Especialistas alertam que casos de idosos infectados pelo HIV têm aumentado no Brasil

A falta de abertura para falar sobre a sexualidade e o excesso de confiança no parceiro estão entre as razões do problema

por Bruna Sensêve 31/07/2014 11:30

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Arte: DA Press
Ao mesmo tempo em que as conquistas sociais fortaleceram o direito à sexualidade, idosos soropositivos expostos ao vírus, por eficácia do tratamento, têm sobrevida muito mais extensa do que no início dos contágios (foto: Arte: DA Press)
“No tempo deles, ninguém vivia até os 60 anos. Hoje, vamos até 80, 90, e o idoso quer aproveitar. Está tudo muito mais fácil do que quando as mulheres tinham que ser muito reservadas, por exemplo. E outra coisa: acham que não pega em velho. Pensam que, se pegar, já está morrendo mesmo. Mas não é uma morte fácil.” O relato é de Jussara Santos, 63 anos, presidente da Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale), entidade que abriga soropositivos no Distrito Federal. Nos últimos 10 anos, ela percebeu o início de uma mudança na faixa etária das pessoas que buscam assistência na comunidade fundada há mais de 20 em uma chácara do Recanto das Emas. Se no início eram muitos jovens homossexuais, agora surgem idosos. “Não sei dizer exatamente o que mudou. É como se, de repente, eles se percebessem livres e se esquecessem de se cuidar”, arrisca.

Um fato: muitas coisas mudaram entre as experiências vividas pelos jovens de 20 e poucos anos na década de 1970 e a realidade de um idoso aos 65 em 2014. Nesse período, turbulentos e polêmicos episódios alteraram permanentemente o que era esperado por aquele setentista como um “envelhecimento tradicional”. O divórcio, por exemplo, foi oficialmente instituído em 1977 no Brasil. Até meados dos anos de 1980 — quando surgiram os primeiros casos de Aids —, a camisinha era utilizada somente como método contraceptivo. E, apenas em 1998, foi aprovado o primeiro remédio oral para a disfunção erétil pela agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos, a FDA.

A epidemia começa a envelhecer. Ao mesmo tempo em que as conquistas sociais fortaleceram o direito à sexualidade, idosos soropositivos expostos ao vírus, por eficácia do tratamento, têm sobrevida muito mais extensa do que no início dos contágios. “Mas, conscientizar essa faixa etária para o uso do preservativo é muito difícil”, aponta a coordenadora de DST/Aids do Pará e especialista na área, Deborah Maia Crespo. “Principalmente nessa faixa etária, é colocado todo um estigma de conduta e postura que favorece um cenário de rejeição familiar quando o idoso é vítima de exposição ao vírus”, completa. Ela conta que os relatos sempre trazem histórias de pessoas que contraíram a doença de um parceiro no qual confiavam e achavam que, por esse motivo, não precisavam se proteger.

Essa é a história de Olga*, moradora da Fale há alguns anos. Aos 55, ela não sabe dizer exatamente quando foi infectada, mas que o marido já manifestava sinais da doença antes que ela soubesse da própria soropositividade. O companheiro não resistiu aos danos causados pelo avanço da Aids. Hoje, Olga fala com desenvoltura sobre o preconceito e a dificuldade que enfrentou. Mas Crespo ressalta que esse desembaraço é pouco comum. Até mesmo o questionamento em consultório sobre a sexualidade do paciente idoso ainda é visto como tabu. “Imagine um profissional de saúde que solicita um exame de HIV. Vai ouvir: ‘você está me julgando como o quê?’ Quando, na verdade, não deixa de ser apenas uma doença sexualmente transmissível.”

Avanço silencioso

A ausência de discussão aberta e franca sobre a sexualidade durante o envelhecimento faz da Aids uma epidemia silenciosa na população acima dos 50 anos de idade em todo o mundo. A situação assume contornos de problema de saúde pública e, para os especialistas, é muito nítida a falta de políticas governamentais de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis (DST) que abriguem as necessidades desse grupo. Essa é a opinião da psicóloga Marlene Zornitta, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). Para a mestre em saúde pública, a questão é ainda mais grave entre a população do sexo masculino devido aos problemas de ereção que levam a uma dificuldade no manejo do preservativo e o consequente abandono do método. “As mulheres também estão na menopausa e não precisam de um método contraceptivo, como a camisinha é encarada por grande parte delas. Acabam deixando a proteção de lado.”

Nesse cenário de exposição e vulnerabilidade, incluem-se outras DST, mas a infecção pelo HIV pode ser mais bem mensurada por, entre outros fatores, ser de notificação obrigatória ao governo. De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, entre o início de detecção da doença, na década de 1980, até 2000, foram diagnosticadas 17.120 pessoas acima de 50 anos com a infecção. Depois, os registros assustam. A soma de novos casos surgidos nos cinco anos posteriores ultrapassa as duas décadas epidemiológicas iniciais. Se em 2001 foram 2.741 novos soropositivos no Brasil com mais de 50 anos; em 2005, 4.356; e, três anos depois, 5.958 registros.

Os dados mostram a contínua ascensão dos números em 2010 (6.228), 2011 (6.449) e 2012 (6.533), mas não conseguem representar a dramática e alarmante realidade vista nos consultórios e nas entidades que trabalham diretamente com idosos soropositivos. Um dos infectologistas mais respeitados do país, Artur Timerman considera que o trabalho na clínica mostra que a epidemia de HIV não estacionou para nenhum grupo. Todos os dias, ele diz conviver com novos diagnósticos de jovens, mulheres e idosos. “Entre as pessoas acima de 65 anos, também percebemos um aumento.” Ele credita parte desse acréscimo à popularização das drogas voltadas para a disfunção erétil, capazes de manter o indivíduo sexualmente ativo por mais tempo.

“Um dos casos que recebi aqui foi de uma senhora de 89 anos que foi infectada aos 82 pelo marido. Ele colocou uma prótese e acabou extrapolando, teve Aids e transmitiu para ela”, relata o especialista. Algumas questões distinguem ainda mais o grupo. A fragilidade do sistema imunológico na terceira idade dificulta o diagnóstico de infecção por HIV, uma vez que, com o envelhecimento, algumas doenças se tornam comuns e os sintomas da Aids podem ser confundidos. Ao mesmo tempo, o idoso, a família dele e até mesmo os profissionais de saúde tendem a não pensar na infecção pelo vírus entre os mais velhos. Esse comportamento agrava a questão, pois o diagnóstico tardio de Aids desencadeia o aparecimento de infecções que comprometem a saúde mental, podendo causar, inclusive, a demência.

* Nome fictício a pedido da entrevistada


Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Sistema despreparado

À medida que os primeiros soropositivos envelhecem, especialistas em todo o mundo começam a questionar se o sistema de cuidados de saúde e políticas governamentais estão preparados para as novas e complexas necessidades. Países de alta renda, como o Canadá, têm 30% das pessoas vivendo com o HIV e 50 anos ou mais. Em São Francisco (EUA), mais da metade dos soropositivos vive a sexta década da vida. Em um estudo publicado neste mês na Current Opinion in HIV e AIDS, o neuropsicólogo Sean Rourke observou que o envelhecimento para as pessoas com vírus pode ser mais desafiador do que para a população em geral devido ao estigma relacionado à infecção: elas apresentam, por exemplo, mais risco de isolamento social. Segundo ele, os planos de pensões também não estão projetados para receber indivíduos nessa condição.

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