'Quentinha' ganha status e sofisticação como nova aliada da vida saudável

De todas as cores e formas, as marmitas estão em alta e já viraram figurinha indispensável na vida de atletas, atrizes e executivos. Além de econômicas, elas podem ser parceiras de quem faz dieta ou quer ter uma alimentação balanceada

por Paula Takahashi 15/06/2014 09:30

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Renata Brasil incorporou a marmita ao seu dia a dia há cerca de um ano e diz que se sente mais bem disposta depois do almoço (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
A famosa “quentinha” já não é mais a mesma. Há tempos como presença garantida na mochila de operários da construção civil ou empregados do chão de fábrica, hoje as marmitas circulam nas bolsas de socialites, atrizes, executivos, atletas e quem quer que esteja atrás de uma alimentação saudável e balanceada. Se o público mudou, o visual que antes remetia ao alumínio também teve que acompanhar. Térmicas com design assinado por artistas renomados, repletas de divisórias e até capazes de esquentar a refeição por conta própria, as “quentinhas” ganharam status, ares de sofisticação e até o título de cool, rótulo que cabe aos mais descolados. Tem até loja na Oscar Freire, a rua mais badalada – e cara – de São Paulo, dedicada somente a elas. Tudo isso em nome da saúde e, por que não, da economia.

“Existe uma busca da população por hábitos de vida mais saudáveis, que perpassam a alimentação. Associada a isso está a questão dos gastos mais baixos por se levar o próprio alimento”, avalia o médico nutrólogo Fabiano Robert. Quem está disposto a aderir à moda, terá benefícios incontestáveis, entre eles o de conhecer a procedência do produto, ter controle sobre a higiene de preparo e, mais do que isso, poder regular a adição de itens nocivos, como gordura e sódio. O conteúdo também pode trazer itens difíceis de serem encontrados no dia a dia. “Podem ser consumidos alimentos sem agrotóxico ou orgânicos hoje presentes apenas em restaurantes muito especializados e com preço elevado”, afirma a professora de nutrição da Fumec Ana Cristina Machado.

Sem contar a eliminação das frituras, normalmente trabalhosas de se fazer em casa e que causam muita sujeira. Além disso, costumam ficar com sabor e aspecto ruins depois de requentadas. Resultado: todo mundo evita. No self-service, no entanto, está tudo ao alcance do pegador e, diante da tentação, muitos deixam de lado a dieta para apreciar aquela deliciosa batata frita. “Em casa, não se faz arroz, macarrão, batata e mandioca, tudo ao mesmo tempo. Mas pela facilidade de encontrar isso no restaurante, as pessoas acabam comendo mais do que podem”, reconhece Ana Cristina Mendes Muchon, nutricionista e professora de nutrição da Faculdade de Educação de Bom Despacho (Faceb/Unipac).

A engenheira ambiental Renata Brasil, de 25 anos, garante que sua vida mudou desde que incorporou a marmita à rotina, há cerca de um ano. “Não adoeço mais. Sem contar que não sinto mais aquele peso e sono depois do almoço. Minha digestão melhorou muito e minha disposição aumentou consideravelmente”, conta. Com uma boa dose de vontade associada à disciplina, ela reconhece que é possível preparar as refeições da semana inteira, mesmo na correria do dia a dia. “Já fiz até curso de culinária para fazer coisas diferentes, mantendo o mesmo padrão de qualidade e equilíbrio de vitaminas. Minha alimentação é funcional e percebo que basta planejamento para conseguir mantê-la”, afirma.

Barata e sem sofisticação
Preparar uma marmita pode parecer complicado, mas desde que ela contenha os grandes grupos alimentares, é só começar a combinar os ingrendientes

Cristina Horta/EM/D.A Press
"Gosto de saber o que estou comendo, o que não ocorre quando almoço na rua. Sem contar não se sabe como a comida é feita" - Ádamo Gori Bedete, estudante de direito (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Quem acha que a trabalheira é grande e que não terá tempo para organizar a marmita para levar para o trabalho pode se surpreender já nos primeiros dias de teste. Afinal de contas, não é preciso muita variedade nem sofisticação. Uma comida caseira benfeita, com tempero na medida, ingredientes frescos e leves, desbanca qualquer self-service e por que não os pratos executivos mais incrementados. “É um preço muito pequeno que se paga pela quantidade de benefícios, que incluem mais disposição e menos cansaço”, antecipa o estudante de direito Ádamo Gori Bedete, de 23 anos, grande adepto das marmitas.

