Ministro diz que risco de transmissão de ebola no Brasil é muito baixo, mas eleva nível de atenção

Arthur Chioro disse que não haverá restrições de viagens de brasileiros para região afetada, mas há procedimentos definidos para receber viajantes de países em que há transmissão atualmente. Centro Integrado de Operações Conjuntas de Saúde teve nível de atenção elevado a 2

por Letícia Orlandi 08/08/2014 13:45

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AFP PHOTO/ISAAC KASAMANI
Arthur Chioro reforçou que o país tem seguido todas as recomendações da OMS e não irá restringir, por enquanto, as viagens e o comércio com os países afetados. Também não há recomendação de evacuação para brasileiros que estão nos países afetados. (foto: AFP PHOTO/ISAAC KASAMANI )
O ministro da Saúde, Arthur Chioro, afirmou nesta sexta-feira, em entrevista coletiva, que a elevação do status da epidemia de ebola no oeste da África a “emergência de saúde pública de alcance mundial” pela OMS não significa que há risco de disseminação global do vírus. “Significa, na verdade, uma ampliação da cooperação internacional e arrecadação de recursos para que a transmissão seja contida nos países afetados atualmente. E o Brasil já vem ajudando a Organização Mundial de Saúde nesta tarefa”, afirmou. De acordo com Chioro, o risco de transmissão do vírus para outros continentes é considerado "muito baixo" neste momento.

Chioro reforçou ainda que o país tem seguido todas as recomendações da OMS e não irá restringir, por enquanto, as viagens e o comércio com os países afetados. “A recomendação é muito clara. Todas as medidas serão feitas para evitar que qualquer caso suspeito saia dos países afetados atualmente. Este é o primeiro filtro. E o Brasil está preparado para fazer o segundo filtro, se necessário”, garantiu.

O ministro informou também que o país vai enviar 15 toneladas de medicamentos e equipamentos médicos para as regiões afetadas, sendo que uma parte já foi entregue à Guiné e mais dois carregamentos seguem para Libéria e Serra Leoa. Além disso, o Ministério fez a doação de um milhão de reais à OMS.

O secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, disse repetidas vezes que não há qualquer caso suspeito da doença no Brasil. Segundo ele, todos os rumores foram afastados, incluindo o de um médico brasileiro que era vinculado à organização Médico Sem Fronteiras e chegou ao Brasil há duas semanas, e também de pacientes em Goiânia e no Maranhão. “Recebemos contato ainda de uma construtora brasileira que atua na capital da Libéria, mas as condições em que os trabalhadores estão alojados não os coloca em risco. A transmissão do ebola está localizada em pequenas vilas e nas área rurais, muito empobrecidas e sem estrutura médica, dos três países com transmissão ativa atualmente - Guiné, Serra Leoa e Libéria. A orientação, neste caso, é que esses brasileiros não sigam para regiões do interior, vilas ou cidades atingidas”, esclareceu. Não há recomendação de evacuação para brasileiros que estão nos países afetados.

A partir deste sábado, todos os aeroportos internacionais brasileiros receberão avisos para orientar os passageiros que vierem de viagens internacionais sobre sintomas que estão incluídos entre os sinais da febre hemorrágica. Além dessa medida, foi elevado a 2 o nível de atenção do Centro de Operações Especiais em Saúde, localizado no próprio Ministério da Saúde. Segundo Jarbas Barbosa, o nível zero caracteriza o monitoramento periódico do Brasil e do mundo; o nível 1, adotado durante a Copa, considera que o país recebe um evento que pode sobrecarregar as estruturas de estados e municípios e pode exigir a presença do ministério; e o nível 2 considera que o ministério atuará em qualquer situação que for considerada suspeita. A escala do ministério segue até o nível 4, caracterizado como alerta máximo.

''Preconceito não protege ninguém''
Na coletiva, ministro e secretário reforçaram que viagens a qualquer país do mundo e a países africanos não-afetados não devem despertar medo, nem preconceito. “O preconceito com viajantes de países como a África do Sul, por exemplo, muito distante da região afetada, não vai ajudar em nada. Preconceito não protege ninguém, e isso é conhecido em várias ações de combate a epidemias ao longo dos anos”, destacou Barbosa.

Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
Aeroportos internacionais, como o de Confins, em Belo Horizonte, receberão mensagens padronizadas, direcionadas aos passageiros de voos internacionais, sobre os sintomas (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
O Brasil não tem voos diretos para os países afetados pela epidemia do ebola. Ainda assim, serão considerados casos suspeitos aqueles indívíduos que estiveram na Guiné, Libéria e Serra Leoa nos últimos 21 dias e que apresentam sintomas compatíveis com a febre hemorrágica. O ebola não apresenta transmissão na fase de incubação, que pode ser de dois a no máximo 21 dias. Normalmente, esse período é de dez a 14 dias. A transmissão se dá após a manifestação dos sintomas, pelo contato com fluidos corporais da pessoa doente - e não pelo ar, alimentos e água.

