Adeptos da bicicleta contam como mudaram os hábitos de vida

Especialistas apontam como vantagem o baixo impacto da prática esportiva no dia a dia

por Carolina Cotta 06/07/2014 07:58

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Marcos Vieira/EM/DA Press
Gustavo Trindade, da Ciclogiro, utiliza a bike fit em Vítor Laguna, uma avaliação que configura a bicicleta de acordo com as medidas do ciclista (foto: Marcos Vieira/EM/DA Press)

Com intensidade e duração adequadas, o ciclismo pode aumentar a utilização de gorduras como fonte de energia, reduzindo a quantidade de gordura corporal e diminuindo os níveis de colesterol e triglicérides. Sem falar na diminuição da resistência dos vasos sanguíneos à circulação, por efeito de vasodilatadores, como o óxido nítrico, o que reduz a pressão arterial, que em atletas de ciclismo, em repouso, é de 100 ou 90/60mmHg. Realizado em maior duração, o esporte também aumenta a permeabilidade da membrana das células musculares à glicose, mantendo a glicemia em níveis adequados.
Foi depois de ser reprovado no exame médico para renovação de habilitação que o vendedor Elton Biaggi, de 41 anos, redescobriu a bicicleta. Não porque teve que abandonar o carro, mas porque precisou baixar a pressão. “Em novembro de 2012, o cardiologista disse que eu precisava emagrecer 30 quilos. Entrei no spinning e comprei uma bicicleta. Em dois anos, cheguei ao peso ideal e não engordei mais. Na época, nem cheguei a cumprir a dieta à risca, mas pedalava de segunda a sábado, como hoje”, conta Elton, que no primeiro retorno ao médico, pouco tempo depois de começar a pedalar, já estava com a pressão normalizada.

A mudança de hábito trouxe não só saúde. Elton fez novos amigos, com os quais faz mountain biking durante a noite pelas trilhas de Nova Lima. “Não queria voltar para aquela vida estressante que tinha me afastado da prática esportiva. Como o único horário que podia pedalar era depois do trabalho, criei o Pedal no Breu, que se encontra toda segunda e quarta-feira. Já somos 160 no grupo e é uma aventura, porque passamos pelas mesmas trilhas que faríamos durante o dia, mas de noite não dá para ver alguns obstáculos”, conta o adepto, que chega a pedalar 60 quilômetros nessas condições. Os fins de semana também são dedicados a trilhas, durante o dia, no caso. E nos demais dias da semana, ele treina dentro da cidade.
CUIDADOS Doutor em ciências da saúde, Reginaldo Gonçalves dedica-se a pesquisas sobre os efeitos do ciclismo nos fatores de riscos cardiovasculares, realizadas do Laboratório de Avaliação da Carga da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Segundo o especialista, assim como nas demais atividades físicas, é preciso começar de forma progressiva, respeitando as respostas e adaptações do organismo. “Uma orientação geral é começar a pedalar em dias alternados, por períodos de 15 minutos, em terrenos o mais plano possíveis. No entanto, é sempre bom consultar um profissional de educação física ou mesmo um médico para evitar excessos e riscos à saúde”, alerta.

Arquivo Pessoal
"Se passo um fim de semana sem pedalar, percebo que meu humor não é o mesmo" -Juliana Damasceno, administradora (foto: Arquivo Pessoal)


Alguns cuidados devem ser adotados também por quem já tem certa prática, como iniciar sempre com esforço mais leve e aumentar a intensidade devagar. Monitores de frequência cardíaca são recomendados principalmente para pessoas mais idosas ou que tenham algum problema de saúde. “De início, a intensidade deve ser confortável, mas pode-se evoluir de acordo com os objetivos e possibilidades individuais. A garrafa de água é item obrigatório e, para quem pedala por mais de uma hora, é bom levar duas garrafas e alimentos como barra de cereais, gel de carboidratos ou mesmo alguma fruta fresca ou desidratada.

