Estudo com macacos frustra esperanças de cura para a Aids

Um desafio-chave para a cura da infecção por HIV é a presença de reservatórios virais: células imunológicas infectadas com o DNA viral que podem ficar adormecidas por anos, sem ser perturbadas pelo tratamento com antirretrovirais ou pelo sistema imunológico

por AFP - Agence France-Presse 22/07/2014 08:49

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AFP PHOTO / ESTHER LIM
O novo estudo foi publicado no momento em que especialistas e ativistas de todo o mundo estão reunidos em Melbourne para a 20ª Conferência Internacional sobre Aids, que discutirá os avanços na prevenção e no tratamento da doença (foto: AFP PHOTO / ESTHER LIM )
Uma versão do vírus HIV que afeta macacos demonstrou ser capaz de se esconder dos medicamentos anti-Aids dias após entrar no organismo, revelou um estudo publicado neste domingo na revista científica Nature e que frustra as esperanças de uma cura da doença nos humanos.

Se o mesmo se confirmar em humanos, o tratamento pode ter que começar de forma "extremamente precoce" após a infecção pelo vírus causador da Aids, revelaram os cientistas. As descobertas vêm à tona dias depois do anúncio decepcionante de que um bebê do Mississippi, que teria conseguido ficar livre do HIV, mas teve o vírus detectado no organismo. A menina tomou uma forte dose de antirretrovirais, administrada 30 horas depois do nascimento, e se manteve livre do vírus por 18 meses. Mas após ficar quase dois anos sem medicação, exames constataram a presença do HIV.

"As lamentáveis descobertas clínicas de retorno viral no bebê de Mississippi parecem estar de acordo com os dados do macaco", declarou à AFP Dan Barouch, coautor do estudo do Centro Médico Diaconesa Beth Israel (BIDMC), em Massachusetts. "Esses dados certamente representam desafios importantes para os esforços de erradicação do HIV", prosseguiu.

Um desafio-chave para a cura da infecção por HIV é a presença de reservatórios virais: células imunológicas infectadas com o DNA viral que podem ficar adormecidas por anos, sem ser perturbadas pelo tratamento com antirretrovirais ou pelo sistema imunológico. Na grande maioria dos casos, o vírus começa a se proliferar assim que o tratamento é interrompido, o que significa que os soropositivos precisam tomar a medicação por toda a vida.

Pouco se sabe sobre quando e onde estas células reservatório se estabelecem durante a infecção pelo HIV. Algumas pessoas acreditavam que os reservatórios fossem "espalhados" pelo DNA viral durante a infecção aguda por HIV, quando a presença do vírus no sangue já atingiu um nível elevado.

Mas o novo estudo revelou que em macacos rhesus infectados com HIV símio ou SIV o reservatório foi estabelecido de forma "surpreendentemente precoce" após a infecção. "O reservatório foi estabelecido em tecidos nos primeiros dias de infecção, antes de o vírus ser detectado no sangue", disse Barouch. Os macacos receberam medicação antirretroviral 3, 7, 10 e 14 dias após a infecção por SIV.

Assim que o tratamento foi suspenso, o vírus se replicou em todos os grupos, ainda que mais lentamente nos macacos tratados mais precocemente. "A disseminação surpreendentemente precoce do reservatório viral nos primeiros dias de infecção é séria e traz novos desafios para os esforços de erradicação do HIV-1", escreveram os autores do estudo.

É necessária uma nova abordagem
"Analisados juntos, nossos dados sugerem que será necessário um início extremamente precoce do tratamento com antirretrovirais, estender sua duração e, provavelmente, adotar intervenções adicionais que ativem o reservatório viral", acrescentou. Cientistas de Melbourne, na Austrália, estão fazendo experimentos com uma medicação anticâncer para tirar o vírus de seu esconderijo para, então, ser morto.

Os autores do artigo na Nature destacaram que suas descobertas ainda precisam ser confirmadas em humanos e que há diferenças importantes entre a infecção por SIV e HIV. Mas, se nos humanos o vírus também conseguir entrar no reservatório antes de ser detectado no sangue, pode ser "muito difícil" iniciar o tratamento com a precocidade necessária, uma vez que o exame de sangue é necessário para diagnosticar a infecção por HIV, explicou a equipe.

Não há cura para a Aids e os medicamentos antirretrovirais apenas controlam a replicação do vírus, contendo sua disseminação. Na semana passada, cientistas americanos afirmaram que o bebê do Mississippi, que não apresentou níveis detectáveis de HIV por mais de dois anos após a interrupção do tratamento, teve diagnosticada a presença do vírus.

O caso da menina tinha despertado esperanças de que os médicos tivessem encontrado uma forma de curar crianças nascidas soropositivas, simplesmente ao tratá-las precocemente. O novo estudo foi publicado à medida que especialistas e ativistas de todo o mundo estão reunidos em Melbourne para a 20ª Conferência Internacional sobre Aids, que discutirá os avanços na prevenção e no tratamento da doença.

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