), acredita que essa interação é bastante saudável, uma vez que “ambientes que propiciam a oportunidade de encontrar as pessoas são automaticamente restauradores.” Segundo o professor, pessoas na melhor idade se sentem especialmente úteis quando podem compartilhar os conhecimentos adquiridos “Consigo saber se vai chover pelo canto dos pássaros e em que lua é melhor para plantar e colher”, conta Carmen. “As pessoas brincam dizendo que eu sou uma bruxa, mas é só o convívio com a natureza.”

As vantagens

 

Emocional
» Idosos tornam-se mais seguros, afetivos, bem adaptáveis, tranquilos e com a autoconfiança elevada, que é um pré-requisito indispensável na vida social e no desempenho das atividades da vida diária

Psicomotora
» Atua na prevenção e na automatização dos movimentos corporais, alivia dores, ativa a área perceptiva nos cinco sentidos devido à variedade de cores, sons, texturas, sabores e aromas encontrada em ambientes externos

Fonte: Selma Nazaré, psicóloga clínica

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Tratamento sem remédio
Em parceria com o The National Institute for Health Research Collaboration for Applied Health Research and Care South West Peninsula, pesquisadores da Universidade de Exeter estudaram 17 casas de cuidados em busca de formas que melhorem os sintomas da demência sem o uso de drogas. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os jardins não só apresentam a oportunidade de relaxamento em um ambiente calmo, mas também ajudam a lembrar habilidades e hábitos que trouxeram alegria. Apesar dos resultados positivos, os autores salientam que essa área não desperta tanto o interesse político quanto deveria. Isso porque cerca de 7, 7 milhões de novos casos de demência são diagnosticados no mundo anualmente. Os resultados do estudo foram divulgados no Journal of the American Medical Directors Association.

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