HIVBr18: conheça a vacina brasileira da Aids

O médico imunologista Edécio Cunha Neto coordena uma das linhas de pesquisa mais promissoras no combate ao vírus HIV. Na entrevista a seguir, ele detalha o histórico do estudo e explica por que o cenário de uma vacina eficaz em escala mundial continua distante

por Flávia Duarte 15/08/2014 11:00

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Sérgio Barbosa/Divulgação
(foto: Sérgio Barbosa/Divulgação)
Quando a Aids começou a ganhar a fisionomia de corpos esquálidos nos anos 1980, o diagnóstico da doença era inevitavelmente uma sentença de morte, somada ao preconceito que carregava o estilo de vida das primeiras vítimas do vírus. Passadas quase três décadas desde que rostos famosos se tornaram cadavéricos — popularizando o conhecimento sobre a existência da doença, mantida em segredo em grupos mais restritos e pelas famílias dos pacientes menos célebres —, a Aids até hoje carrega estigmas. Bem mais amenos, é verdade. O vírus é controlado, já não mata se tratado. Mas ainda assusta e não existe cura. Para proteger-se, só mesmo a prevenção: o cuidado na hora do sexo e a distância do sangue contaminado.

Felizmente, a vacina é uma possibilidade cada vez mais próxima de se tornar realidade. Há pelo menos 20 anos, pesquisadores de todo o mundo tentam encontrar um antígeno que proteja o organismo de algumas formas do vírus. Um desses projetos é conduzido pelo médico imunologista Edécio Cunha Neto, do Laboratório de Imunologia Clínica e Alergia da USP. Ele lidera uma equipe de brasileiros que, desde 2002, investiga, com apoio do Ministério da Saúde, da Fapesp e do CNPQ, a vacina batizada de HIVBr18. A esperança é que ela retarde o aparecimento da imunodeficiência do organismo doente e reduza a transmissão de um dos subtipos mais comuns do vírus no Brasil.


UM ACHADO PROMISSOR
Em 2002, começamos a buscar fragmentos do HIV que pudessem ser bem reconhecidos pelo sistema imune de pacientes que passaram muitos anos com a doença e tinham uma boa imunidade. Quando fomos testar esses fragmentos do HIV, vimos que eles eram muito bem reconhecidos pelo grupo de pacientes com boa evolução, mas também pelos outros grupos, até por aqueles que estavam com a doença avançada e a imunidade superbaixa.

A DEFESA DO ORGANISMO
O sistema imune é responsável pela defesa contra micro-organismos. Para ele fazer essa defesa, precisa identificar o micro-organismo como algo prejudicial. A forma que ele faz essa identificação é no primeiro contato com o micróbio ou, no caso, com a vacina. É desencadeada uma resposta imune específica para aquele contato.

A NOVA VACINA
Tiramos o sangue dos pacientes e colocamos em uma situação de teste em laboratório. Vimos que mais de 90% deles, independentemente das condições clínicas, apresentavam respostas imunes contra os fragmentos de proteínas selecionados do HIV. Se esses fragmentos são tão reconhecidos, se prepararmos com eles uma vacina e a administrarmos antes da infecção, será que vamos proteger as pessoas que não estão infectadas? Daí, nossa hipótese passou a ser: vamos gerar esses fragmentos do HIV que foram muito bem reconhecidos pelos pacientes infectados e vamos testar em um modelo para ver se eles são bem reconhecidos. Começamos a testar em camundongos. No caso, era uma vacina de fragmentos de DNA que codificavam os fragmentos do HIV que tínhamos identificado no trabalho anterior. Nós somos constituídos basicamente de proteínas e o sistema imune as identifica. Então, sabemos que, se for injetado DNA, ele se traduzirá em proteínas. De fato, o animal traduzia esses fragmentos de HIV em proteínas e o sistema imune as reconhecia.