 

Caso o paciente apresente sinais durante uma viagem, a tripulação do avião deve adotar medidas de isolamento e avisar autoridades sanitárias antes do desembarque. Nessas ocasiões, o avião é levado para uma área remota e a pessoa será levada pelo SAMU a um hospital de referência. As pessoas que tiveram contato com o paciente são acompanhadas. "Os sintomas são fortes, não há como passar despercebido", afirmou o ministro. Há também a possibilidade de o paciente desembarcar ainda no período de incubação da doença e, portanto, sem sintomas. "Nessa situação, o caso será identificado nos sistemas de saúde", disse o secretário.

Investigação

O secretário comunicou também que equipes de resposta rápida da Anvisa e do SAMU já receberam equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados para responder a quaisquer casos suspeitos. Um grupo de 60 profissionais, distribuídos em todos os estados brasileiros, possui hoje certificação internacional para fazer a coleta de material de pessoas com suspeita de ter o vírus.

Todo material será enviado ao laboratório de referência para diagnóstico, que será o Instituto Evandro Chagas, no Pará. “Os equipamentos de segurança para as equipes de resposta rápida e hospitais de referência são um legado da Copa e têm nível de proteção superior inclusive ao exigido para lidar com febres hemorrágicas. Para todas as cidades que não foram sede do Mundial e que têm aeroportos e portos internacionais, o reforço no envio dos equipamentos de proteção e isolamento está sendo feito”, acrescentou o secretário, informando ainda que, na hipótese remota de um caso suspeito, a pessoa afetada não é enviada de volta ao país de origem. Ela é isolada e tratada na localidade em que desembarcar, até o afastamento da possibilidade de transmissão.

O ministério destacou que o fluxo de visitantes desses países ao Brasil é pequeno. Foi feita também uma recomendação para que profissionais de saúde e missionários brasileiros imbuídos de generosidade e espírito humanitário não se dirijam, neste momento, aos países afetados. Caso a OMS solicite a ajuda do Brasil neste sentido, os profissionais serão enviados por meio de uma rede de cooperação internacional já estabelecida, com toda a proteção necessária. “Não consideramos que houve exagero da OMS na decretação de emergência, mas o risco de que um caso seja registrado no Brasil é muito baixo”, concluiu o Chioro.

Inquietação
O secretário de vigilância em saúde esclareceu na coletiva que o ciclo de transmissão do ebola é conhecido há 40 anos e que de lá para cá nada mudou. “É normal que as pessoas sintam inquietação diante das informações veiculadas. Mas todos os surtos de ebola até hoje foram de transmissão lenta – o atual causou 1700 casos em sete meses, muito menos que várias febres hemorrágicas transmitidas por ar ou por insetos – e delimitados geograficamente”, informou.

Barbosa destacou que o temor relaciona-se principalmente à letalidade do vírus, que varia de 60 a 90%. No surto atual, está em 68%, com quase mil mortes. “Essa mortalidade é favorecida pela precariedade das estruturas de saúde das regiões afetadas; pelas tradições de rituais fúnebres, que incluem contato com fluidos corporais; pela desconfiança das populações em relação ao governo central, devido a conflitos anteriores. A doença tem início repentino e agravamento rápido. Se o doente permanecer em casa ou não for levado a estrutura hospitalar adequada, aumentam as chances de morte”, lembrou Barbosa.

Não há medicamento específico ou vacina. O secretário comentou a possibilidade de uso, em análise pela OMS, de um antiviral e de um soro que foi aplicado em um médico e uma missionária norte-americanos. “Com apenas dois casos, não é possível estabelecer que a melhora se deveu ao medicamento experimental. Não há evidência científica”, ponderou.

Barbosa disse ainda que o desafio do surto atual é maior, porque os casos se concentram na região de fronteira dos três países, causando conflitos de autoridade. Em relação à Nigéria, que registrou casos isolados, o secretário disse que a preocupação é menor. "Medida de prevenção e controle deve ser adotada de acordo com a situação que o país está enfrentando", disse o secretário. Ele observou que a OMS recomendou providências mais restritivas para países que vivem surto da doença. "Se a contenção ocorrer lá, o risco em duas, três, quatro semanas será reduzido e o mundo poderá ficar tranquilo", completou. “Para a triagem de todos os viajantes dos países afetados, serão realizadas entrevistas. Diante de qualquer resposta positiva às perguntas, será feito um levantamento detalhado. Em casos suspeitos, a pessoa não poderá deixar o país e receberá acompanhamento adequado”, explicitou Jarbas Barbosa.

O secretário criticou as notícias divulgadas pelas agências internacionais na manhã dessa sexta-feira, que atribuíam às autoridades de saúde dos Estados Unidos a afirmação de que a transmissão nos EUA seria inevitável. “Pelo contrário, o diretor do Centro de Controle de Doenças (CDC) disse apenas que o pior cenário que poderia acontecer no país seria que um viajante infectado chegasse ao país e transmitisse o vírus à equipe de saúde e a parentes próximos”, ponderou Barbosa. “É muito pouco provável que haja transmissão para outros continentes. E, aqui no Brasil, todos os hospitais de referência, equipes da Anvisa e do SAMU, aeroportos internacionais e portos já receberam reforço das orientações para atuar, caso necessário”, concluiu Barbosa.

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