Exposição ao sol tem potencial de causar dependência semelhante à de algumas drogas

Os raios ultravioleta liberam substâncias que ativam a área de prazer do cérebro

por Bruna Sensêve 30/06/2014 16:00

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Drogas, alimentos açucarados, sexo e sol. O último integrante dessa relação pode parecer fora de contexto, mas um estudo publicado esta semana na revista especializada Cell encontrou indícios de que a luz solar pode ser tão viciante quanto os três primeiros itens da lista. Os resultados, obtidos por pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, sugerem que os mamíferos, inclusive humanos, são biologicamente programados para procurar a radiação ultravioleta (UV).

Isso explicaria por que algumas pessoas acostumadas a se bronzear podem apresentar sinais de dependência física e psicológica, como maior tolerância e desejo pela luz do Sol. É possível até mesmo que alguns experimentem a síndrome de abstinência caso fiquem impossibilitados de receber a dose diária de raios UV.

O motivo está, segundo os pesquisadores, no fato de a exposição liberar no corpo endorfinas opioides, substâncias químicas produzidas naturalmente pelo organismo para aliviar a dor e gerar sentimentos de bem-estar. Os raios UV ativam o sistema de recompensa do cérebro, estimulando a repetição desse comportamento e fazendo com que a pessoa ignore os riscos de câncer de pele, envelhecimento precoce e queimaduras. Não é raro que os viciados em bronzeamento relatem sensação de relaxamento e melhora no humor como justificativas para o excesso de banhos de sol.

As amigas Crysthiane Carrara, 47 anos, e Deborah Resende, 45, confessam que esses motivos são suficientes para levá-las todas as manhãs ao Parque da Cidade, onde treinam vôlei de praia há cinco anos. “O sol melhora a produção do dia inteiro, sem ele não rendo nada. Para mim, é vida”, diz Chrystiane. “O negócio é o sol, somos realmente viciadas na energia dele”, completa.

Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press
Crysthiane e Deborah não podem ser consideradas viciadas no Sol, mas sentem grande prazer com a exposição (foto: Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press)
Apesar de a bancária usar o termo viciadas, isso não significa que elas de fato tenham uma dependência ou adotem hábitos arriscados. Elas apenas constatam os efeitos de bem-estar que pode levar algumas pessoas a sofrerem com o problema. O mesmo pode-se dizer de Gilson Luiz Gonzaga, 54 anos, outro assíduo participante nas aulas de vôlei de praia. Natural de Santa Catarina, o autônomo comemora o clima da capital, que fornece muitas manhãs de Sol ao longo do ano. “O tempo de Brasília é perfeito para isso.”

Experimento
A equipe responsável pelo estudo constatou o poder viciante dos raios UV em ratos. Bastaram sete dias de pequenas doses de exposição para os animais apresentassem taxas de beta-endorfinas altas, provocando uma mudança de comportamento — essencialmente noturnos, os animais começaram a buscar a luz solar com ferequência.

Em uma segunda etapa, os pesquisadores observaram que os ratinhos manifestaram sintomas relacionados à sinalização de opioides, como baixa sensibilidade ao toque e à temperatura. O efeito foi revertido quando as cobaias receberam doses de substâncias que bloqueiam a atividade dos receptores de endorfina. Entretanto, na ausência do medicamento, as cobaias apresentaram tremores e ranger de dentes, indícios clássicos da abstinência.

“Esse estudo traz informações importantes que podem ajudar a explicar por que os humanos tornaram-se dependentes do sol ao longo de sua evolução. As beta-endorfinas são substâncias importantes para as sensações de prazer, e os pesquisadores demonstraram que a produção delas pelos raios UV faz com que a luz solar possa ser tão viciante quanto uma droga pesada”, diz Alessandro Leal, médico da unidade brasiliense do Centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês.

O neurologista Fabrício Hampshire, professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis, contudo, diz que os resultados devem ser interpretados com ponderação. “Como o experimento foi realizado em animais, não é possível dizer que humanos também apresentarão esse comportamento aditivo. O que se pode dizer, entretanto, é que a produção de endorfinas está associada com a produção de vitamina D, um composto importante que evita diversas doenças como a esclerose múltipla. O sol, entretanto, não é a única maneira de se obter esse elemento”, afirma o também médico do Hospital Caxias D’or, no Rio de Janeiro.

Não compensa
David Fisher, um dos principais autores do estudo, observa que qualquer necessidade compulsiva é um dos critérios que qualificam o vício. Segundo ele, a exposição aos raios UV desencadeia processos de alívio da dor, os mesmos envolvidos no efeito de analgésicos, como morfina, e de drogas, como a heroína. Os resultados, ele afirma, oferecem evidências consistentes de que uma pessoa não precisa ser usuária de drogas para ser viciada nos efeitos opioides geralmente associados a elas.

“Além disso, conseguimos encontrar um padrão que pode ter responsabilidade parcial no aparecimento de câncer de pele, e essa informação é útil para os institutos de saúde pública”, complementa Fisher. Na opinião do cientista, é possível que estudos como esse consigam limitar o uso de câmaras de bronzeamento, especialmente entre adolescentes. O procedimento é proibido no Brasil desde 2009, após a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), ter incluído a exposição às radiações UV na lista de práticas e produtos carcinogênicos para humanos.

Para o norte-americano, o custo benefício do sol para a saúde não compensa o risco. “Sabemos que a vitamina D é importante para a força óssea e a regulação de cálcio, mas a obtenção dessas vantagens não é restrita ao costume de se expor à radiação com frequência. O comportamento pode ser, na realidade, mais perigoso do que benéfico”, alerta. Fisher observa também que os efeitos dos protetores solares não foram incluídos no experimentos. “A boa notícia é que existem algumas indicações que eles podem proteger as pessoas desses comportamentos aditivos e induzidos pela radiação UV”, completa.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Mudança de tendência

Nas décadas finais de 1800, as damas europeias evitavam o sol ao máximo porque a pele bronzeada era associada à pobreza e ao trabalho rural. A aparência pálida, por outro lado, era um indicativo de “bom berço”. Compromissos ao ar livre eram exceções, e, nessas horas, chapéus, mangas longas e guarda-sóis faziam-se indispensáveis. A moda só mudou em 1923, quando a estilista francesa Coco Chanel apareceu bronzeada após uma viagem de barco a Cannes. Acidentalmente, ela popularizou o dourado da pele no mundo ocidental. Desde então, o corpo bronzeado tem sido associado à saúde e a condições financeiras que proporcionam diversão e pouco trabalho.

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