Descoberta alemã pode tornar tratamento de câncer cerebral menos invasivo

Células tumorais saem da cabeça e chegam à corrente sanguínea de pacientes com glioblastoma uniforme

por Vilhena Soares 04/08/2014 08:00

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University College London/Divulgação
O estudo poderá auxiliar em tratamentos contra a doença e na triagem dos pacientes como doadores de órgãos (foto: University College London/Divulgação)
O glioblastoma uniforme é o tumor maligno cerebral de maior incidência entre adultos. Até então, acreditava-se que os mecanismos de proteção da cabeça impediam que as células doentes se espalhassem pelo resto do corpo. Porém, um estudo publicado na última edição da revista Science Translational Medicine mostra que essa barreira não é totalmente eficaz. Investigadores da Alemanha descobriram que há pessoas com esse tipo de câncer que têm células cancerígenas também na corrente sanguínea. O estudo poderá auxiliar em tratamentos contra a doença e na triagem desses pacientes como doadores de órgãos.

 

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“Havia apenas um relatório que abordava essa questão. Ele foi publicado há 10 anos, mas o estudo não conseguiu detectar células do glioblastoma no sangue periférico provavelmente por causa da tecnologia insuficiente e do número baixo de doentes analisados”, conta Carolin Müller, uma das autoras do novo estudo e pesquisadora do Centro Médico da Universidade de Hamburgo-Eppendorf. Segundo Müller, na investigação da qual ela fez parte, foi usada uma técnica mais sensível, que permitiu a detecção eficaz das amostras analisadas.

Trata-se da biópsia líquida. Anticorpos de defesa do glioblastoma — cada câncer tem um anticorpo produzido pelo organismo humano para combatê-lo — foram desenvolvidos em laboratório e ganharam uma pequena partícula de ferro. A mistura foi aplicada em amostras de sangue de 141 pacientes com glioblastoma uniforme. Por meio de uma técnica chamada imantação — em que um imã captura células com ferro —, os cientistas conseguiram encontrar as estruturas cancerígenas em uma pequena parcela dos pacientes analisados. “Nós identificamos células tumorais em circulação no sangue periférico de 29 dos 141 pacientes, ou seja, cerca de 20% de toda a amostragem apresentou a expansão até o sangue”, destaca Müller.

O procedimento pode otimizar os tratamentos, aponta a investigadora. “Compreender esses mecanismos pode ser algo valioso para a concepção de imunoterapias mais eficazes. No entanto, o presente estudo tem algumas limitações, precisando de mais marcadores, com novas abordagens, e que serão um tema interessante de se investigar futuramente.”

A técnica utilizada pelos cientistas também se destaca por ser menos invasiva ao paciente. André Murad, especialista em oncologia e médico do Departamento de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acredita que, com ela, pode ser possível extrair de forma segura, sem agredir o paciente, amostras que auxiliem no acompanhamento da terapia. “Ao monitorar a existência das células cancerígenas, vai ser possível saber se um medicamento está sendo eficaz ou se deveria ser alterado”, explica.

Anderson Araújo / CB / DA Press
Clique para ampliar e entender mais sobre a pesquisa (foto: Anderson Araújo / CB / DA Press)
Patrícia Schorn, chefe do Serviço de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, no Distrito Federal, acredita que, apesar de caro, o procedimento poderá ser usado para a detecção de outros tipos de tumores. “Se pensarmos em um futuro muito além, podemos ter a esperança de que essa técnica consiga detectar qualquer tipo de câncer pela amostra de sangue, como um hemograma. Dessa forma, seria mais fácil e mais rápido iniciar um tratamento”, espera a especialista.

Doação de órgãos
A descoberta também poderá trazer mais segurança à doação de órgãos. Segundo Müller, pacientes com glioblastoma uniforme cujas células cancerígenas se espalham pelo sangue se enquadram em uma condição complicadora para transplantes — há o risco de o receptor do órgão desenvolver o câncer. “A incidência exata não é conhecida, mas estima-se que entre 10% e 20% dos receptores desenvolvam tumores extracranianos em órgãos como rim, fígado, pâncreas, coração”, destaca.

Para Murad, estudo alemão reforça ainda mais a necessidade de cuidados quanto à doação de órgãos de pessoas com glioblastoma. “Acredito que pessoas que têm esse câncer não deveriam ser doadoras, mas, caso exista essa necessidade, é importante que seja feita uma avaliação da análise das células tumorais, como na pesquisa. Identificar onde elas se encontram pode ajudar a determinar se podem gerar risco ao receptor do órgão doado.” Segundo Schorn, um trabalho publicado recentemente no jornal The Lancet lista o glioblastoma como um dos tumores contraindicados para a doação de órgãos.

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