Para começar, é preciso ter em conta que o preparo deverá contemplar quatro grandes grupos de alimentos. “As leguminosas, representadas pelo feijão, lentilha, soja e ervilha. Os carboidratos, entre eles macarrão, arroz, batata-doce, quinoa e amaranto em grãos. Proteínas como ovo, frango e a soja. E finalmente os legumes e folhas, ótimas fontes de vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes”, detalha Ana Cristina Machado, professora de nutrição da Fumec.

O mais indicado é que pelo menos um item de cada grupo esteja presente todos os dias para suprir as necessidades nutricionais. Tendo clareza dos produtos que se enquadram em cada um deles, é possível fazer inúmeras combinações para evitar a monotonia. Para facilitar, o arroz e o feijão podem ser preparados no início da semana, separados em porções individuais e congelados.


A engenheira ambiental Renata Brasil, de 25, vai além. “Ainda preparo as proteínas no domingo para serem consumidas a semana toda. Peso-as e separo em potes o que for suficiente para a refeição do dia”, afirma. Para não enjoar, ela usa a imaginação. “Faço peixe e frango e tento variar. Um dia é grelhado, no outro refogado com molho de iogurte e há também opções com mostarda, cebola e espinafre”, enumera. Com a proteína e o carboidrato garantidos para todos os dias da semana, Renata reconhece que só precisa se preocupar com os legumes e a salada, que tomam menos tempo.

Esse grupo de alimentos, juntamente com as frutas, deve ser preparado o mais próximo possível do horário de consumo. “Se der para fatiar o tomate antes de sair de casa, é melhor que fazê-lo na noite anterior, já que, depois de partidos, esses alimentos perdem nutrientes”, aconselha Ana Cristina Mendes Muchon, nutricionista e professora de nutrição da Faculdade de Educação de Bom Despacho (Faceb/Unipac). Os legumes são rapidamente cozidos em uma panela a vapor e as carnes devem ser preferencialmente cozidas, assadas ou grelhadas.

CONTROLE RIGOROSO

Entre as grandes vantagens de preparar o próprio alimento está a possibilidade de controlar os mínimos detalhes. “Tenho até uma horta em casa e uso temperos à base de alho, cebola, orégano e manjericão, que diminuem a necessidade de sal. Também não uso óleo de soja, só o de coco, que tem gordura boa”, conta Ádamo Gori Bedete. Abusar das ervas é uma ótima alternativa para garantir sabor aos alimentos, tirando de cena o famigerado sal de cozinha.

“Gosto de saber o que estou comendo, o que não ocorre quando almoço na rua. Sem contar que quando não se sabe como a comida é feita, é muito comum que as pessoas passem mal”, afirma Ádamo. Sem contar que grande parte dos alimentos que ele e Renata colocam na marmita dificilmente seriam encontrados em estabelecimentos comerciais comuns. “Já procurei, mas não encontrei. Muitos lugares vendem essa imagem de que são saudáveis, mas não são de verdade”, lamenta Ádamo. A única forma de ter certeza é colocando o avental e indo para a beira do fogão. Com a “quentinha” como aliada, ele consegue, inclusive, fazer uma dieta livre de glúten e lactose. Renata, por sua vez, consegue controlar com mais facilidade o colesterol alto.

PALAVRA DE ESPECIALISTA: Sem extrapolar
Lupércio Cançado Farah, nutricionista e doutor em medicina bioquímica

“Mesmo que a pessoa não consiga levar a marmita todos os dias, se o fizer duas ou três vezes na semana já é benéfico, desde que nos demais dias não extrapole. Se for possível, nos outros dias é importante manter o equilíbrio levando coisas mais fáceis e práticas, principalmente para o intervalo dos lanches, que contenham itens dificilmente encontrados na rua. Um pão integral com queijo branco e peito de peru é uma das alternativas. Praticamente não se encontra pão integral nas padarias ou lanchonetes. Os sanduíches normalmente são feitos com queijo amarelo e vêm com muita manteiga.”

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