Vontade de trabalhar pelo bem coletivo desperta - e pode ser aprendida - em todas as fases da vida

Estudo conduzido na Espanha indica que a forma como as pessoas cooperam e se dedicam a atividades do tipo varia conforme a idade

por Correio Braziliense 12/08/2014 15:00

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Carlos Vieira/CB/D.A Press
Mateus é escoteiro há dois anos: "Somos mais proativos. É uma vontade de trabalhar que não vejo nas outras pessoas com tanta frequência" (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Há quem torça para ficar longe dos trabalhos em grupo. Missão impossível. No trabalho, na escola, na família, entre amigos… Em algum momento da vida, será necessário se organizar dessa maneira. Um estudo conduzido nas universidades de Barcelona, Madri e de Zaragoza, indica que a forma como as pessoas cooperam e se dedicam a atividades do tipo varia conforme a idade delas (leia Para saber mais). Segundo os pesquisadores das instituições espanholas, quando o assunto é fazer junto, os adolescentes são mais imprevisíveis; os adultos, mais estratégicos; e os idosos, os melhores parceiros. Apesar das diferenças, os especialistas garantem que essa é uma habilidade que pode ser aprendida e melhorada em qualquer momento da vida.

Segundo a psicóloga Cleuza Barbieri, adolescentes tendem a ser preocupar mais com as questões pessoais, apesar de se inspirarem e se guiarem por grupos. “Isso não é ruim, apenas uma característica própria da idade”, conta. Barbieri afirma que, logo após a infância, as pessoas costumam se comportar de forma mais impulsiva e imprevisíveis, movem-se muito pela emoção e planejam pouco. “Mas, por volta dos 18 anos, essa atitude começa a mudar. A boa estratégia na hora da cooperação vem da experiência.” A especialista, porém, também acredita que esses perfis podem ser alterados no início da vida. “Crianças que participam de grupos que envolvem o trabalho em equipe, como os religiosos e os escoteiros, tendem a perceber a importância da união e aperfeiçoá-la”, exemplifica.

Mateus Berardo, 15 anos, segue o caminho oposto ao senso comum. Escoteiro há mais de três anos, o estudante percebe bastante a disparidade entre as atitudes dos companheiros nos diferentes grupos de que participa. “Somos mais proativos. É uma vontade de trabalhar que não vejo nas outras pessoas com tanta frequência”, compara. Mateus também faz parte do clube de robótica da escola, mas ri quando conta que 75% dos integrantes são escoteiros. “É bom porque gostamos do que fazemos e puxamos os outros, que acabam absorvendo essa autonomia.”

Uma das vantagens de conviver com pessoas parecidas, segundo o jovem, é a facilidade que eles têm de reconhecer as próprias fraquezas e os pontos fortes dos outros. “No clube de robótica, por exemplo, sei programar, mas não sei fazer a montagem das peças. Meus companheiros não apenas montam bem como fazem super-rápido”, diz. Mateus diz que procura olhar para as habilidades dele e dos outros como um estímulo para melhorar sempre. “O pensamento ‘não é meu problema’ precisa ser deixado de lado”, aconselha o jovem.

O psicoterapeuta Rodrigo Lucas concorda com o desenvolvimento da ideia de cooperação nas salas de aula, mas ressalta que essas iniciativas deveriam ser exploradas de forma mais estratégica: “Escolas com esse perfil certamente formariam pessoas altamente cooperativas, o que traria um enorme benefício para a sociedade como um todo. Quando passarmos a cooperar mais uns com os outros, estaremos mais próximos do verdadeiro sentido de sermos cidadãos.”

Antonio Cunha/CB/D.A Press
Maria e Francisco atuam em uma igreja há mais de 30 anos e contam com a ajuda de pessoas de todas as idade (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Rodrigo Lucas destaca ainda que crianças e jovens são mais criativos e empáticos. Por isso, tendem a cooperar de uma maneira mais livre e espontânea; enquanto adultos tendem à racionalidade devido às experiências e aos ensinamentos acumulados, fazendo com que sejam mais previsíveis. “Pessoas na melhor idade geralmente são menos agressivas e têm mais experiência de vida. Isso favorece que sejam mais cooperativas”, complementa.

Troca de experiência

O casal de aposentados Maria Goretti Miranda, 57, e Francisco Miranda, 58, coordena o grupo de cozinha da igreja Pai Nosso, no Lago Norte, há cinco anos, e diz não perceber tanta diferença na idade das pessoas que também se dedicam a arrecadar fundos para a instituição. Eles reconhecem, porém, que há um contraste com relação à disponibilidade. “Pessoas com idade estão mais livres para ajudar que as novas. Temos equipe de decoração, limpeza, cozinha, finanças…Sempre é bem misturado. Como todos se respeitam, trabalham juntos com facilidade”, diz Maria.

