Brasil cogita comprar medicamento experimental contra o ebola

Aquisição do medicamento seria um medida preventiva e só ocorrerá após uma confirmação do laboratório acerca da segurança e efetividade da droga

por Flávia Franco 13/08/2014 10:29

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Mesmo considerando mínima a possibilidade de o vírus do ebola chegar ao Brasil, o Ministério da Saúde confirma que estabelece um diálogo com o laboratório responsável pelo medicamento experimental ZMapp. Segundo o secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, a aquisição do remédio seria um medida preventiva e só ocorrerá após uma confirmação do laboratório acerca da segurança e efetividade da droga.

AFP PHOTO/ SIA KAMBOU
Em aeroporto da Costa do Marfim, agentes usam termômetro para detectar a temperatura dos passageiros: a febre é um dos primeiros sintomas do ebola (foto: AFP PHOTO/ SIA KAMBOU )
A Mapp Biopharmaceutical, porém, diz não ter a substância disponível de imediato. Ontem, a empresa publicou em seu site que os estoques do remédio experimental estão esgotados, “após o atendimento de algumas demandas”. Ainda de acordo com o texto divulgado, ela está cooperando com outros parceiros para ampliar a produção.

Sobre a possibilidade de o vírus letal chegar ao Brasil, a coordenadora do Comitê de Saúde do Viajante da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Sylvia Hinrichsen, reforça que a situação depende das medidas de barreiras adotadas por todos os países. “Todos deverão proceder segundo as recomendações de prevenção de surtos e ou riscos de adoecimentos.”

Na última sexta-feira, após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar que o surto do ebola na África Ocidental deveria ser tratado como uma emergência global, o governo brasileiro elevou para dois o nível de monitoramento do Centro de Operação de Emergência em Saúde. Segundo o ministro da Saúde, Arthur Chioro, a alteração significa que equipes de saúde passarão a monitorar lugares, como aeroportos, em que há maior possibilidade de trânsito de pessoas infectadas. “Não há risco, neste momento, de transmissão no Brasil”, afirmou. Na ocasião, Chioro também anunciou o envio de suprimentos para atender as vítimas da doença na África, além da doação de R$ 1 milhão à OMS para ajudar em medidas de combate à doença.

1.013
Número de mortos em decorrência do ebola na África Ocidental desde dezembro, segundo balanço mais recente da Organização Mundial da Saúde

OMS aprova uso de droga experimental

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tomou, ontem, a decisão de autorizar o uso de medicamentos experimentais para tratar e combater a epidemia de ebola que tomou conta da África Ocidental, matando 1.013 pessoas desde dezembro. Após dois dias de debate com especialistas, a agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU) considerou “ética” a prescrição de “tratamentos cuja eficácia ainda não foi demonstrada, assim como os efeitos colaterais” e estabeleceu critérios que devem guiar esse tipo de intervenção. Transparência sobre todos os aspectos da terapia, consentimento do paciente, confidencialidade e preservação da dignidade estão entre os princípios indicados, em nota, pela entidade.

A decisão veio depois de os Estados Unidos e a Espanha terem tratado três pacientes infectados na Libéria com ZMapp, uma substância criada pela empresa de biotecnologia Mapp Biopharmaceutical, sediada em San Diego. O médico e a missionária norte-americanos apresentam melhoras desde a intervenção. Já o padre Miguel Pajares não resistiu à doença e se tornou, ontem, o primeiro europeu a perder a vida em consequência do vírus. Antes do atual e maior surto do ebola, a ZMapp havia sido testada apenas em animais.

Segundo a infectologista Eliana Bicudo, do Hospital Santa Luzia, em Brasília, a medida da OMS é um passo natural dentro da situação atual do surto. “Já foi feito isso com outras doenças ao longo dos anos, como a Aids”, lembra, referindo-se ao início do tratamento com AZT. A especialista explica que, diante de uma situação na qual a taxa de letalidade é muito alta, pular as etapas necessárias para a aprovação de um medicamentos deixa de ser um problema (leia Para saber mais).

