Especialistas alertam para relação entre o sofrimento no trabalho e o suicídio na França

País acumula ausências longas no trabalho por doença ou esgotamento profissional

por AFP - Agence France-Presse 27/05/2014 15:20

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Ela fala com a voz impressionada de quem, depois de um choque, ainda duvida do que viveu: "Eu era uma pessoa ativa e jovial, mas tive vontade de me jogar pela janela", afirma Fabienne Godefroy, ex-funcionária do grupo La Poste, os correios franceses.

Os empregados de empresas privadas na França estão cada vez mais expostos aos riscos psicológicos do ambiente supercompetitivo, à pressão sobre o ritmo de produção e ao assédio moral. Escritórios de especialistas como o "Observatório do Estresse", criado há alguns anos para alertar as autoridades para este problema, tentam prevenir os riscos.

Embora a França seja um dos países onde os assalariados estão mais protegidos pela lei e pelos sindicatos, sobretudo nas grandes empresas, são cada vez mais frequentes as longas baixas por doença, por esgotamento profissional ("burn out") e os suicídios.

"Sim, querer se suicidar devido ao trabalho é algo que existe", afirma Fabienne Godefroy, de 41 anos, vítima durante dois anos de assédio moral e sexual em seu escritório dos correios em Toulouse. Ela sofreu de anorexia severa (perdeu 30 quilos) e uma forma de paranoia. Há meses está de licença médica e é atendida por dois psicólogos. A profissional conta que seus chefes a observavam constantemente, faziam comentários obscenos direcionados a ela nas reuniões e que recebia ligações anônimas em casa. O assédio, segundo ela, a fazia se sentir como "um animal encurralado".

Onda de suicídios na France Telecom
O "mal do trabalho" tomou brutalmente a França em 2008-2009, com uma onda de suicídios de funcionários da companhia telefônica France Telecom (atualmente Orange).

No total, 35 funcionários se suicidaram, alguns deles diante dos colegas nos próprios locais de trabalho, deixando mensagens que acusavam os serviços de recursos humanos de aterrorizar os trabalhadores com mudanças que não levavam em conta suas competências profissionais.

Um deles se jogou de uma ponte. Uma mulher de 32 anos se atirou de uma janela do edifício da empresa, poucos dias depois de outro funcionário tentar se suicidar cravando uma faca no abdômen em plena reunião de trabalho quando soube da supressão de seu cargo.

"A instauração de um ambiente supercompetitivo e a pressão do mercado desestabilizam os funcionários", afirma Pierre Morville, porta-voz do Observatório do Estresse, criado pouco antes da "crise de suicídios".

Em julho de 2012, Didier Lombard, presidente da France Telecom entre 2005 e 2010, foi acusado de assédio moral, algo inédito até então na França.

De acordo com o Observatório do Estresse, formado por sindicalistas e cientistas, ocorreram dez suicídios relacionados ao trabalho desde o início do ano.

De acordo com Morville, a concorrência feroz do setor das telecomunicações e o plano de demissões da Orange - 30.000 demissões até 2020 sobre um total de 100.00 funcionários, a maior supressão de empregos em uma empresa francesa em duas décadas - explicam em parte o mal-estar dos funcionários do grupo, no qual o Estado tem 27% de capital.

Uma investigação da Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho, publicada em 2013, indica que em 31 países europeus o estresse no trabalho é um fenômeno considerado comum por mais de 50% dos funcionários. As causas citadas com maior frequência são as reformulações, a insegurança no emprego, a sobrecarga de trabalho e o assédio. "O sofrimento físico que antes estava relacionado à produção em rede se transformou em um sofrimento mais moral, mais íntimo", explica Morville.

Os especialistas ressaltam que os problemas não são pessoais, mas de organização. Os Comitês de Higiene e Segurança no Trabalho, instituições obrigatórias na França para as empresas de mais de 50 funcionários, tentam identificá-los. Em setembro passado também foi criado um "Observatório Nacional do Suicídio".

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