Especialistas reforçam importância de levar crianças ao dentista antes do primeiro dentinho

O cuidado evita problemas de mastigação e de oralidade

por Isabela de Oliveira 11/07/2014 11:00

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Os cuidados com a higiene bucal são cada vez mais disseminados entre as crianças, tanto na escola quanto em casa. O ensinamento, porém, não livra os pequenos totalmente das cáries, um problema que não pode ser considerado como normal na infância e que pode ser evitado com medidas adotadas antes mesmo de as crianças nascerem. Um estudo publicado no periódico Pediatrics indicou que menos de 1% dos garotos e das garotas saudáveis de Toronto, no Canadá, foi ao dentista antes de completar 1 ano. O cuidado precoce também é pouco praticado entre as famílias brasileiras, e as consequências são dentes cariados, dor e tratamentos de reparo em bocas que estão longe de chegarem a uma condição amadurecida.

As academias americana de Pediatria e de Odontologia Pediátrica e a Associação Dental Americana, assim como a Associação Brasileira de Odontopediatria, aconselham que a primeira visita ao consultório ocorra quando os dentinhos começam a despontar, por volta dos 6 meses. Mas poucos pais conhecem a recomendação. Os motivos para que a saúde bucal fique em segundo plano, principalmente nos primeiros 24 meses de vida, envolvem falta de informação, dificuldade de acesso ao dentista e a noção de que os dentes de leite vão cair e, portanto, não devem ser motivo de preocupação. Mas o pediatra canadense Jonathon Maguire, principal autor do estudo, explica que as cáries não causam apenas dor. Contribuem para problemas de comportamento e alimentação, afetando, inclusive, o estado nutricional da criança.

Valdo Virgo / CB /  DA PRESS
Clique para ampliar e saber mais sobre os cudiados (foto: Valdo Virgo / CB / DA PRESS)
“A falta de informação não é apenas dos pais, mas também de outros profissionais da área de saúde, como pediatras. Eles, as enfermeiras e todos que lidam com esse público devem ser instruídos sobre o problema e trabalhar em conjunto para evitá-lo”, esclarece o médico do Hospital St. Michael, onde o estudo foi conduzido. Apesar de a cárie ser uma das doenças mais comuns do mundo — atinge pelo menos 60% das crianças em idade escolar — , muitas pessoas não sabem que têm o problema nem que ele é uma sequela do estilo de vida inapropriado, envolvendo em especial a alimentação.

Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), alertou na 67ª Assembleia de Saúde Mundial, realizada em maio em Genebra, que o mundo “precisa reduzir o consumo de açúcar, e o motivo para isso é a associação com as cáries e obesidade”. No Brasil, os números confirmam que a preocupação tem fundamento. A Pesquisa Nacional de Saúde Bucal de 2010, com os dados mais recentes sobre esses cuidados na pré-infância, estima que 18% das crianças de 12 anos nunca foram ao dentista. A estatística aumenta entre a faixa de 0 a 9 anos: 17,2 milhões, o equivalente a 52% dos pequenos, nunca foram atendidos em um consultório odontológico. Mais de 53% deles foram diagnosticados com cáries antes de completar 5 anos. Por outro lado, é provável que a maior parte tenha sido levada, pelo menos uma vez, ao pediatra ou a outro especialista médico.

Perigosa mamadeira
Maguire e a equipe liderada por ela pesquisaram o que impede as famílias de procurarem um dentista e quais comportamentos estão ligados ao descuido. O estudo analisou 2.505 crianças canadenses que tinham em média 4 anos entre 2011 e 2013. Os resultados mostraram que 39% delas nunca tinham ido ao odontólogo. Elas integravam o programa TargetKids!, um projeto do St. Michael Hospital e do The Hospital for Sick Children, instituições de Toronto que acompanham bebês desde o nascimento, para prevenir ou tratar problemas comuns nos primeiros anos de vida.