Maria e Francisco ajudam instituições católicas desde o início do casamento, há mais de 30 anos. Eles contam que sempre foram dispostos a trabalhar por uma causa em que acreditam e que, com o passar do tempo, essa inclinação não mudou. Mesmo depois de três décadas cooperando, Maria se emociona com trabalhos do tipo. “Recentemente, vi, em uma programa de tevê, um grupo de idosos que dava comida a moradores de rua. Em um momento, um moço agradeceu o prato à senhora que estava servindo ele e ela respondeu: ‘Eu é que agradeço’. Um ser humano ajudar o outro é algo que faz bem para os dois.”

Esses benefícios, de acordo com a psicóloga Fernanda Soraggi, independem da idade. “Quem se doa mais simplesmente costuma se sentir mais feliz com a vida e, portanto, quer compartilhar e ajudar os outros a sentirem o mesmo.” O psicoterapeuta Rodrigo Lucas aponta outra vantagem da cooperação entre pessoas “É uma atitude básica e necessária às sociedades do futuro. Quando não se aprende essa característica, o destino é a inimizade.”

"Escolas com esse perfil certamente formariam pessoas altamente cooperativas, o que traria um enorme benefício para a sociedade como um todo. Quando passarmos a cooperar mais uns com os outros, estaremos mais próximos do verdadeiro sentido de sermos cidadãos”
Rodrigo Lucas, psicoterapeuta
 
Mudanças funcionam mais na adolescência
Publicado na revista Nature, o mesmo estudo conduzido pelas universidades de Barcelona, Madri e de Zaragoza indica que é necessário desenvolver estratégias específicas para promover atitudes altruístas e de cooperação entre adolescentes e jovens adultos. “Aplicando isso à área de educação, por exemplo, pode ser traduzido a um estabelecimento mais claro das responsabilidades de cada um em um projeto”, esclarece Josep Perelló, um dos autores do estudo e professor do Departamento de Fundamentos Físicos da Universidade de Barcelona.

	Carlos Vieira/CB/D.A Press
Rodrigo e Augusto atuam em uma instituição que prega a cooperação e a tolerância cultural entre jovens (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Os estudantes Augusto Valle, 22 anos, e Rodrigo Oliveira, 25, fazem trabalho voluntário juntos e conversam muito sobre como melhorar as suas ações para o benefício próprio e de pessoas ao redor. Para eles, os diálogos sobre condutas e aspirações têm funcionado muito bem. A dupla trabalha na Aiesec, instituição sem fins lucrativos que promove a tolerância cultural e o pensamento de liderança entre jovens de 18 a 30 anos que se voluntariam para atuar na organização ou fazem intercâmbios por meio dela.

“Ele é muito honesto e solícito quando preciso de conselhos sobre o modo de agir”, conta Rodrigo sobre o amigo. Presidente da Aiesec Brasília, Augusto relata que, após mais de dois anos na estrutura da organização, o que melhor aprendeu foi a ouvir e passar mensagens claras. Ao escutar os outros, tenta ampliar a zona de visão para desafios e soluções que fujam do senso comum. Ainda assim, reconhece que precisa aprender a se abrir mais para quem aposta no seu trabalho. “Discurso bem em palestras, mas tenho dificuldades em falar sobre mim.”

Já Rodrigo, chefe da área que envia estudantes para intercâmbios profissionais, entrou na instituição para “conhecer pessoas novas”, mas acabou percebendo que existia algo além disso: “Não é um trabalho de faculdade, em que o que está em jogo é a nota a ser alcançada. Por termos que manter uma instituição, trabalhar em grupo necessita de proatividade”, pondera. Ao delegar alguma tarefa, ele percebe que, quando a pessoa está disposta, o resultado é melhor se é o trabalho é coletivo.

O psicoterapeuta Rodrigo Lucas fala que a cultura brasileira valoriza “pessoas mais agressivas, competitivas e individualistas”, mas que existe soluções para isso. A escolhida por Augusto e Rodrigo foi admitir os próprios erros e buscar se desenvolver através do trabalho e da conversa.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Avaliação por meio de jogo

Para chegar a essa tese, 221 pessoas com idades entre 10 e 87 anos foram levadas a jogar Dilema do prisioneiro, um jogo desenvolvido por pesquisadores do Instituto BIFI, ligado à Universidade de Zaragoza, na Espanha, para medir a cooperação. Os participantes foram divididos em grupos de quatro pessoas baseados nas faixas etárias. Durante 25 rodadas, tinham que escolher entre os botões de cooperar com o grupo ou não. Se todos colaborassem, todos ganhariam pontos; caso algumas pessoas colaborassem e outras não, as primeiras receberiam mais pontos; se ninguém colaborasse, ninguém ganharia. Para o estabelecimento de estratégias, os jogadores sabiam das ações dos adversários e do quanto cada um ganhava. Ao final, era somado o número de pontos e transformado em dinheiro, entregue a eles.

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