Corpo de torcedor reage a diversos estímulos durante uma partida

Diante de um jogo, o torcedor é uma espécie de jogador fora do campo. Do cérebro ao aparelho digestório, há um turbilhão de movimentos antes de alcançar o bem-estar, com a vitória do time querido

por Carolina Cotta 22/06/2014 08:24

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Jair Amaral/EM/D.A Press
Cássio Lauria Medeiros é treinador das equipes de base do América e torcedor de carteirinha da Seleção Brasileira: "Não torço contra. Acho que temos a oportunidade de reivindicar uma política melhor para nosso país na hora certa, no dia das eleições, e não em um momento raro e tão prazeroso como a Copa do Mundo" (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)


Torcer. Do latim, torquere: desvirtuar, distorcer, adulterar, virar, torturar e atormentar. Do futebolês: ação de "estimular jogadores do time com gritos, palmas, gestos de mãos e braços, coreografias e cantos, como forma de somar, de contribuir, de participar do esforço dos atletas em campo na superação aos adversários e na busca da vitória", conforme o pesquisador de etimologia Ari Riboldi apresenta em seu livro Cabeça-de-bagre: termos, expressões e gírias do futebol, lançado pela Editora AGE.

E brasileiro torce tanto que "torcedor" é palavra exclusiva da nossa linguagem. Segundo o professor da Faculdade de Letras da UFMG e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (Fulia) Marcelino Rodrigues da Silva, a expressão surgiu no início do século 20. "Naquela época, no Brasil, as partidas de futebol eram muito frequentadas por mulheres, porque tratava-se de algo elegante. Ansiosas, elas torciam seus lenços enquanto assistiam aos jogos, dando origem à palavra", explica.



O torcedor, então, seria aquele que joga junto e vê o corpo reagir com o que ocorre em campo. E como o corpo reage! Segundo Marcus Vinícius Bolívar Malachias, cardiologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em um primeiro momento, o cérebro recebe o estímulo de torcer como um sinal de estresse e ativa o sistema neuroendócrino. Em uma região conhecida como hipotálamo, ocorre a liberação de neurotransmissores, como a dopamina e a noradrenalina.

O fator liberador de corticotrofina estimula a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela hipófise que, por sua vez, ativa a produção de outras substâncias. “O ACTH estimula as glândulas suprarrenais, localizadas acima dos rins, a secretarem cortisol, adrenalina e noradrenalina, conhecidos como hormônios do estresse. Eles aceleram os batimentos cardíacos, aumentam a pressão arterial, contraem as artérias (deixando as mãos frias), dilatam as pupilas, aumentam a sudorese e os níveis de açúcar no sangue e reduzem a digestão. "A função dessa resposta fisiológica é preparar o organismo para a ação, que pode ser de 'luta' ou de 'fuga'", explica.

Em um segundo estágio, também conhecido como adaptação, o organismo tenta se adequar às alterações ocorridas na fase de alarme, reduzindo os níveis hormonais, como que se resguardando e mantendo o equilíbrio. "Quando ocorre uma vitória, o organismo reage como uma luta vencida e, apesar da elevação dos níveis de adrenalina e cortisol, há também a liberação de hormônios associados ao prazer, como serotonina, endorfinas e até hormônios sexuais, que protegem o corpo dos efeitos danosos do estresse e amplificam a sensação de bem-estar", esclarece.

No entanto, se o estímulo estressor continua por longo tempo, como no caso de derrotas repetidas, pode ocorrer a exaustão que, dependendo de cada caso ou da presença de doenças preexistentes, pode levar a problemas de saúde por falha nos mecanismos de regulação e déficit das reservas de energia. "As modificações biológicas que aparecem nessa fase assemelham-se àquelas da fase aguda, da reação de alarme, mas o organismo debilitado pode não ser capaz de manter-se em equilíbrio. Em casos de sensação de perda ou de derrota, pode ocorrer ainda, em algumas pessoas, a redução da reserva de serotonina cerebral, que se associa à depressão.

PRAZER

Os apaixonados por futebol conhecem bem a sensação de prazer que vem com a vitória, com a classificação do time, com a conquista de um campeonato. O professor de educação física Cássio Lauria Medeiros, de 36 anos, tem futebol na veia. A brincadeira preferida da infância o acompanha na profissão. Treinador das equipes de base do América e proprietário de escolinhas de futebol, ele quer ver o brasileiro recuperar o sentimento de prazer maior, que é torcer pela nossa seleção. "Não torço contra. Acho que temos a oportunidade de reivindicar uma política melhor para nosso país na hora certa, no dia das eleições, e não em um momento raro e tão prazeroso como a Copa do Mundo", defende.

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