Mineira cria página comovente para ajudar o pai a conseguir um emprego

Carolina Furtado conta de forma bem-humorada, realista e informal sua história afetiva com o pai, para descrever o caráter, a competência e o compromisso dele com a profissão. Paulo, de 61 anos, está desempregado há nove meses

por Letícia Orlandi 21/05/2014 08:40

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'Meu pai é um grande profissional e, ao longo dos meus 29 anos, me inspirou para que eu, um dia, também fosse. Só que, em contrapartida, ele é um péssimo 'marketeiro', sempre modesto e humilde', diz Carol Furtado. Na foto, com os pais, Paulo e Fátima (foto: Arquivo Pessoal)
O dia dos pais é só em agosto, mas o pedido dessa filha tem urgência. Publicada nesta terça-feira, a página ‘Meu pai não merece um emprego?’ (http://meupainaomereceumemprego.com.br/), criada pela designer belorizontina Carolina Furtado, apresenta de forma diferente o currículo do especialista em desenho técnico de arquitetura e topografia Paulo Furtado, de 61 anos. De forma emocional, Carol relata as brigas e desentendimentos causados em casa pela rotina do pai, com seus hábitos de sujeito muito devotado ao trabalho e ao valor do compromisso, do horário e do respeito.

A razão da página tão inusitada é simples e real: Paulo Furtado está desempregado há nove meses. Como ele mesmo define, as economias acabaram e o fantasma da época em que foi obrigado a viver de bicos por cinco anos volta a assombrar. “Passei a viver a angústia dele. Há alguns dias, quando fui à casa dos meus pais, achei que estava muito magro e abatido. Fiquei triste e, me sentindo impotente, fiquei pensando como poderia ajudar. Se não tenho dinheiro sobrando nem contatos influentes na área de trabalho dele, agarrei-me ao que tenho – criatividade e amigos”, resume a designer, de 29 anos. “Meu pai é um grande profissional e, ao longo dos meus 29 anos, me inspirou para que eu, um dia, também fosse. Só que, em contrapartida, ele é um péssimo ‘marketeiro’, sempre modesto e humilde, vive me podando quando eu conto seus feitos profissionais. Meu pai merece uma chance, e essa foi minha forma de dizer isso ao mercado de trabalho”, lembra.

Carol reconhece três fatores que dificultam a recolocação do pai: o setor específico em que ele trabalha, que enfrenta crises de investimento no Brasil; a idade e também a falta de um curso superior. “Acontece que ele é um excelente profissional, que aprendeu o que faz em diversos cursos técnicos e ao longo de décadas de experiência. Eu sei disso, mas muita gente não sabe. Achei que ele não merecia ser só mais um número na pilha de currículos”, descreve.

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'Se não tenho dinheiro sobrando nem contatos influentes na área de trabalho dele, agarrei-me ao que tenho - criatividade e amigos', resume a designer (foto: Arquivo Pessoal)
Antes de começar a campanha digital, Carol recorreu aos amigos publicitários para uma primeira avaliação. “Como eu estava envolvida emocionalmente na questão, tive medo ser uma ideia muito absurda. Queria uma opinião externa. Liguei para um amigo, que me incentivou e mandou referências de redação. Meus colegas deram sugestões. Um dos diretores da agência sugeriu colocar a interrogação no título – eu havia pensando em colocar de forma afirmativa, mas ele ponderou que os empregadores são muito práticos e têm pouco tempo, então precisam ser instigados, seria legal colocar uma interrogação na cabeça deles”, conta a designer.

Depois de chegar ao formato final, Caro mostrou a página ao pai. Diante da reação positiva, emocionada e surpreendente dele (ela achava que poderia receber desaprovação, uma vez que o pai é muito discreto), o site foi divulgado nesta terça-feira no perfil pessoal da designer no Facebook. Em poucas horas, foram mais de 300 compartilhamentos, três mil acessos à página e muitos contatos de amigos e pessoas desconhecidas. “Vou passar para o meu tio” “Conheço uma pessoa que precisa de projetos assim” e outras mensagens promissoras ou de 'simples' solidariedade.