O DIFERENCIAL
Um dos diferenciais em relação ao que estava sendo feito na literatura é que nós selecionamos, com auxílio de um programa de computador, fragmentos antigênicos que tivessem chances de ser reconhecidos pelos linfócitos. Selecionamos nas proteínas do HIV só as partes mais preservadas e que tenham uma resposta imunológica mais ampla na população em geral. Assim, fizemos toda a sequência genética do vírus do HIV. Nós a colocamos nesse programa e pudemos identificar quais regiões eram mais comuns, mais preservadas, que não variavam de um HIV para o outro, porque o vírus é muito variável. Com base nessa seleção, sintetizamos os fragmentos em laboratório e os testamos no sangue dos pacientes. Vimos que, de fato, eles eram muito reconhecidos. A nossa é a única vacina que foi desenvolvida por um grupo totalmente brasileiro. Nós temos a patente no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Existe um outro grupo em Recife, que está testando uma vacina terapêutica desenvolvida na França para pacientes soropositivos. O objetivo deles é melhorar a imunidade dessas pessoas ou atrasar a necessidade de usar o coquetel.

PRÓXIMOS PASSOS

De 2002 a 2005, fizemos a seleção desses fragmentos. De 2005 a 2010, testamos em camundongos. A partir de 2013, passamos a fazer testes em macacos porque eles têm um sistema imune geneticamente mais próximo do humano. Nos macacos, verificamos uma resposta imune até 10 vezes mais intensa do que aquela que a gente via em camundongos. Com base nessa informação, ficamos bem mais confiantes. A próxima etapa é testar várias vacinas de vírus atenuados e colocar dentro deles o DNA que codifica os fragmentos do HIV. Até o fim do ano, vamos testar em macacos três vetores virais diferentes e analisar qual combinação desencadeia a resposta imunológica mais forte. Não se pode administrar o vírus direto em humano porque o risco de ele reativar é muito grande.

UM GRANDE DESAFIO
O vírus varia demais. Muito mais rápido do que o vírus da gripe, por exemplo. São vários subtipos e, dentro de um paciente, a cada dia, você tem a geração de um vírus com uma sequência um pouco diferente. Na população infectada, a diferença pode chegar a 35% do genoma do HIV. Fica difícil gerar uma vacina… A nossa foi preparada para um dos subtipos principais do Brasil, que é o subtipo B. Pode ser usada no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos, que têm o mesmo subtipo predominante. Outra dificuldade é que o vírus do HIV destrói as células do TCD4, que são as principais do sistema imune. Então, nos primeiros momentos da infecção, durante a fase aguda, ele já destrói uma quantidade enorme dessas células. A quantidade deles baixa tanto que a pessoa começa a ter infecções por agentes oportunistas. A outra tentativa seria gerar uma vacina que produza anticorpos que grudem na parte externa do HIV e impeça que ele penetre na célula. Se você tivesse uma vacina assim, poderia evitar completamente a doença.

O QUE JÁ FOI FEITO NO MUNDO
Não se sabe quais, de fato, são os componentes que protegem contra o HIV. Então, em qualquer teste de vacina contra o vírus, o único jeito para saber se a vacina funciona é comparar quem tomou o placedo, que é uma substância inócua, com quem pegou a doença de uma forma mais ou menos atenuada. Para isso, você precisaria de milhares de voluntários — um estudo dessa natureza custa de 50 a 100 milhões de dólares. Nos últimos 30 anos, somente quatro vacinas foram testadas. Dessas, somente uma teve uma resposta parcial, ou seja, protegia 30% das pessoas que tomavam a vacina. Foi feito na Tailândia, em 2009. Hoje, vários grupos de pesquisa tentam aperfeiçoar a vacina tailandesa em busca de uma resposta mais eficaz.

O FUTURO
É difícil prever com exatidão quando essa vacina estaria disponível porque ainda há muitas etapas burocráticas, de financiamento da pesquisa, difíceis de prever. Nossa programação é que, a partir do início do ensaio em macacos, de dois a três anos, podemos começar a fazer teste em humanos. O primeiro teste em humanos é o de imunogenicidade, no qual verificamos se a vacina induz a resposta imune, como fizemos com camundongos e macacos. É uma etapa importante para ver se a vacina realmente protege. Provavelmente, o que vai acontecer é que as vacinas do HIV não vão ter eficácia de 100%. Com muita sorte, daqui a 5 a 10 anos, uma dessas vacinas derivadas da vacina mais promissora pode dar certo. E, mesmo que haja o sucesso de uma vacina, a pesquisa para outras continuará sendo importante.

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