Escola é elemento central para adaptação de crianças refugiadas, mas falta de preparo pode agravar sofrimento dos pequenos

A segunda reportagem da série 'Crianças refugiadas: o desafio do recomeço' vai mostrar como a escola pode ajudar meninos e meninas a aceitarem melhor a vida em um país desconhecido. No Brasil, o próprio entendimento da palavra refugiado dificulta a inserção dessas crianças

por Valéria Mendes 02/06/2014 09:00

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Valéria Mendes/EM/D.A Press
Angelina teve que deixar o Sudão do Sul com a família por ser cristã (foto: Valéria Mendes/EM/D.A Press)
“No início, os colegas me perguntavam muito sobre o meu país, a minha língua, mas agora passou”. A constatação é de Yazdan, 8 anos, um garoto iraniano refugiado no Brasil há 15 meses e apaixonado pelo futebol brasileiro. Ele é filho de um médico afegão que cresceu e casou-se no Irã, mas foi obrigado pelo governo a deixar o país a pé, sem avisar nada a ninguém. “Depois de uma semana andando, ele conseguiu ligar para mim e eu e Yazdan fomos encontrá-lo na Turquia”, conta a mãe do garoto, Mahboubeh, 39 anos. Apesar de marido e mulher seguirem o islamismo, Wakil é sunita e Mahboubeh, xiita. Essa diferença nunca foi uma barreira para o casal. “Isso só é problema para o governo”, afirma a mãe do garotinho iraniano.


Na Copa do Mundo, Yazdan vai torcer pela seleção canarinho e não tem dúvidas de que a conquista do título será de Neymar e sua turma. “A Argentina vai ficar em segundo lugar, Alemanha em terceiro e Espanha em quarto”, palpita. Matriculado no 2º ano do ensino fundamental de uma escola pública em São Paulo, o garoto conta que são 27 alunos em sala. Pelos colegas, foi apresentado às tradicionais brincadeiras brasileiras como o ‘pega-pega’ e o ‘esconde-esconde’, que depois do futebol, “lógico”, são suas preferidas.

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Quando crescer, Yazdan, de 8 anos, terá um bigode como o de Charles Miller, conhecerá o Ceará e vai seguir a profissão do pai: médico (foto: Lilian Lima/IKMR)
Yazdan aparenta aceitar com naturalidade a nova condição financeira da família. Mesmo vendo o pai médico agora vivendo como costureiro, em pouco mais de um ano no Brasil o menino já gostou e desgostou de funk, tem uma pequena coleção de gibis da Turma da Mônica e também parece estar bem adaptado aos hábitos culturais brasileiros. A comida ainda não caiu no gosto dele, mas batata frita e bife já ocupam um lugar especial nas refeições do garoto.

Assistente social e coordenadora do Programa de Atendimento de Refugiadas da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, Aline Tuller afirma que, na maioria das vezes, a adaptação das crianças é mais rápida que a dos próprios pais. Segundo ela, adultos que chegam acompanhados dos filhos aprendem o idioma e estabelecem interações sociais com mais facilidade. “Uma vez na escola, essas crianças ‘forçam’ os pais a não só aprender a língua, mas a se relacionar com brasileiros”, afirma.

Apesar desse aspecto positivo, a inclusão em sala de aula é cercada de desinformação pelo próprio corpo docente das escolas públicas brasileiras, desconhecimento que não facilita em nada a integração dessas crianças à comunidade escolar. “Tem diretor que sequer sabe que aquele aluno é um refugiado e a criança é tratada como um estrangeiro que está no Brasil por opção”, explica Tuller. Não é raro, segundo ela, além de toda a situação traumática do passado recente de uma criança refugiada, que ela seja vítima de bullying, seja pelo sotaque, cor da pele ou pela forma como se veste.

A assistente social se recorda do caso de uma menina da República Democrática do Congo (RDC) cujos pais procuraram a Cáritas do Rio de Janeiro para relatar que a filha estava apanhando dos colegas da escola. “Apesar do bom desempenho em matemática, a garota estava com dificuldade no português. Fomos à escola para entender a situação e descobrimos que a menina tinha dificuldade em empregar o ‘ele’ e o ‘ela’”, recorda-se Tuller. Assim, a criança usava o pronome ‘ela’ para se referir também aos garotos, o que terminava em agressão física. A situação de violência gerou, então, uma resistência na menina, que não queria mais aprender o português. “Ora, ela teve que abrir mão da casa, da família, dos brinquedos e se via agora diante da necessidade de abrir mão do próprio idioma. Foi a forma que ela encontrou de resistir”, relata a assistente social.

A língua é uma questão tão central na vida do refugiado que, se por um lado, é importante aprender o idioma local, por outro, segundo Tuller, existem relatos de crianças que aprendem o português tão rápido que chegam ao ponto de esquecer a língua original. “Esse esquecimento incomoda muito os pais, é um sinal de esquecimento da própria cultura”, afirma.

Entre os inúmeros desafios dos países acolhedores de refugiados está o de facilitar a interação e o respeito à cultura do outro. Nesse contexto, as escolas brasileiras têm papel fundamental e deveriam protagonizar ações que valorizassem a troca de experiências culturais. Um exemplo positivo aconteceu recentemente no Rio de Janeiro. Crianças da Escola Municipal Friedenreich, na capital fluminense, tiveram a oportunidade de conhecer uma solicitante de refúgio da República Democrática do Congo, que, acompanhada de seus três filhos, contou histórias e falou sobre as condições de vida em seu país de origem.