O pediatra percebeu que, quanto mais jovem a criança, menor a chance de ela ter ido ao dentista. Segundo ele, o problema tem relação com renda familiar baixa, uso prolongado de mamadeira e alto consumo diário de bebidas açucaradas, como sucos industrializados. Maguire diz que cada copo desses produtos que é adicionado à alimentação dos filhos aumenta em 20% a probabilidade de a criança nunca ter ido ao especialista. Vinte e quatro porcento das que tinham ido sofreram de cárie pelo menos uma vez.

Maguire alerta sobre um costume de praticamente todos os pais: dar mamadeira para o bebê antes de dormir, no berço ou no colo. “Vários estudos mostraram que há uma relação entre o uso prolongado de mamadeira — por mais de 15 meses— e cáries. Descobrimos que o tempo de uso ampliado também é um indicativo de que a criança não conheça um dentista”, acrescenta o médico. O mecanismo por trás dessa relação envolve o aumento e o depósito de carboidratos que alimentam bactérias cariogênicas, permitindo que elas proliferem na boca.

Embora controvérsias sobre o uso prolongado da mamadeira existam, diversos estudos identificaram que líquidos adocicados, especialmente à noite, estão associados com lesões odontológicas na primeira infância. A professora da Universidade Estadual de Pernambuco Maria Regina Almeida de Menezes defende que não há necessidade de dar mamadeira às crianças antes de elas dormirem se a alimentação for adequada durante o dia.

Segundo ela, nessa condição, há um equilíbrio da acidez da boca. O normal é que o pH fique em torno de 7, isto é, neutro. Entretanto, o valor cai e a boca torna-se mais ácida após as refeições. “Quando a pessoa coloca qualquer coisa na boca, o pH desce para 5,5 e só volta a 7 depois de meia hora. Se a criança se alimenta o tempo todo, com pequenos intervalos entre o biscoito de agora e o suco de daqui a pouco, o pH dela nunca volta ao normal. Bebês que ainda não têm dentes e sempre ganham mamadeira com chá ou leite adocicado para acalmar o choro poderão ter dentes fracos”, detalha a especialista.

Maria Regina também alerta que a inconstância do pH afeta o processo des-re, mecanismo natural de desmineralização e remineralização dos dentes. Ela explica que a arcada é constituída de cálcio e fosfato, dois elementos que entram e saem da dentição sempre que alimentos são mastigados e ingeridos. “Muitas vezes, o desequilíbrio nesses processos resulta no que chamamos de cárie de mamadeira. Se você reparar, algumas crianças de até 4 anos possuem dentes pretos. Isso significa que elas se alimentaram de forma inadequada, mantendo o pH da boca sempre baixo”, completa a professora.

Preparos já na gestação Ao contrário do que a maior parte dos pais acredita, a organização dos horários das refeições e do tipo de alimento que os pequenos ingerem, além da higiene, é essencial para a blindagem da saúde bucal de crianças. A desinformação é resultado, em parte, do desconhecimento de pediatras sobre os detalhes desses processos. “Quem sabe é o nutricionista. Ele poderá dar orientações saudáveis de lanches que supram a necessidade orgânica da criança sem que ela coma o tempo todo”, orienta Maria Regina Almeida de Menezes, professora da Universidade Estadual de Pernambuco.

O cirurgião-dentista e odontopediatra Emerson Finholdt salienta que os pais devem procurar o especialista para aprender como cuidar da boca do bebê e das causas da cárie, uma doença multifatorial. “Pais beijam a boca dos filhos sem saber que estão os contagiando com bactérias cariogênicas. Eles também não sabem que não devem soprar os alimentos, como a sopa. A consulta preventiva evita hábitos inadequados”, garante.

O profissional da clínica Perfil Odontologia Especializada também destaca a importância da consulta durante a gestação, atendimento chamado de odontologia intrauterina. “Quando você diz à mãe que tem informações importantes sobre o bebê que vai nascer, ela presta muita atenção. Por exemplo, é no quarto mês que as papilas gustativas da criança se formam. Se a mãe come muito doce, a criança poderá nascer com essa preferência atiçada. O doce é viciante e não causa somente cáries, mas também obesidade infantil. Além de evitar o diabetes gestacional, ela protege o bebê desses problemas”, aconselha o cirurgião. (IO)

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