Ginecomastia: homens sofrem com o crescimento das mamas

De bullying na escola, no caso de adolescentes; a alvo de piadas, para jovens e adultos, a principal consequência da doença é de cunho estético. Conheça histórias de quem passou pela cirurgia corretiva e tire suas dúvidas sobre a ginecomastia

por Valéria Mendes 28/05/2014 09:00

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L., de 13 anos, jogava futebol com os vizinhos na rua quando, ao chutar a bola, acertou acidentalmente um idoso que passava pelo local. “Vou comprar um sutiã para você guardar essas suas mamas grandes”, gritou o homem de aproximadamente 80 anos. Sem saber como reagir à agressão, mas sufocado com o acúmulo de episódios de bullying que sofria desde os 10, o adolescente caiu no choro e decidiu que, a partir daquele dia, não jogaria mais bola com os colegas. Inconformada, a mãe, T. R. S. decidiu denunciar a atitude do homem que mora no mesmo bairro que ela e o filho e formalizou a queixa em uma delegacia de Belo Horizonte. Vítima e agressor se encontraram novamente diante das autoridades que cuidaram do caso, o homem pediu desculpas e a mãe de L. perdoou a multa que ele teria que pagar. “Eu queria apenas que ele soubesse que agiu errado”, declara a assistente social, de 51 anos.

O episódio culminou com a decisão pela cirurgia corretiva. O estudante L. sofria de ginecomastia bilateral e, em abril deste ano, passou pelo procedimento cirúrgico. Tímido, o adolescente não quis dar entrevista, mas mandou um recado pela mãe: “Diga que estou muito feliz”. T. R. S. conta que o filho sempre quis solucionar o problema. “A iniciativa foi totalmente dele. Antes disso, já separava reportagens para que eu lesse”, recorda-se. A assistente social pede aos pais que escutem atentamente os filhos e que se abram para ouvir com cuidado o que os aflige. “Qualquer que seja o motivo de bullying, tem que ser respeitado. Os jovens merecem a nossa consideração”, defende.

Mesmo tendo que se afastar da escola no período de recuperação da cirurgia, foram 30 dias de repouso, as notas de L. não sofreram impacto algum. “A auto-estima dele está lá em cima, tudo melhorou. Agora, ele só compra camisa apertada”, revela a assistente social. A correção não passou despercebida pelos colegas de turma que aprovaram o resultado, segundo relato da mãe. “Ficou muito bom, ele já não aguentava mais aquilo. Ele se sente muito melhor agora. É preciso ter consciência que se trata de uma doença, encarar o problema e buscar a solução”, acredita a mãe do adolescente.

Arte: Soraia Piva
(foto: Arte: Soraia Piva)
A ginecomastia é uma anormalidade benigna passível de correção que se refere ao aumento das mamas em homens. É identificada por um excesso de pele, gordura e glândula mamária que pode ocorrer dos dois lados (bilateral) ou apenas um (unilateral). Segundo o mastologista e presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia Regional Minas Gerais, Clécio Lucena, a doença se confunde muitas vezes com a lipomastia, que se trata apenas do acúmulo de gordura na região. “Se a pessoa emagrece, diminui o volume da mama. Nesses casos, é possível reverter o quadro com medidas não cirúrgicas como, por exemplo, provocar o crescimento da musculatura do tórax com a musculação”, diz.

Apesar de a consequência principal ser de cunho estético, a ginecomastia é uma patologia. Segundo Clécio Lucena, não existe medicação para regredir o tamanho das mamas. Mesmo assim, a intervenção cirúrgica não é recomendada de imediato. “É preciso avaliar o quanto o problema repercute no dia a dia do paciente a ponto de levá-lo a passar por situações constrangedoras”, pondera.

A cirurgia do empresário de Felixlândia, Maruardem Pereira, 36 anos, é recente: 29 de março. Segundo ele, aos 10 anos, sua mama direita começou a se desenvolver. “Eu não tinha coragem de tirar a camisa na frente das pessoas e nunca procurei nenhum especialista porque tinha medo de descobrir algo grave”, relata. Clécio Lucena afirma que não é incomum homens adotarem essa postura. “Em tese, o problema não aumenta a chance de o paciente desenvolver outras doenças e também não existe relação entre ginecomastia e câncer de mama”, afirma o especialista. No entanto, a desinformação leva a conclusões equivocadas.

Para despistar o problema, o empresário que é casado e pai de um menino de 10 anos, conta que sempre usou blusas folgadas. “Foi depois dos 20 anos que o problema começou a me deixar muito incomodado. Achava ridícula aquela imagem”, diz.

Arquivo Pessoal
Ginecomastia bilateral (foto: Arquivo Pessoal )
Adepto do futebol de final de semana, sofria quando era escalado para o time dos “sem camisa”. “Eu simplesmente não jogava”, confessa. A atitude de um conhecido da cidade onde mora, de 15 mil habitantes, era que faltava para que Maruardem procurasse a ajuda de um especialista depois de tanto tempo tentando esconder de todos, inclusive da mãe, a imagem que tanto repelia. “Esse conhecido também tinha ginecomastia, fez a correção cirúrgica e me explicou que era tranquilo”, diz. Com o apoio da esposa, levou a decisão adiante. “É uma liberdade muito grande, me sinto como um passarinho que estava preso na gaiola e foi solto”, resume o empresário.

Causas
A ginecomastia é causada por um desequilíbrio hormonal, mas não é uma associação meramente quantitativa. “A mama do paciente pode, por exemplo, ter sensibilidade exagerada à quantidade normal de hormônios produzidos pelo organismo”, explica Clécio Lucena. Outra hipótese é o homem ter alguma doença que provoque o aumento da produção de hormônios. Atualmente, uma associação preocupante é o uso de anabolizantes e suplementos usados para alcançar a hipertrofia muscular e que desencadeariam a patologia. Além disso, alguns antibióticos e uma lista enorme de substâncias para tratar a hipertensão e a gastrite, segundo o mastologista, têm efeito no crescimento das mamas em homens. Estudos também comprovam a relação entre o consumo de álcool e o uso de maconha e cocaína com a ginecomastia.

Apesar de muito raro, faz parte do protocolo de investigação da causa da doença descartar a hipótese de tumor no testículo, pulmão ou fígado. No entanto, o presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia Regional Minas Gerais afirma: “a maioria dos homens com ginecomastia não têm nenhuma causa conhecida”. Segundo ele, o paciente não costuma relatar o uso de substâncias e, a omissão da informação, atrapalha a conclusão do diagnóstico.

Incidência na população
Clécio Lucena diz que 80 a 90% dos adolescentes terão a ginecomastia chamada de puberal. “É reversível, transitória e se caracteriza por uma pedra no peito, com sensação dolorosa. Passada essa fase, regride e estabiliza”, explica.

Arquivo Pessoal
Ginecomastia unilateral (foto: Arquivo Pessoal)
Nos idosos, a incidência também é alta: entre 60 e 70%. “A ginecomastia senil aparece durante a andropausa, com queda na produção dos hormônios masculinos. Nesse caso, não é reversível e pode tanto se estabilizar ou crescer”, afirma o mastologista.

No caso da ginecomastia patológica, que se caracteriza por alguma alteração hormonal, o médico diz que é imprevisível em termos quantitativos. “Não existem parâmetros objetivos”, pontua.

Tratamento
Clécio Lucena diz que, no início da doença, o incômodo para o homem não se restringe ao volume das mamas. “Na fase inicial, nos primeiros quatro meses, é desconfortável. O tamanho e a aparência ainda não incomodam, mas o paciente sente dor”, resume. Nesse período, é possível estabilizar o estímulo hormonal – que está provocando o crescimento da mama – e acabar com a dor com o uso de medicamentos específicos.

Passada essa fase, a abordagem cirúrgica pode ser indicada nos casos dos pacientes que se sentem constrangidos socialmente. “Conviver com o problema, ser alvo de piadas, não tirar a camisa em público são condições psicossociais que podem levar o homem a optar pela cirurgia corretiva”, diz o mastologista.

O pós-operatório dura de 15 a 30 dias e os cuidados são os mesmos de uma cirurgia mamária tradicional, sobretudo o repouso dos braços.

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