Vírus da hepatite C facilita o transplante de fígado

Segundo cientistas da Espanha, o vírus enfraquece o sistema de defesa do paciente, fazendo com que ele não rejeite o novo órgão. Especialistas ponderam que os estragos causados pela infecção podem ser piores

por Bruna Sensêve 17/07/2014 14:00

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Anderson Araujo / CB / DA Press
Clique para ampliar e entender mais sobre a pesquisa (foto: Anderson Araujo / CB / DA Press)
Uma infecção viral e crônica pode não ser tão horrível no fim das contas. Pelo menos para pacientes com hepatite C e que precisam ser submetidos a um transplante hepático. Nesse caso, o ardiloso vírus se encarrega sozinho de deprimir o exército de defesa do organismo que recebeu o novo fígado, estratégia que pode se tornar estranhamente conveniente ao reduzir as chances de rejeição. Dessa forma, o transplantado ficaria livre da ingestão de fortes doses de imunossupressores, drogas que evitam a reação negativa ao órgão recebido. Especialistas alertam, porém, que, ainda assim, ser infectado pela hepatite C será sempre muito pior que manter o regime de medicamentos.

O processo é intenso, mas de entendimento simples. A ideia final sempre será garantir que o novo órgão não seja rejeitado. Para isso, o sistema imune do paciente precisa ser praticamente inativado, detendo o reconhecimento das células do doador como estranhas e, dessa forma, impedindo que elas sejam destruídas e o transplante fracasse. A pesquisa liderada por Felix Bohne, da Universidade de Barcelona, na Espanha, analisou o êxito de 34 transplantados de fígado e infectados pela hepatite C em se manterem sem a ingestão de imunossupressores. A terapia medicamentosa foi interrompida lentamente durante um período de seis meses até que os voluntários não tomassem mais os medicamentos. Como resultado, metade deles se manteve longe dos remédios permanentemente.

No artigo publicado na edição desta semana da revista científica Science Translational Medicine, Bohne detalha uma busca ainda mais profunda do processo que faz a infecção ajudar a derrubar a imunidade dos participantes. Ele e a equipe perceberam que a indução de tolerância ao órgão transplantado é associada à expressão de genes imunorreguladores específicos para a infecção por hepatite C. Dessa forma, descobriram que essa infecção não só impede o desenvolvimento da rejeição do fígado, como pode contribuir efetivamente para imobilizar as respostas imunes antitransplante.

“Nossos resultados desafiam a noção bem enraizada de que as respostas inflamatórias e a imunidade antiviral do hospedeiro são necessariamente prejudiciais para o estabelecimento de tolerância do enxerto”, aponta Bohne. Segundo ele, o processo acontece em contraste com o que teria sido previsto a partir de estudos experimentais em animais. “O desenvolvimento de tolerância operacional se deu na presença de vigorosas reações pró-inflamatórias induzidas pelo vírus da hepatite C detectável tanto no fígado como sistematicamente”, completa.

Perigosa recidiva
A possibilidade de retirar pacientes transplantados e infectados pela hepatite C da terapia imunossupressora chama a atenção do coordenador do Programa de Transplante de Fígado de Adultos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Mário Reis Álvares-da-Silva. Ele lembra que a hepatite C é a principal causa de transplante no mundo ocidental e tende a permanecer depois da cirurgia. Esse ressurgimento do problema muitas vezes acontece em maior gravidade justamente devido ao uso de medicamentos para evitar a rejeição do órgão. Outras consequências são síndrome metabólica, doenças cardiovasculares e desenvolvimento de tumores.

“Por esses motivos, tudo que a gente queria era tirar a imunossupressão. Sabemos que alguns pacientes, com o tempo, podem ser excluídos, mas é algo que sempre vamos tateando, tentando e, em alguns casos, a gente consegue”, detalha. O diferencial da pesquisa espanhola, segundo ele, está em propor a possibilidade de identificar fatores em pacientes que podem prever o trabalho. Álvares-da-Silva alerta, porém, que o estudo deve ser visto com cautela, pois contou com poucos voluntários e houve pouca repetição laboratorial.

