Gel dificulta a evolução do câncer de mama

O remédio tem a mesma substância ingerida pelas pacientes. Segundo cientistas dos EUA, a aplicação local reduz os efeitos colaterais e aumenta a eficácia da terapia

por Bruna Sensêve 18/07/2014 13:30

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Na puberdade, as glândulas mamárias de uma menina começam a se desenvolver devido à liberação dos hormônios sexuais femininos na circulação sanguínea. As mamas são extremamente sensíveis à ação da progesterona e do estrógeno, que se ligam ao tecido dos seios por meio de moléculas conhecidas como receptores. É essa associação que vai controlar a multiplicação celular, atendendo às exigências da vida sexual e reprodutiva do organismo. Quando as células cancerígenas passam a promover alterações nessa região, uma de suas estratégias é manter esses receptores, pois será a partir deles que elas conseguirão se “alimentar” e, assim, crescer e se desenvolver. Essa explicação corresponde a 70% dos casos de câncer de mama, tendo a droga tamoxifeno como principal terapia contra eles.

A substância não é um quimioterápico, age interrompendo essas ligações entre o receptor e o hormônio para que o tumor não possa mais evoluir (veja infografia). Atualmente, a medicação é ministrada oralmente, afetando o corpo de maneira sistêmica, ou seja, por inteiro. Uma nova proposta de entrega dessa substância pode mudar completamente a forma como são desenvolvidos os tratamentos anticancerígenos. De acordo com uma pesquisa publicada hoje na Clinical Cancer Research, uma revista especializada da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, o mesmo medicamento em forma de gel poupou as pacientes de uma série de efeitos colaterais normalmente percebidos na versão oral. Além disso, ele também se mostrou mais eficaz devido à aplicação local — mais restrita e intensa.

Anderson Araujo / CB / DA Press
Clique para ampliar e saber mais sobre o gel de tamoxifeno (foto: Anderson Araujo / CB / DA Press)
A variação do tamoxifeno em gel criada por uma equipe que reuniu diversos departamentos da Escola de Medicina da Universidade Northwestern Feinberg recebeu o nome de 4-OHT. O estudo comparativo com a terapia oral foi feito com 27 mulheres com carcinoma mamário in situ, idade entre 45 e 86 anos e no período pré ou pós-menopausa. Metade delas tomou o medicamento oralmente e a outra aplicou o produto nos seios de seis a 10 semanas antes de uma cirurgia de mastectomia. No processo, a concentração de tamoxifeno no tecido adiposo mamário e em seus principais metabólitos foi determinada por espectrometria de massa de cromatografia.

“Neste estudo, demonstramos que a aplicação do gel 4-OHT na pele resultou em níveis elevados de droga no seio e em níveis baixos na circulação. Isso manteria a eficácia da droga, mas minimizaria os efeitos colaterais”, concluiu a principal autora do trabalho, Seema Khan. O nível baixo da droga no sangue reduziu efeitos colaterais hormonais e de coagulação que são comumente vistos em pacientes tratadas com tamoxifeno orais. Após as semanas de aplicação do gel, um marcador de proliferação celular (Ki-67) também foi reduzido no tecido da mama a níveis comparáveis ao do tratamento por comprimidos.

Fígado protegido
Para o chefe do Departamento de Oncologia Clínica do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), Auro del Giglio, o estudo é preliminar e com um número ainda reduzido de pacientes, mas é capaz de mostrar uma certa superioridade do gel devido à diminuição de efeitos colaterais importantes. “Ele influi menos nos parâmetros de coagulação e isso pode se traduzir numa menor taxa de tromboembólicos. É um estudo de viabilidade para mostrar que o tamoxifeno por via transcutânea reserva as mesma características anticancerígenas da versão oral, sem o prejuízo de coagulação que ele produz.”

Del Giglio explica que uma possível vantagem é que a absorção transcutânea faz com que a substância não passe pelo fígado, como acontece na administração oral, levando a uma alteração nos efeitos sistêmicos. Uma vez que a via é diferente, não atinge todo o corpo. “Existem outros medicamentos que interferem no metabolismo do tamoxifeno por meio fígado, como os antidepressivos. Pode ser que essa interação deixe de acontecer com o gel”, cogita.

