Com experiências distintas, pessoas revelam como lidam com a arte de entender e ter tempo para o outro

Na trajetória de cada um, exemplos de como se doar ao próximo

por Lilian Monteiro 03/06/2014 15:02

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Márcia Lanza Barbosa, terapeuta ocupacional (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Nem todos querem. Nem todos sabem. Mas há quem queira e faça toda a diferença na vida das pessoas. Estar disposto a escutar o outro e compreendê-lo é uma sabedoria adquirida ao nascer ou aprendida ao longo dos anos. Márcia Lanza Barbosa nasceu atenta ao outro. Por isso, além de suas atitudes diárias, a escolha profissional a levou por caminhos que a fazem perceber o semelhante. Terapeuta ocupacional, ela trabalha com crianças e jovens com necessidades especiais e na área da saúde mental, o que contribui para sua visão e ação diante da vida. “Na maioria das vezes, consigo me colocar no lugar do outro. Penso como agiria, faria, seria...” Ao mesmo tempo, “tenho facilidade para ouvir sem passar a mão na cabeça ou tirar do outro a chance de ele crescer e buscar alternativas para melhorar”.

Para Márcia, “quem escuta compreende sem julgamento. É o melhor exercício para se livrar dos preconceitos”. A terapeuta enfatiza que se dispõe a “acolher a necessidade do outro, buscando alternativas, às vezes, firmes; outras me levando a pensar no que é bom”. Essa sua maneira de ser é contabilizada tanto na conta da família, “que é acolhedora”, quanto da vida, “que ensina, mas nem sempre é fácil. O amadurecimento também nos leva ao crescimento”. A terapeuta diz que a boa interação com família, amigos e colegas de trabalho faz diferença. “Nos dá habilidade para trocar.”

Márcia, que é diretora da Escola Brincar, no Bairro Floresta, estruturada para atender a demanda de crianças e jovens com necessidades educacionais especiais, cria os filhos, Paula e Pedro, atentos um ao outro. “Meus filhos são bons ouvintes, têm essa capacidade. Sabem que não leva a nada quem corre demais e só se preocupa com o externo, em manter a aparência.”

Ponto importante ressaltado por Márcia é que muitas pessoas simplesmente não dão conta de escutar as demais. “Não falam porque, naturalmente, vão se expor e muitas vezes elas não têm essa coragem porque precisam mostrar fragilidade. Há quem não escute para não aparecer. Não consegue se revelar.”

Márcia revela que “ganha mais” ao parar e prestar atenção no outro. “Cresço demais. Preciso ter jogo de cintura, não posso endurecer e, tanto no trabalho quanto na vida, vou até onde posso e dou conta de ir.” Ela destaca que ajuda no processo “ter uma família boa ouvinte e compreensiva”. A intuição conta demais. “Confio na minha, vou apurando ao longo da vida, já que a gente nunca está pronta.”

Jair Amaral/EM/D.A Press
De uma família de nove irmãos, Nelson Silva diz que aprendeu a dividir, ouvir e colaborar (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
O valor da humildade
Será uma vantagem? Ele nasceu em Piranga e foi criado em Diogo de Vasconcelos, na Zona da Mata mineira. A vida no interior, livre e orientado por pais conscientes e humildes, o tornou um homem que não olha só para seu umbigo. “Cada um tem um privilégio, o meu foi ter herdado da minha mãe, Maria José, o jeito simples, a humildade e a capacidade de conviver, lidar, gerir e me colocar no lugar das pessoas. Não herdei tudo, mas uma parcela”, conta Nelson José Silva, sócio-diretor da Zoom Comunicação.

Criado numa fazenda ao lado de nove irmãos, numa época onde tudo era mais difícil, os comportamentos e ensinamentos eram bem diferentes dos de hoje. “Aprendemos a dividir, ouvir e colaborar. No interior é diferente, os valores são outros. Já imaginou um almoço de domingo com no mínimo 12 pessoas à mesa? Um tem de escutar o outro para a convivência funcionar. Foi um aprendizado.”

Nelson conta que, além da mãe, o pai, Augusto Pereira, também foi responsável na formação de sua personalidade de “enxergar” o outro. “Eu e boa parte dos meus irmãos temos essa característica. Uns têm mais sensibilidade do que outros, absorvem melhor, mas temos essa atenção.” O fato de ter saído aos 16 anos de casa para estudar em Ouro Preto, morado em república e sido aluno bolsista também foi um aprendizado: “Precisei saber escutar e dividir com as pessoas”.

Técnico em metalurgia, administrador de empresas e pós-graduado em relações de trabalho, Nelson parece moldado para contribuir e estruturar a relação com as pessoas. É natural, próprio da personalidade. “Hoje em dia, escuta-se pouco ou errado pela dificuldade de interpretação. A arrogância se sobrepõe à humildade, que é ligada à compreensão. Falta diálogo. Uma pena, já que escutar e compreender são formas de amadurecimento.”

Para Nelson, o saber escutar e entender o outro “estão ligados à capacidade de perdoar, porque para descarregar você tem de confiar. O ombro amigo faz a diferença. Às vezes, quem fala quer só ser ouvido, não pede reação. É o mesmo valor de um abraço. Escutar é um remédio, um carinho, uma chance de reflexão. E a capacidade de compreender é um exercício constante. Precisamos dos dois”.

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