Aglomerações de pessoas no inverno favorecem aumento de casos de meningite

Doença infecciosa atinge principalmente crianças. Se não for diagnosticada e tratada rapidamente, pode matar ou deixar sequelas neurológicas

por Paloma Oliveto 08/08/2014 15:15

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Anderson Araujo / CB / DA Press
Saiba mais sobre a meningite e como se prevenir (foto: Anderson Araujo / CB / DA Press)
As baixas temperaturas do inverno costumam ser um convite a aglomerações. Com frio, a tendência é de que as pessoas busquem refúgio em ambientes fechados e lotados. O problema é que alguns intrusos podem acabar dividindo o espaço. É o caso de micro-organismos nocivos, responsáveis por doenças transmitidas pelo contato próximo com indivíduos infectados. Entre elas, estão as meningites, que ocorrem quando agentes patógenos invadem o sistema nervoso central, provocando uma grave inflamação. No Brasil, de janeiro até 2 de julho, foram notificados 5.737 casos e 447 óbitos associados a esse tipo de infecção, de acordo com o Ministério da Saúde.

Vírus, fungos e até mesmo vermes podem causar a inflamação das meninges — membranas protetoras do cérebro. Contudo, a maior gravidade está nos casos de transmissão por bactérias, principalmente as meningococos, facilmente disseminadas pelas vias respiratórias. Essas infecções precisam ser identificadas e tratadas rapidamente, pois podem matar ou deixar sequelas, como surdez e complicações neurológicas.

Um estudo realizado em 2011, por pesquisadores da Universidade do Paraná com crianças internadas com meningite bacteriana aguda no Hospital de Clínicas da instituição, constatou que 40% dos pacientes sofreram sequelas neurológicas. As mais frequentes foram alteração comportamental (22,9%), atraso no desenvolvimento psicomotor (17,1%), retardo mental (14,3%) e epilepsia (14,3%). Problemas na fala e na audição atingiram, respectivamente, 11,4% e 8,6% da amostra de 35 pacientes, com idades entre 1 e 14 anos.

Vulneráveis
O infectologista Manuel Palacios, médico do Hospital Santa Helena e integrante da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que as crianças são as mais atingidas por meningites porque seu sistema imunológico ainda está em formação. No caso de bebês, o sistema respiratório não está desenvolvido completamente, facilitando a entrada de vírus, fungos e bactérias. Alguns fatores de risco de recém-nascidos identificados por um estudo do Hospital das Clínicas da USP são baixo peso ao nascer, prematuridade, infecção prévia, tratamento anterior com antibióticos e falta de aleitamento materno.

Da mesma forma, idosos, cujas defesas são mais deficientes, e pacientes imunossuprimidos (com HIV/Aids, neoplasias e sob tratamento quiomioterápico) correm mais risco que jovens e adultos saudáveis.

Palacios destaca a importância de, diante dos sintomas que caracterizam o mal (veja infografia), o paciente procurar imediatamente um pronto-socorro. Por meio da análise clínica e da punção lombar — realizada apenas por médicos —, é possível detectar a doença e o tipo de micro-organismo responsável pela infecção. “Quando o paciente chega ao hospital, o clínico tem de se atentar para sintomas como cefaleia, associados a outras coisas, como gripe recente, febre, irritação. Não pode menosprezar esses sintomas”, diz o médico.

Ele lembra que outros problemas, como AVC e aneurisma também provocam a dor de cabeça intensa que, diferentemente da enxaqueca, é percebida como uma forte pressão dentro do crânio, como se ele fosse explodir. Por isso, a investigação clínica precisa levar em conta sinais associados. Um bastante comum é o vômito súbito, que pode ou não vir em jatos.

Vacina
Evitar ambientes muito cheios e estar atento à higiene pessoal, como lavar as mãos com frequência, são medidas que ajudam a prevenir infecções em geral, mas apenas a vacina é capaz de oferecer a proteção de quase 100%. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde inclui três vacinas no calendário infantil, sendo que a pneumocócica 10, que protege contra a bactéria pneumococo, e a meningocócica conjugada, que imuniza contra os meningocócicos C, entraram no Sistema Único de Saúde (SUS) recentemente, em 2010.

Essa última existe na versão quadrivalente, oferecendo proteção contra outros sorogrupos da bactéria (veja infografia), mas apenas clínicas privadas a aplicam. “A quadrivalente veio para assegurar a proteção contra quatro tipos da meningite. No Brasil, já há circulação dos menigococos W135 e Y”, lembra a médica infectologista Ana Rosa dos Santos, gerente médica do Sabinvacinas. Ela explica que a imunização, conhecida como Menveo, é aplicada em dose única, mesmo para quem já foi vacinado na infância ou há mais de cinco anos.

Agora, a expectativa dos médicos é a chegada ao mercado da vacina contra o meningococo B, que circula em todo o mundo e é o segundo mais frequente no Brasil, atrás do sorogrupo C. Atualmente, não existem imunizações contra essa cepa da bactéria — Cuba e Nova Zelândia já testaram algumas fórmulas, que caíram em desuso porque o potencial de proteção era muito baixo. Isso se deve a carcacterísticas imunológicas do meningococo B, que só foram compreendidas depois que cientistas decifraram seu genoma.

Há dois anos, um grupo internacional de pesquisadores publicou, na revista Lancet, os resultados de um teste clínico da nova vacina, realizado no Chile. Os participantes receberam uma, duas ou três doses da imunização e 1.631 deles tomaram a vacina 4CMenB pelo menos uma vez. Passados seis meses, a resposta foi de 99-100% entre aqueles protegidos duplamente.

No total, testes foram realizados com 8 mil crianças, adolescentes e adultos em todo o mundo, com índices de proteção semelhantes. “O desenvolvimento de uma vacina amplamente protetora contra o meningococo B tem sido um longo desafio. Essa é uma cepa que contribui substancialmente para surtos, em grande parte porque para os outros sorogrupos há vacinação”, observaram os autores do artigo chileno. A vacina foi aprovada por órgãos de regulamentação dos Estados Unidos, da Austrália e da União Europeia, e a expectativa é que chegue ao Brasil até o próximo ano.

5.737
Total de notificações da doença feitas entre janeiro e 2 de julho, segundo o Ministério da Saúde


Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Atenção aos sintomas

A meningite manifesta­se geralmente por febre alta, dores de cabeça e rigidez do pescoço; o paciente não consegue encostar o queixo no tórax. Eventualmente, há também alteração da consciência. Em crianças pequenas, os sintomas podem ser difíceis de detectar. Por isso, é preciso ficar alerta a sinais como sonolência excessiva, irritabilidade, petéquias conjuntivais e cutâneas (pequeno ponto vermelho na conjuntiva do olho ou no corpo), vômitos e recusa de alimentos associada à febre alta. O exame do líquor — líquido da espinha — é fundamental para o diagnóstico e o estabelecimento do tratamento e deve ser realizado quando há suspeita de meningite. A melhor forma de prevenir a meningite é por meio da vacinação, uma vez que há correlação entre uso de vacinas específicas para os três principais agentes (S. pneumoniae, Neisseria meningitidis e Haemophilus influenzae) e diminuição da taxa de doença invasiva.

Roberto Valente, pneumologista e diretor clínico do Hospital Anchieta

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