Comum em recém-nascidos, a leucinose compromete as funções hepáticas; identifique os sinais

Problema acontece pelo acúmulo de aminoácidos. Os bebês não conseguem mamar, têm convulsões e podem até entrar em coma

por Correio Braziliense 30/05/2014 14:00

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Arquivo Pessoal
Idário levou o filho Arthur aos EUA para receber um novo fígado (foto: Arquivo Pessoal)
Menos de uma semana da chegada do bebê e os pais se deparam com um quadro clínico preocupante: dificuldade de sucção, vômitos, perda de peso, crises convulsivas, sinais neurológicos de intoxicação e, em casos mais graves, o filho entra em coma. Trata-se dos primeiros sinais da leucinose, uma doença hereditária que acomete um a cada 185 mil nascidos. Faltam aos pequenos uma enzima responsável por processar os aminoácidos leucina, isoleucina e valina. Dessa forma, essas moléculas se acumulam no fígado de forma tóxica.

Apesar das consequências robustas, a doença nem sempre é identificada de imediato, segundo o especialista em genética clínica Ricardo Pires. “O paciente geralmente apresenta um quadro chamado de criança agudamente enferma, que pode ser confundido com sepses, doenças neurodegenerativas de início precoce ou ainda outros erros inatos do metabolismo”, explica. A meningite também é cogitada em muitos casos.

O engenheiro agrônomo Idário Santos conheceu a face mais crítica da doença. O filho mais novo dele começou a apresentar problemas nos primeiros contatos com o leite materno, em janeiro de 2002. “O Arthur tinha crises convulsivas e entrou em estado de coma. Primeiro, os médicos, desinformados, diagnosticaram leucodistrofia, mas o remédio não resolveu nada”, relata. A ida aos Estados Unidos, em que há um centro de referência da doença, e um transplante de fígado em 2005 mudaram a vida da família. Arthur é um dos primeiros brasileiros curados da leucinose.

As consequências da doença foram pequenas, diz o pai. “Ele teve problema motor, só conseguiu andar sozinho aos 8 anos, mas não cognitivo. Ainda assim, ao contrário de outras pessoas que têm a leucinose, Arthur não precisa ficar em constante tratamento. Pode comer de tudo, sem restrição a proteínas.” Segundo Ricardo Pires, pacientes submetidos ao tratamento correto ingerem medicamentos específicos, são acompanhados por nutricionista e seguem uma dieta restritiva de leucina, presente em proteínas, como soja, carne, peixe, ovo e leite.

Descoberta prejudicada
Pires ressalta que a maior dificuldade para tratar a doença no Brasil é falta de equipamentos que façam a dosagem dos aminoácidos no sangue. “Há também a necessidade de técnicos treinados para fazer e interpretar os resultados desses exames”, complementa. A descoberta da doença pode se dar em qualquer fase da vida, mas, como a leucinose é hereditária, o diagnóstico no pré-natal ou por meio do teste do pezinho pode tornar o tratamento precoce e, portanto, mais eficiente.

Já se sabe que a doença ocorre devido a mutações nos genes BCKDHA, BCKDHB, DBT e LDN. A condição de repasse é recessiva. Por isso, faz-se necessário que o pai e a mãe do bebê tenham esse genoma. Ainda assim, há 25% de chance de o filho herdá-la. A doença costuma se manifestar do quarto ao sétimo dia após o nascimento. Nos casos de surgimento tardio, pode ser provocada por situações em que há maior necessidade do corpo de usar energia, como uma gripe, uma infecção, uma vacinação ou um jejum prolongado.

Valdo Virgo / CB / DA Press
Clique para ampliar e saber mais sobre a leucinose (foto: Valdo Virgo / CB / DA Press)
O sinal da existência da doença em qualquer idade é um odor adocicado da urina, semelhante ao do xarope de bordo. Pires recomenda que um especialista seja procurado quando percebido esse sintoma. “Pessoas com a leucinose que não recebem o tratamento precoce evoluem com um quadro neurológico desfavorável que pode incluir irritação, edema cerebral, convulsões, alterações no tônus muscular, coma e óbito”, alerta o especialista em genética.

Ataque à mielina
É uma doença genética caracterizada pela destruição da bainha de mielina, a película que protege os nervos e é responsável pela transmissão dos impulsos nervosos. Há mais de 30 tipos de leucodistrofias, todas apresentam um padrão progressivo da doença, fazendo com que os comprometimentos se agravem ao longo da vida. Como afeta o Sistema Nervoso Central, pode ter como sintoma a perda da visão e da audição e a dificuldade para andar, entre outras sequelas.

Duas perguntas para: Idário Santos, autor do livro Uma doce odisseia

Como foi o caminho do diagnóstico da leucinose em seu filho até a cura da doença?
Meu filho mais novo, Arthur, manifestou a doença assim que começou a tomar o leite materno. Ele tinha crises convulsivas e entrou em estado de coma. Morávamos em Petrolina (PE) na época e acabamos indo ao Ceará para buscar uma solução no terceiro dia de vida dele. Da primeira vez, os médicos diagnosticaram a doença errada e o remédio (prescrito) não resolveu nada. Depois que descobrimos a leucinose, nos mudamos para Porto Alegre, onde havia melhores tratamentos. Lá, o meu filho teve uma melhora enorme, mas ainda não era o ideal. Descobrimos, então, que a melhor clínica funcionava nos Estados Unidos e fomos para lá mesmo sem dinheiro. Nosso filho teve apoio médico, conseguiu patrocínio para um transplante de fígado e, depois de muita resistência e de levar o caso para o Supremo Tribunal Federal, conseguimos que o Sistema Único de Saúde pagasse pelo transplante. Hoje, Arthur está curado.

Essa dificuldade é comum nas famílias que enfrentam a leucinose?

Enchemos o peito para dizer que Arthur foi o primeiro brasileiro curado da leucinose. Ainda assim, quero tornar essa odisseia ainda mais doce. Administro o grupo Maple Syrup Urine Disease, que ajuda famílias do mundo todo a encontrarem tratamentos e a cura da leucinose. Também escrevi o livro Uma doce odisseia para mostrar a famílias desamparadas e que sofrem com a desinformação, como nós, que existe uma solução. Além disso, queria aumentar a visibilidade para doenças raras, que geralmente são menosprezadas pelo poder público.

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