Brasil: país do excesso de cesáreas

Estudo 'Nascer no Brasil', da Fiocruz, mostra que maioria das mulheres quer parto natural, mas acaba fazendo a cirurgia. Especialistas consideram dados alarmantes e propõem debate educativo e revisão no modelo de obstetrícia

por Cristiana Andrade 01/06/2014 11:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Leandro Couri/EM/D.A Press
Daniela Bittar e Vinícius Naves, pais de Ayla Bittar e Tom Naves, optaram por ter seus filhos por meio do parto normal (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


DEPOIMENTO
“Precisei me informar muito quando engravidei para poder ter o parto que desejava. Foi ai, que fui parar no Instituto Nascer. Tive duas gestações maravilhosas, rodeadas de muito amor e dois partos naturais na água. O ato de parir consolidou minha força feminina, me trouxe com integridade a maternidade e me deu duas crianças lindas e muito vivas. Nada pode superar a emoção de ajudar o seu filho a nascer.” - Daniela Bittar, psicóloga

Medo, falta de informação, exemplos próximos de pouco cuidado com o parto normal – uma amiga, irmã ou conhecida que não tiveram boas experiências. Esses são alguns dos motivos que levam mulheres brasileiras a se submeterem à cirurgia cesariana para terem seus bebês. É o que mostra o estudo “Nascer no Brasil, inquérito sobre parto e nascimento”, um amplo levantamento feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a pedido do Ministério da Saúde, para aprofundar os dados sobre o tema. A pesquisa ouviu 23.894 mulheres, em 266 hospitais de médio e grande porte, localizados em 191 municípios brasileiros, entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012.

Na avaliação do obstetra Hemmerson Magioni, diretor técnico do Instituto Nascer, clínica especializada em gravidez, em Belo Horizonte, o estudo é muito relevante, pois permitiu revelar com profundidade uma questão de saúde pública no país: as altas taxas de cesariana. Do total de mulheres ouvidas, 72% queriam parto normal logo que engravidaram. Os bebês nasceram por cesárea em 52% dos casos. O Brasil tem uma das maiores taxas de cesariana no mundo, chegando a 88% na rede privada, mostra o levantamento. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que entre 15% e 20% dos partos sejam por cirurgias.

“Outro dado que mostra quão preocupante é a situação é o fato de 36% das cesarianas serem eletivas, ou seja, com dia e hora para ocorrer, sem indicação médica precisa. Isso chamou muito a atenção. Não condeno a cesárea, é uma cirurgia maravilhosa, que salva vidas todos os dias, mas não pode ser feita sem indicação médica, sem a real necessidade”, diz.

Para a coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal, os resultados são alarmantes, já que a intervenção cirúrgica expõe a mãe e o bebê a riscos desnecessários. “Um prejuízo que a criança pode ter é ela nascer antes do tempo que estaria pronta para nascer e, portanto, pode ter dificuldade para respirar, pode precisar ir para uma unidade de tratamento intensivo neonatal, e isso é um imenso prejuízo no começo da vida, essa separação da mãe.

Para a mãe, o primeiro risco é que a cesárea é uma cirurgia, e como tal tem maior chance de hemorragia, de infecção, e também a recuperação da mulher é pior na cesárea do que no parto vaginal”, compara. Segundo Maria do Carmo, uma das razões para os altos números de cesáreas no país é uma cultura na própria sociedade; muitas mulheres hoje realmente já acham que a cesárea é uma boa forma de parto. E para os médicos também, é conveniente para eles que a cesárea ocorra, porque organiza a vida deles, marca uma atrás da outra e não fica à disposição do tempo que você não controla, que é o tempo de nascimento de cada criança. É verdade que médicos podem induzir a mulher a fazer a cesárea, mas o sistema está todo organizado de uma forma a promover isso”, critica.

Quando questionado se os médicos induzem a mulher a ter a cesariana – pelo tempo do trabalho de parto, a disponibilidade de acompanhar a parturiente, entre outros –, Magioni diz que a classe médica sempre se defende dizendo que é a mulher quem quer a cirurgia, dado desmentido pela pesquisa da Fiocruz. “O levantamento mostrou que a maioria delas quer o parto normal, desde o início do pré-natal. Mas, com o passar do tempo, elas mudam de ideia. Não podemos afirmar que a culpa é do médico. Em muitos casos, há uma desinformação coletiva, uma falta de vivência saudável do parto.”

Magioni acredita que a forma de nascer no Brasil ficou muito mal cuidada por décadas. “Houve uma grande desvalorização do evento nascimento por parte da população e da classe médica. Não se dá o real valor a uma viviência saudável na chegada do bebê. O mundo inteiro cuida da gravidez de maneira multiprofissional, com foco na saúde, no bem-estar, na atividade física, na fisioterapia, com acompanhamento da doula, da enfermeira, do psicólogo e do obstetra. Aqui no Brasil, a gravidez é relacionada somente ao médico”, pontua.