Bicudo acredita que, depois de mais ou menos um mês da administração de drogas experimentais em infectados, será possível analisar a manifestação e a eficácia dessas substâncias e determinar o perfil dos pacientes que devem receber a droga. Apesar de o procedimento não seguir o padrão, a infectologista apoia a decisão tomada pela OMS. “Para mim, não tem nada de antiético nem de incorreto nisso”, reforça.

O discurso é parecido com o adotado pelos três maiores especialistas em ebola no mundo. Na semana passada, quando foi anunciado o uso de ZMapp em norte-americanos, Peter Piot, que descobriu a doença em 1976, David Heymann e Jeremy Farrar cobraram da OMS, como “a única autoridade internacional”, uma postura mais firme em torno do uso de medicamentos experimentais também na África Ocidental. Em comunicado, o trio afirmou que “os governos africanos devem ser autorizados a tomar decisões sobre se devem ou não usar esses produtos para, por exemplo, proteger e tratar trabalhadores de saúde que atuam diante de um alto risco de infecção”.

Não há remédios homologados para tratar o ebola. Nancy Writebol, 60 anos, tratada com a droga experimental ZMapp, apresenta, segundo o filho, avanços consideráveis. “Vimos ela melhorar fisicamente, seus olhos brilham, está sorrindo, inclusive brincando”, afirmou Jeremy Writebol à rede de televisão americana NBC. Kent Brantly, 33 anos, foi o outro paciente repatriado na semana passada que recebeu doses da droga e também apresenta melhoras.

Segundo a infectologista Eliana Bicudo, o padre espanhol Miguel Pajares não apresentou resultados parecidos porque provavelmente foi medicado quando a doença estava mais avançada. “Ele já apresentava hemorragia digestiva, que até tem mais chances de melhora do que a hemorragia pulmonar, uma etapa mais grave da doença, mas a probabilidade de um paciente com esses sintomas sair desse quadro são mínimas”, explica.

Novo balanço
De acordo com o último levantamento da OMS, o surto do vírus fatal contabiliza 1.013 mortos e 1.848 casos confirmados. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine na segunda-feira indica que um garoto de 2 anos, morto em dezembro, pode ter sido o primeiro paciente infectado. O menino, que morava em Guéckédou, na Guiné, teria adoecido após comer frutas contaminadas por fezes de morcegos com a cepa do vírus. O micro-organismo foi, então, repassado à mãe, à avó e a uma irmã dele de 3 anos. Todas morreram em menos de um mês.

Países vizinhos à região mais afetada do continente africano tomam medidas preventivas para evitar que a contaminação se espalhe. Em aeroportos, passageiros que estiveram em áreas com maior risco de contaminação são submetidos a uma triagem para determinar a possibilidade de estarem infectados, como um exame feito com termômetro infravermelho capaz de medir a temperatura corporal. Os primeiros sintomas do ebola são parecidos com o de uma gripe, como febre, dores musculares e de garganta.

"Já foi feito isso com outras doenças ao longo dos anos, como a Aids (…) Para mim, não tem nada de antiético nem de incorreto nisso” - Eliana Bicudo, infectologista


Processo demorado

A aprovação de novos medicamentos e tratamentos depende da realização de vários procedimentos e costuma demorar anos. O protocolo envolve fases de testes com animais e estudos clínicos. Essa última parte inclui três etapas principais. Na primeira, são avaliadas a tolerância da droga e a ausência de efeitos colaterais ao uso. Para observar essas características, os testes são feitos com um pequeno grupo de voluntários saudáveis. A segunda fase envolve estimar a eficácia do medicamento e determinar a dose ideal. A terceira e última fase consiste em comparar o novo medicamento com um placebo ou com o tratamento referência da enfermidade em questão. Depois dos testes clínicos, o laboratório entra com um pedido na agência reguladora a fim de obter a autorização para o novo tratamento.

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