A opinião é similar à da pesquisadora Seema Khan. Ela explica que o tamoxifeno precisa ser ‘processado’ pelo fígado para ativar seus componentes. Nesse processo, os efeitos secundários prejudiciais também podem surgir, como a ativação de proteínas que provocam a formação de coágulos sanguíneos. Uma vez que a metabolização pelo fígado é eliminada quando o gel 4-OHT é aplicado diretamente sobre a pele do peito, o efeito prejudicial de aumentar o risco de coágulos de sangue também deve sumir. Com base nos resultados, no entanto, os pacientes que usaram o gel não tiveram melhora significativa dos sintomas vaginais, gastrointestinais ou ondas de calor e suores em comparação às usuárias orais — o que eram considerados efeitos colaterais benéficos.

Primeiro estágio
É uma forma muito inicial da doença. Nessa etapa, as células com características malignas não atingem veias e linfáticos, não dão metástases e podem ser consideradas como um pré-carcinoma. Com o emprego mais difundido do rastreamento mamográfico, corresponde atualmente de 10% a 30% dos casos de câncer de mama tratados. As formas de terapia empregadas são a mastectomia total, a mastectomia preservadora de pele, a adenectomia, a ressecção segmentar e a radioterapia complementar.

Também como preventivo
O tamoxifeno oral é usado por mulheres com alto risco de câncer de mama para evitar o desenvolvimento da doença. Seema Khan, pesquisadora da Universidade Northwestern Feinberg, acredita que a versão em gel da droga também poderia ser usada com essa finalidade. “Isso incentivaria mais mulheres a aderir ao tratamento preventivo”, acrescenta.

Segundo a presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) e pesquisadora- chefe do Centro de Mama do Hospital Moinhos de Vento de Porto Alegre, Maira Caleffi, a terapia proposta por Khan é ainda mais importante exatamente por trazer mais uma opção de droga preventiva para combater o câncer de mama em pacientes com alto risco. “Acredito que não possa ter uma solução sempre pela retirada das mamas profilaticamente. Eu me oponho a essa ideia quando falo de mulheres que estão se submetendo a esse tipo de procedimento sem ter a predisposição genética e um histórico familiar relevante.”

Por esse motivo, mesmo que seja um trabalho inicial, Caleffi considera o estudo divulgado na Clinical Cancer Research um caminho para discutir teorias novas de prevenção. Ela conta que vai aguardar com curiosidade futuros estudos na área de drogas transdérmicas na mama, pois considera que outras medicações, como bloqueadores de outra natureza e drogas alvo, possam ser consideradas para uso transdérmico.

“Sabemos que existem muitos tipos de receptores na mama e que a ativação deles contribui para o aumento do risco de câncer. De repente, veremos no futuro uma ‘barreira’ para proteger a mama ou algo nesse sentido. Tudo que ‘bloqueamos’ na mulher acaba provocando muitos efeitos colaterais que são desagradáveis para a paciente”, analisa. (BS)

Escolha de Jolie
A atriz Angelina Jolie declarou em junho de 2013 ao jornal The New York Times que teria removido as duas mamas devido ao alto risco (87%) de desenvolver o câncer de mama, identificado por ela após um exame genético. Pela cirurgia, a redução do risco é diretamente proporcional à quantidade de tecido retirado, sendo o mais indicado remover entre 90% e 95%. Quanto maior o risco, maior tende a ser a intervenção preventiva.

Soraia Piva / EM / DA press
(foto: Soraia Piva / EM / DA press)
Análise com mais pacientes

“No estudo, durante o período entre a biópsia e a cirurgia, foi reavaliada a atividade proliferativa celular, além da concentração do derivado de tamoxifeno. A pesquisa mostrou que as participantes que usaram o gel tiveram uma redução de proliferação em torno de 4%, semelhante ao resultado por via oral. Essa pode ser uma alternativa com menor risco de efeitos colaterais pela menor concentração da substância na corrente sanguínea. Pode servir como um estímulo para fazer um estudo com populações maiores para ver se realmente isso se repetirá.”
Antonio Luiz Frasson, diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia

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