Condição delicada
Hoje, a imunossupressão é essencial após o transplante de fígado. Entre 1963 e 1983, a cirurgia foi considerada experimental especialmente por não contar com uma forma de ajuste adequado do sistema imune. Os pacientes morriam por rejeitarem o órgão recebido. “Quando conseguiram fazer com que os doentes vivessem mais, o transplante se transformou em um processo terapêutico. Mas ainda dá uma série de problemas. Chego a identificá-los para os meus alunos como doença do transplante hepático porque o paciente engorda, fica com pressão alta, diabetes, colesterol alto e começa a ter doença cardiológica”, detalha Álvares-da-Silva, também professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A estimativa é de que 3 milhões de brasileiros estão infectados pelo vírus da hepatite C. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 20% dos infectados cronicamente pelo micro-organismo podem evoluir para cirrose hepática e cerca de 1% a 5% para câncer de fígado. O professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Grupo de Transplantes do Instituto Alfa do Hospital das Clínicas da Universidade, Agnaldo Soares Lima, ressalta que o objetivo principal sempre será combater o vírus da hepatite C. Ao dizer que a imunossupressão pode ser retirada na presença do patógeno, o artigo de Bohne pressupõe que ele permanecerá no organismo, o que não deve ser o objetivo final do tratamento.

“Há pouco mais de um mês, estive em um congresso em Londres que divulgou um tratamento da hepatite C com novos medicamentos que apresentavam efeitos colaterais menores e seriam capazes de curar a infecção especialmente em pacientes transplantados e com recidiva”, argumenta. O paciente que tem a doença e é submetido a transplante de fígado apresenta resultado imediato muito parecido com o de pacientes submetidos ao procedimento por outras causas. No entanto, depois de cinco anos, a sobrevida deles tende a ser menor, pois a doença volta, demandando um novo órgão. “O vírus C é muito agressivo, não podemos dizer que é um benefício porque ele sozinho é muito destruidor.”

Técnica melhora combate a vírus
Nos primeiros momentos após o transplante, os pacientes precisam, além dos imunossupressores, de múltiplas drogas antivirais necessárias para evitar o surgimento de infecções graves. O tratamento padrão, porém, é bastante tóxico. Uma nova técnica desenvolvida por pesquisadores do Centro de Terapia Genética e Celular do Hospital Metodista de Houston, nos Estados Unidos, mostra que células do sistema imune desenhadas em laboratório e aplicadas em transplantados podem liquidar alguns vírus aos quais eles estão mais expostos.

Trabalhos recentes mostraram que células T específicas para alguns micro-organismos mostraram ser eficazes no tratamento em transplantados, mas são caras para serem desenvolvidas, demoradas (podem levar meses para serem produzidas) e, normalmente, têm como alvo apenas um vírus. No artigo divulgado na edição desta semana da Science Translational Medicine, a equipe de Anastasia Papadopoulou relata uma técnica para produzir rapidamente as células T capazes de lutar contra até cinco tipos de patógenos.

Os escolhidos foram o vírus Epstein-Barr, o adenovírus, o citomegalovírus, o vírus BK e o vírus da herpes, que frequentemente causam doenças em pacientes imunocomprometidos. A técnica permitiu aos pesquisadores produzir células T em laboratório e, em seguida, transferi-las ao paciente para restaurar o estado inicial de proteção. Todo o processo leva cerca de 10 dias, utilizando nova tecnologia de fabricação. Para comprovar a efetividade, eles infundiram novas células T em um pequeno grupo de pacientes e descobriram que o tratamento praticamente eliminou todos os vírus nos voluntários. (BS)

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
“Não podemos generalizar”

“Existem alguns marcadores vistos nos animais usados pelos pesquisadores nos testes que foram correlacionados com os animais que não sofreram a rejeição. Mas isso em humanos não foi possível. Portanto, na teoria, não temos como saber quais serão os pacientes que terão a tolerância sem a imunossupressão. Não podemos generalizar. Um paciente não pertencente a esse grupo pode sofrer uma indução à intolerância e até mesmo a perda do enxerto. É um excelente resultado alcançado pelos cientistas da Universidade de Barcelona, mas é preciso identificar os fatores presentes nas pessoas que não rejeitam para poder fazer esse procedimento na clínica. Eu, particularmente, já retirei a imunossupressão de alguns pacientes, mas não aqueles com hepatite C. Eram pacientes com mais de 15 anos de cirurgia e transplantados cardíacos. Foi um processo bem lento. Pode ser feito, mas não podemos garantir totalmente o resultado.”
Márcio Dias de Almeida, coordenador médico do Programa de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein

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