Esperma é criado de tecido congelado

Testada em ratos, a técnica poderá ser aplicada em meninos com câncer. Eles correm o risco de ficarem inférteis no tratamento contra os tumores e não têm espermatozoides para serem conservados

por Bruna Sensêve 02/07/2014 11:00

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Entre todas as pessoas com câncer, a proporção daquelas com menos de 20 anos é de 1%. Os recentes avanços no tratamento, no entanto, aumentaram significativamente a taxa de sobrevivência desses pacientes juvenis para 70% a 90%. Os tipos mais comuns no começo da vida são a leucemia, o linfoma de Hodgkin e o câncer de testículos, todos muito agressivos e de progressão acelerada. A medida de gravidade também é usada para o tratamento, que tende a acompanhar a violência da doença com uma ação altamente enérgica. Paralelamente a essa batalha, a infertilidade causada por protocolos de químio e radioterapia se tornou uma grande preocupação. Isso porque não é possível congelar os gametas saudáveis antes do tratamento, pois eles ainda não são produzidos.

Hoje, é rotineiro que adultos utilizem a técnica de criopreservação, ou congelamento, de sêmen e de óvulos antes de serem submetidos a tratamento contra o câncer para a possibilidade de ter que recorrer à fertilização no futuro. O cuidado, porém, não é possível para doentes que não chegaram à puberdade. Na transição da infância para a adolescência, os órgãos sexuais se tornam maduros o suficiente para produzir gametas. Os óvulos, no caso feminino; e os espermatozoides, no masculino. A dificuldade está justamente no fato de os ovários e os testículos das crianças não estarem prontos para essa produção no momento anterior ao tratamento oncológico. Em novo trabalho publicado na edição desta quarta-feira da revista científica Nature Communications, pesquisadores japoneses se aproximam dessa realidade.

O grupo liderado por Takehiko Ogawa, da Escola de Medicina da Universidade de Yokohama, desenvolveu um sistema de cultura de órgãos capaz de induzir o processo completo de espermatogênese, quando o esperma é produzido no organismo. Em um trabalho anterior, eles já haviam verificado essa possibilidade. Para confirmar o resultado e testar a competência do esperma criado, refinaram o método de criopreservação e realizaram experimentos de microinseminação em camundongos. “Os dados finais mostraram que a prole resultante era saudável e reprodutivamente competente quando amadureceu, indicando que essa medida poderia ser clinicamente aplicável no futuro”, define o artigo.

Anderson Araújo / CB /DA Press
A infertilidade é um dos efeitos adversos do tratamento de alguns tipos de câncer. Clique para ampliar e saber mais (foto: Anderson Araújo / CB /DA Press)
Os cientistas acreditam que essa estratégia apresenta um método potencial para a preservação da fertilidade, mas exigirá mais trabalho antes que possa ser traduzido para os seres humanos. “Embora possa não ser fácil e necessite de uma investigação mais aprofundada, é esperado que métodos de cultura de órgãos para a espermatogênese de outros animais, incluindo os seres humanos, sejam bem- sucedidos no futuro”, acredita Ogawa.

“Evolução experimental”
Diretor médico da Clínica Vida – Centro de Fertilidade da Rede D’Or e professor de ginecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Paulo Gallo também confia no futuro promissor do trabalho de Ogawa. “O estudo é uma evolução experimental de um método que ainda não é usado como rotina para a reprodução humana em laboratório. A importância existe e, com certeza, no futuro, vai ser de grande utilidade para humanos”, afirma. Segundo ele, para a preservação da fertilidade em pessoas sob tratamento oncológico, há a possibilidade de congelamento de óvulos, de embriões e de espermatozoides. As sociedades de reprodução humana consideram experimentais técnicas similares à proposta pelo grupo japonês.

Gallo conta que, hoje, um garoto com 10 anos e leucemia não tem como ter os espermatozoides recolhidos. Mas podem ser retiradas partes do tecido testicular — ou, no caso de uma menina, do tecido ovariano — e congelá-las em laboratório. “A técnica de maturação in vitro é experimental, mas esse paciente somente a necessitará daqui uma década ou mais, quando, certamente, a metodologia terá evoluído o suficiente para garantir a geração de uma prole”, observa.

Ele lembra que, há uma década, o próprio congelamento de óvulos era considerado empírico. A busca, no caso do congelamento de tecidos, é pelo amadurecimento das células congeladas que estão em fase precoce. “Essas evoluções são muito rápidas. Acredito que, em alguns anos, a técnica de maturação in vitro vai ter sucesso no dia a dia e poderá ser usada na rotina da clínica médica”, conclui.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Mais difícil com óvulos

“O trabalho é uma continuação dos estudos em gametogênese em cultura. A modificação que ele está fazendo, a parte interessante do artigo, é lidar com o espermatozoide, o que tende a ser mais simples. No testículo desde o nascimento do bebê, existe uma camada de células-tronco espermatogoniais, capazes de gerar os gametas masculinos. O tratamento de criopreservação do tecido testicular pode contar, por exemplo, com o crescimento in vitro dessas células para obter os gametas. O óvulo tem uma condição mais complicada, inclusive, antigamente, supunham que não existia células-tronco ovoniais. No entanto, conseguiram, em 2012, também fazer essa proliferação in vitro. Usaram as células-tronco pluripotentes de um adulto, levando-as a adquirir características embrionárias pluripotentes e, em seguida, as maturando em gametas. É o processo inverso para um paciente já adulto e infértil.”
Alice Teixeira Ferreira, do Departamento de Biofísica Molecular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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