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'Você sabe qual é o meu maior sonho?' - pergunta Nyaring, de 9 anos... (foto: Valéria Mendes/EM/D.A Press)
Superação sem esquecimento
Professora de Direito do Trabalho da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do tema imigração e refúgio, Daniela Muradas diz que todo estrangeiro sofre processo de estranhamento dentro do grupo nacional que o recebe. “O principal desafio do país receptor é incluir socialmente esses estrangeiros sem aniquilar as origens étnicas e as expressões culturais locais. Aceitar a cultura do outro, protegê-la, estabelecer uma política de tolerância, incentivar o pluralismo. O preconceito e a discriminação do brasileiro com os estrangeiros vêm, muitas vezes, da própria falta de cultura em lidar com o diferente”, acredita a especialista.

As irmãs sul-sudanesas Nyaring, 9 anos, e Angelina, 6, estão há dois anos e sete meses no Brasil. A princípio, aparentam boa adaptação à cultura brasileira. Além de falarem o português com fluência, sabem de cor inúmeras músicas de sucesso do universo sertanejo, são fãs de Chiquititas e, no caso específico de Nyaring, ela diz sentir até saudade do arroz com feijão que era servido no abrigo para refugiados em São Paulo, onde passou seus primeiros meses de Brasil.

Professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sérgio Sócrates Oliveira é psicanalista. Coordenador acadêmico da UFAM, foi convidado pelo Acnur, em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de Manaus, para desenvolver, durante um ano, um trabalho de atendimento terapêutico aos refugiados da cidade ao norte do Brasil. Ele explica que a criança tem grande capacidade de esquecer porque tudo para ela é novidade. “A criança descobre um novo mundo todo dia. O que se define como resiliência é da constituição subjetiva infantil, elas se recompõem com mais facilidade. Mas apenas as crianças que estão no contexto de amparo ao longo de suas vidas se enquadrariam nessa condição. Uma criança que só encontra violência, como vai conseguir se recompor sem a possibilidade de ter outra coisa na vida?”, questiona.

Para a psicóloga Lucienne Martins Borges, que coordena uma clínica intercultural na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a identidade de base, por mais que pareça ter sido esquecida, precisa ser preservada. “Abrir mão totalmente dela constitui vulnerabilidade. O saudável é a constituição da mediação entre dois mundos”, pontua. No Brasil, segundo ela, além de não existir a preocupação em manter elementos culturais da origem da criança refugiada, os brasileiros ainda têm certa aversão em perceber que as pessoas se mantêm como elas eram antes. “Um traço da cultura, como a roupa, figura como um elemento de inadaptação e não-integração”, observa.

Sonho do voltar à terra natal
No imóvel de dois quartos, sala, cozinha, banheiro e uma varanda de frente para uma movimentada avenida da região Leste de São Paulo, Nyaring e Angelina mostram fotos da época em que viviam no Sudão do Sul. As imagens trazem à tona recordações das festas em família, casa cheia e uma vida de conforto. “Não vem visita aqui, a gente não faz mais festa, sinto saudade da minha família”, emociona-se Nyaring, que espanta as lágrimas com uma pergunta: “Você quer saber qual é o meu maior sonho?”. Ao receber resposta afirmativa, a menina revela: “Entrar numa piscina e cantar”.

Como Yazdan, Nyaring também adora brincar de pega-pega e esconde-esconde e conta que não dorme em seu quarto. “Eu durmo aqui neste sofá”, começa a menina. Ela tenta explicar o motivo: “Não sei, eu sinto um negócio aqui – apontando para o coração – é uma sensação esquisita, um ventinho frio...”, diz.

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... "Entrar numa piscina e cantar", confessa a garotinha. (foto: Lilian Lima/IKMR )
A melhor amiga de Nyaring, na opinião da sua irmã Angelina, chama-se Bianca. A prova, segundo a caçula da família, é que a garotinha já visitou até a casa delas. “Ela não é minha melhor amiga”, rebate a mais velha. “As meninas da escola brigam muito comigo. Elas são ciumentas, acham que são donas de tudo porque que têm aquilo e mais aquilo”. Minutos depois, a garotinho de 9 anos acaba confessando. “A Bianca é a única pessoa da escola que eu ensinei algumas palavras em árabe”. Quais palavras?, pergunto. “Eu te amo e mamãe”, ela responde.

Voltar ou não ao país de origem é outra questão que paira sobre a vida dos refugiados. Tanto a família de Nyaring e Angelina como a de Yazdan mantêm contato, pela internet, com os parentes do Sudão do Sul e do Irã, respectivamente. Mas enquanto a mãe das meninas, Wajeha* quer esquecer o passado de privilégios financeiros e focar no recomeço; Mahboubeh vive a esperança de estar em uma situação provisória e a expectativa de que o marido, Wakil, possa exercer a medicina dentro do programa Mais Médicos. “Só Deus sabe se eu vou morrer no Brasil”, diz.

* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados.



Na última reportagem da série 'Crianças refugiadas: o desafio do recomeço', você vai saber mais sobre a história de Ester, que vive com a mãe e os três irmãos em um abrigo na cidade de São Paulo. O filho mais velho da angolana, que foi sequestrado por pregar a igualdade em uma igreja, é o único que está na escola. Sem ter com quem deixar as crianças, a mãe não pode sair para procurar emprego. Como essa família vai alcançar a autossuficiência?

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