Pesquisas desvendam história das pin-ups e analisam imagem da mulher ao longo do tempo

Estudos da UFMG e da USP discutem a imagem da mulher construída como forma de estabelecer papéis sociais. Embora o auge das imagens das pin-ups tenha sido na década de 1940, elas são revisitadas e ressignificadas

por Márcia Maria Cruz 11/07/2014 08:30

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Reprodução
Nos EUA de 1940, Betty Grable encarnou em Hollywood personagem que, ao brincar com a sensualidade, tornou-se modelo para as mulheres nas décadas seguintes em todo mundo. A foto da atriz em traje de banho foi uma das mais emblemáticas durante a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, celebridades se espelham nessas representações clássicas. (foto: Reprodução)
Vestidos que insinuam, mas não mostram, poses sensuais em tarefas domésticas, brincadeira entre ingenuidade e sedução. Essa mistura caracteriza as pin-ups, imagens femininas muito presentes na publicidade a partir da década de 1940 nos Estados Unidos. Essas imagens foram difundidas e ganharam o mundo a partir da Segunda Guerra Mundial, tornando-se referência quando o assunto é feminilidade.

A produtora cultural Nanda Miranda investigou como as pin-ups voltaram a fazer parte da construção do universo feminino no Brasil a partir dos anos 2000. “Percebi um uso frequente da pin-up na moda e na publicidade. A mulher contemporânea volta a esse lugar”, conta. A pesquisadora analisou como essa referência foi incorporada por artistas como Grazi Massafera, Eliana e Andressa Soares, a Mulher Melancia.

Como essa imagem voltou a ser ressignificada por artistas contemporâneas foi analisada na dissertação Imagens da mulher: das pin-ups à pin-upisação, defendida no programa de pós-graduação em comunicação social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sob a orientação da professora Vera França, a pesquisadora investiga como a exibição do corpo está relacionada a valores sociais e ao que se concebe como adequado tanto para as mulheres como para os homens.

“Pode-se dizer que há no presente uma compreensão, tomada como natural, de que cabe ao corpo feminino o compromisso de se dar a ver, embora a história indique que a significação e representação da corporalidade da mulher, e também do homem, nem sempre seguiram esse modelo”, afirma Nanda. As pin-ups também foram parte da tese “Imagens da Mulher no Ocidente Moderno”, que será defendida por Isabelle Drummond no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Em inglês, pin up significa pendurar. No entanto, o termo passou a se referir a mulheres sensuais a partir do filme Pin-up girl , estrelado pela atriz estadunidense Betty Grable em 1940. “Essa é uma das versões. Alguns pesquisadores dizem que o termo já era usado antes informalmente”, diz. Dessa forma, a ideia de pin-up guardava uma dimensão de autonomia feminina, pois, como os homens no front, elas foram para o mercado de trabalho. As pin-ups também tiveram uma dimensão estética. Era preciso apresentar uma mulher atraente para os maridos que estavam na guerra. Ao longo dos tempos, no entanto, a dimensão emancipatória da imagem se perdeu e as pin-ups viraram sinônimo de sedução e um modelo de feminino.

Para Nanda, muitas vezes, quando as celebridades contemporâneas buscam essa referência ficam apenas no aspecto de reforço à beleza. “Perde-se a ideia de autonomia feminina. As pin-ups não são pensadas como representação de independência. Muitas vezes, são vistas até a partir da ideia de submissão.” A pesquisadora lembra que, no entanto, a partir dos valores e conceitos da época, as pin-ups podem ser entendidas como uma forma de deslocamento do papel imputado à mulher. Nesse sentido, a pesquisa tem um importante contribuição ao pensar como essas representações ajudaram a conformar o papel das mulheres na sociedade.