A importância de compartilhar informações
É unânime entre os especialistas a importância da divulgação de pesquisas como essa, apresentada na quinta-feira, como meio de educação da população. “A mulher mais bem informada, desde o início do pré-natal, tirando dúvidas com seu médico, procurando ler sobre a gestação, com certeza vai ter uma gravidez mais saudável e um parto melhor. O que ocorre é que as brasileiras se preparam pouco para viver o parto normal. Ela faz o quarto do bebê, vai a Miami fazer compras do enxoval, mas não se interessa tanto por outras informações. E um dos papeis da classe médica é justamente esse, de informar”, avalia o médico Hemmerson Magioni.

Para o obstetra e diretor da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) Frederico Péret, a informação é fundamental para a melhoria do sistema de saúde no Brasil, e pode impactar positivamente na redução das taxas de cesarianas. “Acredito que a sociedade estar mais bem informada é positivo para todos: para o obstetra, para o bebê e para a gestante, que deve ter garantido o direito de escolher a forma ideal de seu filho nascer, não deixando espaço para extremos, como o caso da pessoa que tem toda a condição de ter o filho normal e faz a cesariana; e o caso da pessoa que está em risco e precisa fazer a cirurgia, mas não quer fazer. O que esse estudo nos mostra não é novidade, sabíamos das altas taxas de cesariana. O que ele alerta é sobre o alto índice de cesáreas em gestações de 37 ou 38 semanas (35% das entrevistadas)”, observa.

Discussão Madura

Para Péret, o debate dos dados divulgados pelo levantamento deve ser trabalhado com maturidade, em todo o país, “revendo o modelo obstetrício, com um discurso embasado, racional e sem radicalismo”. “Por isso, na minha opinião, os dados da Fiocruz são ótimos para fortalecermos um debate maduro sobre a questão.” Duas questões para as quais ele chama a atenção são a melhoria da estrutura das maternidades, não apenas no Sistema Único de Saúde, mas na rede suplementar (privada), e a remuneração dos obstetras que acompanham a gestante no trabalho de parto. “Acredito que devamos discutir essa questão de forma madura. Se tem uma assistência, uma dedicação, deve haver um modelo adequado de remuneração.”

Na visão de Magioni, as maternidades brasileiras ainda não avançaram consideravelmente em termos de estrutura para acolher os partos naturais, mas algumas já estão começando. “É preciso ambiência, suítes de parto, locais acolhedores e mais familiares, onde a mulher possa ficar com o marido, contando com toda a segurança hospitalar por trás. O parto normal é íntimo, faz parte da sexualidade do casal, e, por isso, o ambiente hospitalar precisa de adequação nesse sentido”, acrescenta o diretor do Instituto Nascer.

Humanização é valorizada
Consolidar uma rede de estratégias para a valorização do parto humanizado é um dos objetivos do programa Rede Cegonha, do Ministério da Saúde que tem foco na melhoria da assistência da gravidez. Segundo a médica obstetra Quésia Villamil, referência técnica da Comissão Perinatal/Comitê de Óbitos Maternos e Fetais da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte e apoiadora institucional da Rede Cegonha, apesar dos esforços do governo federal, de maneira geral a assistência à mulher ainda está longe de ser a ideal. “O trabalho é fortalecermos essa educação para as mulheres conhecerem o parto normal, o seu corpo e o seu direito de ter o filho da maneira mais saudável possível, e tentando reduzir as taxas de cesariana. As campanhas de mobilização e divulgação de informações estão presentes em eventos, redes sociais, blogs e no corpo a corpo com a mulher. Um dos pilares do Rede Cegonha é formar educadores perinatais que influenciem suas comunidades, rodas de conversa na igreja, promovam curso de doulas (mulheres voluntárias para ajudar as mulheres na hora do parto), enfim, treinar equipes multidisciplinares para mudar a realidade nas maternidades brasileiras”, explica.

De acordo com Quésia, o Brasil vive um pardoxo com a alta mortalidade materna, pois 98% dos partos são realizados dentro de um hospital. A maioria da causa mortis de mulheres durante o parto, segundo a obstetra, está ligada a hipertensão arterial, hemorragias e infecções. A médica, de 33 anos, teve três bebês: a primeira filha nasceu com anencefalia e morreu no mesmo dia do nascimento. Os dois outros filhos vieram ao mundo de parto natural, na água. “Tive meus filhos da maneira que acredito, com tranquilidade. Fiz todo o preparo, inclusive com fisioterapia, e voltei a trabalhar um mês depois. O que é preciso é informação para desmitificar uma série de histórias relacionadas ao parto natural”, conta. Na visão de Quésia, a humanização do parto é necessária no Brasil, cujos médicos obstetras têm uma formação muito tradicional e não estão acostumados a esse momento tão importante para a mulher. “Acredito que falte uma visão do bom parto na minha classe profissional, que usa aromaterapia, massagens, um local tranquilo e silencioso para a mulher parir, o que chamamos de tecnologia leve. Diferente da tecnologia pesada que envolve a cesariana, com medicamentos, anestesia e uma sala de cirurgia”, acrescenta.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA