Como tomar uma decisão? Livro que será lançado nesta quarta-feira em BH discute a arte da escolha

A autora ficou cega em função de uma doença degenerativa e viu sua perspectiva mudar. Saiba mais sobre esse processo, que pode trazer alegria ou sofrimento, pode ser simples ou muito complicado

por Letícia Orlandi 27/05/2014 14:10

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É mais fácil escolher entre muitas opções ou com menos alternativas? (foto: sxc.hu)
Uma escolha simples: comprar um sorvete. Pesquisadores montaram duas mesas, uma com seis sabores diferentes; outra com 24. Embora as pessoas sentissem mais atração pela mesa com mais opções, a mesa menor resultou, de longe, em mais vendas – 30% dos participantes resolveram comprar um dos seis sabores; enquanto apenas 3% tiveram essa inclinação diante de 24 sabores.

Essa é uma das experiências relatadas no livro 'A arte da escolha', que será lançado nesta quarta-feira em Belo Horizonte. A autora é a filha de imigrantes indianos radicada nos EUA Sheena Iyengar, professora da Columbia Business School e finalista do Financial Times Business Book of the Year.

Partindo do princípio de que todos os animais desejam ter algum tipo de controle sobre o ambiente, mas a espécie humana sofisticou e diversificou as maneiras de se fazer isso, a autora aponta a necessidade definir melhor os objetivos e evitar a procrastinação, principalmente, em decisões importantes. “Muitos de nós não gastam tempo suficiente para pensar em seus objetivos, ainda que de curto prazo. Qual é o melhor cenário e qual é o pior cenário que posso alcançar? Se eu alcançar isso ou aquilo, poderei viver bem assim? Na rota da procrastinação, em resumo, está o medo. Sempre temos medo de fazer a escolha errada”, explica a autora.

Por que fazemos isso? Não definimos objetivos, adiamos decisões? “Porque temos medo de aceitar nossos limites. Porque temos medo de aceitar que continuaremos pobres (de dinheiro), por exemplo, mas podemos ter uma boa vida mesmo assim. É duro identificar, alinhar e medir seus objetivos, de acordo com os níveis de felicidade esperados”, pondera.

Tirania
A presença de muitas opções não garante que você poderá escolher melhor. Podem ser apenas alternativas semelhantes, envolvidas em embalagens distintas. “Quanto mais opções nós temos, mais nós sentimos que temos de fazer a escolha perfeita. É a tirania da escolha. Em muitas culturas, a ideia de abrir mão de algumas opções – que passam a ser definidas pelos governantes - é muito bem aceita. Já na América, os sentimentos em relação a a essa concessão são bem mais confusos”, esclarece a autora, revelando que a escolha não é, por conseguinte, algo tão inato assim, e pode ser aprendida culturalmente.

Divulgação / sheenaiyengar.com
'Adiamos nossas decisões porque não queremos aceitar nossos limites. O medo está na rota da procrastinação', diz a autora, filha de imigrantes indianos radicados nos EUA (foto: Divulgação / sheenaiyengar.com)
Sheena Iyengar vivenciou universos culturais bastantes distintos e conflitantes, e conduziu várias experiências com pessoas de diferentes países para entender se o excesso de opções liberta ou oprime, entre outras análises. Cega em função de uma doença degenerativa, suas próprias escolhas passaram a ser feitas, em várias situações, a partir da descrição e do olhar de outras pessoas – o que é bem peculiar, considerando uma sociedade cada vez mais visual. Isso acrescentou outra perspectiva aos estudos e ao livro 'A arte da escolha'.

A obra já foi traduzida em 13 países e procura desconstruir a ideia, um tanto quanto cruel, de que a felicidade está ao alcance de todos, basta saber escolher. “O interessante do texto de Sheena é que, sem fazer julgamentos morais ou de qualquer outra sorte, ela deixa bem claro que não temos garantia nenhuma. Em certa medida, a escolha é um tiro no escuro”, destaca a psicanalista e especialista em comportamento humano Valéria Evangelista Guimarães, que media, nesta quarta-feira, um debate em torno da publicação.

A felicidade, lembra a psicóloga, é muito subjetiva, mas está ligada em parte à possibilidade de escolher. “O problema é ver a escolha como ponto de chegada, e não de partida. Quando desistimos da ideia de que a felicidade é um estado constante e enxergamos sua presença nos pequenos momentos, as decisões passam a ser vistas de forma diferente. Uma escolha leva à outra, e assim seguimos nessa ciranda”, acrescenta Valéria.

Sofrimento
O curioso é que a angústia está tanto no 'excesso' de opções quanto na impossibilidade de escolher. “Esse sentimento, sim, é inerente, e pode fazer com que a pessoa tente uma saída 'mais fácil' ou uma forma de escapar, em vez de vencer a angústia”, alerta. A capacidade de arcar com as consequências futuras é que torna a decisão um ponto de partida para mudar um dia da vida, um mês, ou toda a trajetória futura.

Divulgação
Livro será lançado com bate-papo nesta quarta-feira, em Belo Horizonte (foto: Divulgação)
E os critérios que usamos para escolher? “Somos influenciados o tempo inteiro – pela sociedade, pela cultura, pela educação que recebemos, pelos meios de comunicação. Essa modulação é muito variável. Temos uma crença de que sempre escolhemos pelo nosso desejo e/ou pela nossa razão. Como explicar escolhas que nos prejudicam, então?”, levanta a psicóloga.

Não é tão simples assim, portanto. Os cidadãos, que vivem em sociedade, sempre terão que reprimir uma série de desejos e deverão pautar boa parte de suas escolhas, mesmo as mais simples, pelo caminho da maioria, dos grupos a que pertencem. “Em algumas culturas, se você apresentar oito variedade de xampus, a pessoa verá apenas uma escolha – um xampu. Em outras sociedades, ela verá oito opções bem diferentes. Se até esse cenário simples é visto de forma tão diferente, isso reforça que não existe escolha certa ou errada, como a autora demonstra no livro”, explica Valéria.

No mundo em que vivemos, é comum que a angústia relacione-se, em muitas ocasiões, ao excesso de opções. “Isso é recorrente no consultório – o conflito entre abandonar os estereótipos construídos ao longo da vida e avaliar as possibilidades que se abrem. Quando deixamos a fase do desejo infantil e passamos a avaliar benefícios e custos, somos responsáveis pelas escolhas, não podemos mais delegar ao outro”, pontua. “Isso vai desde a decisão entre beber e dirigir até o fim de um relacionamento amoroso. Uma pessoa que bebe, dirige e causa um acidente grave está preparada para arcar com a dor de uma família?”, exemplifica a especialista.

Autoconhecimento
O que falta? Segundo Valéria, a escuta. E o hábito de ouvir foi o que Sheena Iyengar soube colocar em prática, até mesmo porque não podia contar com o sentido da visão. “Quando nos escutamos melhor - geralmente é isso que se faz na terapia e na análise, por exemplo – temos mais argumentos para justificar nossas escolhas. Mas hoje temos muita 'falação' – ao telefone, nas redes sociais, e-mails, ao vivo – e pouca escuta verdadeira. Tudo é falado e deletado muito facilmente”, detalha. O resultado é um certo 'abandono' de si mesmo.

Por outro lado, quem decide ficar mais perto de si mesmo não é melhor que ninguém, e nem necessariamente vai 'acertar' mais, lembra a psicóloga. “Mas a pessoa passa a se sentir mais confortável em todas as suas relações e, é claro, em suas escolhas”, conclui.

Lançamento
A Arte da escolha, de Sheena Yengar

Bate-papo mediado pela psicóloga Valéria Evangelista Guimarães, com convidados especiais
Data: 28 de Maio de 2014, quarta-feira
Hora: 19h às 20h
Local: Fnac - BH Shopping

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