Nanda adotou a tipologia proposta pelo filósofo francês Gilles Lipovetky para apresentar a imagem das mulheres. Ela trabalha com o que o autor denomina de “a invenção do belo sexo”. A ideia demonstra o estabelecimento de uma relação de equivalência entre ser mulher e a beleza: ser feminina torna-se sinônimo de ser bela. A pesquisadora demonstra como essa associação imediata, no entanto, trata-se de um fenômeno histórico e culturalmente construído.

A imagem da primeira mulher emerge na pré-história, mas se consolida na Grécia antiga e na tradição judaico-cristã. No período, foi construído arquétipo da mulher associado ao mal. Belas, elas eram responsáveis pelos males que afligem os homens. “Até mesmo a sua boa aparência era tomada como maléfica pelo arquétipo da beleza demoníaca, que conferia à figura da bela mulher a culpa por todos os males e fatalidades que pudessem acometer os homens.”

A representação da segunda mulher tem início com o movimento renascentista do século 15, quando a beleza passa a ser exaltada. Durante o Renascimento, começa a se construir a imagem da mulher como o belo sexo. A imagem da terceira mulher começa a se construir a partir das últimas décadas do século 20 e está relacionada às conquistas feministas, o direito ao voto, a ida para o mercado de trabalho, o controle sobre a reprodução, entre outras equiparações de direito. Nesse contexto, ao se falar de feminilidade, ganham força as imagens relacionadas às modelos e às celebridades.

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As imagens de Marylin Monroe, Betty Grable e Rita Hayworth atravessam décadas como referência de feminilidade (foto: Reprodução)
Nanda lembra que ao retomar as pin-ups, a terceira mulher retorna ao lugar da segunda mulher. Com isso, o que se percebe é que a mulher ainda está vinculada à ideia do belo sexo. Embora tenha se emancipado, com possibilidade de maior igualdade em todos os campos com os homens, a mulher ainda está sob a cobrança da beleza. Mesmo conquistando espaço no mercado de trabalho, ainda se exige da mulher que ela seja bonita. A pesquisadora pontua que nem a presidente Dilma Rousseff escapa da cobrança. Mesmo aos 67 anos e exercendo uma função política, muitos a criticaram quando usou maio.

MULHER HOJE
Rodrigo Guedes/Divulgacao
Em tese, Isabelle Drummond demonstra como as imagens das mulheres contaminam-se umas as outras ao longo da história (foto: Rodrigo Guedes/Divulgacao )
Isabelle Drummond irá defender em agosto a tese imagens da mulher no ocidente moderno no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Orientada por Maria Arminda do Nascimento Arruda, a tese remonta a uma gênese da imagem da mulher no Ocidente Moderno. “É um processo em que se observa a transição de estereotipias, ora estigmatizadoras, ora idealizadas da mulher, que dão lugar ao longo dos séculos 19 e 20 às mulheres “encarnadas” com rostos individualizados e personalidades que gradualmente se apropriam de sua autoimagem”,diz.

A pesquisa demonstra que as imagens das mulheres, nos diferentes momentos históricos, são “contaminadas “ por referências de períodos anteriores. Nesse sentido, a imagem da mulher contemporânea está em processo de construção e não passa apenas pelos aspectos estéticos, mas sobretudo por uma desconstrução de padrões de beleza. A mulher busca o reconhecimento da imagem pública. “Para além da estética, a mulher busca o direito de expressão, existência e reconhecimento”, diz.

Dessa maneira, Isabelle traça a gênese social das imagens. Uma visão não evolutiva, mas sim processual, em que ocorrem mútuas contaminações, continuidades, assimilações e rupturas entre essas imagens e linguagens.

Beto Magalhaes/EM/D.A Press
Há uma diferença entre as pin-ups e as artistas brasileiras que posam como elas.A pesquisa aponta para uma dicotomia.O termo como substantivo diz do conjunto estético e seus registros materiais e como adjetivo é um título de reconhecimento da fachada da mulher como digna de admiração. - Nanda Miranda, mestre em comunicação pela UFMG (foto: Beto Magalhaes/EM/D.A Press)


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