Doutor em ciências do esporte e do exercício, Rodrigo Bini é pesquisador de cinesiologia e biomecânica do ciclismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde faz parte do Grupo de Pesquisa em Ciclismo (Gepec). Segundo o especialista, um dos principais benefícios do ciclismo, o fato de ser uma atividade de baixo impacto, ocorre porque não há contato abrupto com o solo, como na corrida. Além disso, ele envolve o uso da musculatura, principalmente região glútea e coxas, de forma menos agressiva do que na corrida. A melhoria do sistema aeróbico, por sua vez, tem relação com o fato de pedalarmos em intensidade moderada e baixa.

BIKE FIT
O gasto calórico é certo, embora relativo. “Depende da velocidade da bicicleta, do ritmo de pedalada, do gradiente da pista e até da direção e velocidade do vento. Pedalar subindo uma colina, por exemplo, exige mais do que descendo a colina”, explica. Bini também defende a habilitação para a prática do exercício após exames. “Ser avaliado por um médico e, posteriormente, por um profissional de educação física é determinante para os benefícios serem ótimos”, alerta. Já o aquecimento pode ser feito na própria bicicleta, em intensidade leve. Outra indicação é recorrer à avaliação de bike fit, que envolve medidas das dimensões corporais e da bicicleta, além de avaliações do padrão de movimento utilizando filmagem.
Segundo o especialista, a posição na bicicleta envolve um balanço entre maximização do desempenho e do conforto. “Comumente, para ganhar em desempenho, se deve abdicar do máximo conforto, o que justifica a posição mais fletida de atletas de elite. A bike fit é a mais indicada para ajustar a bicicleta às dimensões do ciclista, independente do seu nível de desempenho.” Esse cuidado ganha ainda mais importância em cicloviagens, como as que a administradora Juliana Damasceno, de 32, fez pelo Sul da França e de Moeda a São João Del-Rei. “A beleza do lugar e a vontade de superar o desafio me fez apaixonar pelo esporte. Se passo um fim de semana sem pedalar, percebo que meu humor não é o mesmo”, conta.

A magrela ideal

Arquivo pessoal
Elton Biaggi emagreceu 30 quilos depois que começou o mountain biking (foto: Arquivo pessoal)
Para cidade, trilha ou estrada? Só depois de responder a essa pergunta é possível escolher a bicicleta certa. O equipamento está diretamente atrelado ao terreno onde o ciclismo será praticado. Segundo Gustavo Trindade, sócio-administrador da Ciclogiro, as dobráveis, que estão em alta, são exclusivas para uso urbano e para pequenas distâncias, por terem rodas pequenas. Práticas, por serem leves e ocuparem pouco espaço, são uma opção para quem quer se deslocar de casa para o trabalho, por exemplo. As speed ou road são indicadas para asfalto e longa distância, enquanto a mountain bike, como adianta o nome, é a bicicleta para trilhas.

O fato de suportar terrenos mais acidentados faz dessa última um tipo de bicicleta mais versátil. Afinal, pode também ser usada na cidade e nas estradas. Esse foi um dos motivos que levou a professora universitária Eleonora Bastos a optar pelo modelo. Apaixonada por bicicleta desde a infância, ela também carregava um trauma. “Meus pais achavam que era perigoso e nunca me deram uma. Lembro-me de pedir aos entregadores de mercadoria para poder andar.” Foi só recentemente que Eleonora resolveu realizar o sonho antigo. Entusiasmada por amigos, começou a frequentar alguns grupos de pedal, novamente com uma bike emprestada, até comprar a bicicleta que queria ter desde a infância.

E quando precisou escolher, descobriu uma variedade de marcas e modelos. “Quanto entrei em uma loja, a mais barata custava R$ 500 e a mais cara, R$ 37 mil. Por isso, já existe até mercado para seguradoras de bicicletas”, observa. Segundo Gustavo, depois de escolhido o tipo e o tamanho – a bicicleta deve ser proporcional à estatura e tamanho da perna, sendo o quadro definido de modo que a virilha fique 5 centímetros acima do tubo mais alto –, o céu é o limite quando se chega aos acessórios. “É bom que tenham freio a disco, uma suspensão de boa qualidade e o mínimo de 24 marchas para subir morros”, sugere. Capacetes, sinalizadores, bermudas ou calças com forro interno, luvas e kit de hidratação também são essenciais.

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