A filha vê o pai como uma pessoa que, além de precisar da renda, é muito ativa e está longe da aposentadoria. Usuário de computador desde o início dos anos 1990, quando as máquinas nem eram tão comuns nas empresas brasileiras, Paulo agora aprendeu a atualizar seu currículo em sites especializados, como o Linkedin. “A página virou um ponto que reúne nosso passado, presente e, assim espero, futuro”, diz, otimista, Carolina.

A energia só falta no mercado
O personagem principal da página, Paulo Furtado, disse ao Saúde Plena que o desemprego pode ser muito mais atribuído ao momento que o mercado vive do que à idade. Nos últimos anos, ele trabalhou em empresas prestadoras de serviço na área de energia elétrica e mineração. “A configuração nacional e internacional tem provocado demissões nos dois setores. Há pouco tempo, entrei em contato com colegas da última empresa em que trabalhei e soube que eles continuam demitindo, que os investimentos rarearam”, relata. Esse fôlego para crescer, que falta ao setor econômico, Paulo sempre teve de sobra.

Aprovado em primeiro lugar em sua turma do curso de desenho de arquitetura pelo Senac, Furtado dominava o mundo das pranchetas, do papel vegetal, do normógrafo (espécie de régua vazada para desenhar letras) e das canetas nanquim. Apesar de habituado ao trabalho artesanal, tratou logo de se atualizar quando vieram os programas de desenho técnico para computador, a exemplo do Autocad.

Reprodução / Internet
Página já teve mais de 300 compartilhamentos e três mil acessos, em poucas horas (foto: Reprodução / Internet)
Em 1990, fez outro curso pelo Senac e não dispensou as aulas de aperfeiçoamento nas várias empresas em que trabalhou, direcionadas às atividades específicas – terraplenagem e topografia, por exemplo. “Foi uma formação na prática também. Ao longo de 30 anos, vi tudo passar das cadernetas para a tela do computador. No início, a adaptação não foi fácil. No papel, quando eu fazia trabalhos extras nas horas vagas, gastava dois fins de semana em cada projeto. Meu primeiro desenho totalmente feito no computador demorou cinco fins de semana para ficar pronto. Eu achei que ia levar muito mais tempo. Depois desse dia, fechei a prancheta e ela virou relíquia”, conta, animado.

Paulo revela que esse conhecimento prévio, do papel, faz diferença na execução do trabalho em meio digital. “A base que tenho é muito ampla, permite flexibilidade e versatilidade para aplicação de tudo que sei e aprendi ao longo dos anos, com visão global do projeto. Essa perspectiva só vem com o tempo. Tem muita gente jovem e dedicada por aí, mas essa visão vem com a experiência”, afirma.

Carolina é filha única e o ‘xodó’ do pai. “Achei a página excelente, fiquei emocionado. Ela viu como estou angustiado, participa da minha ansiedade. Tenho consciência de que sou um trabalhador eficiente pelos elogios e resultados em todos os lugares pelos quais passei. E espero que, no meu setor, ainda prevaleça a máxima de que ‘panela velha é que faz comida boa’. Eu nem era o mais velho da última empresa em que trabalhei, é um ramo que valoriza a experiência”, conta.

Paulo diz que não pensa em se aposentar. Com a saúde boa e jeitão de 50 anos ("não gosto de entrar em filas preferenciais, porque ninguém acredita que tenho mais de 60"), aposta na laranja como segredo da longevidade. “É uma brincadeira que tenho com a minha filha”, acrescenta. “Quero é fazer um pé-de-meia e afastar o fantasma que me assombrou quando passei cinco anos fazendo bico, sem saber quando ia receber”, relata.

Depois da nossa entrevista, na tarde desta terça-feira, ele já ia conversar com outra Letícia, esta arquiteta, que chegou até ele por meio da página criada por Carol. Otimistas verão aí um começo.

Idoso jovem, em plena forma
Um estudo do Institute of Economics Affairs (IEA), de Londres, na Inglaterra, apontou que a aposentadoria com a idade mínima necessária leva um “drástico declínio da saúde” a médio e longo prazos. De acordo com o trabalho, as pessoas deveriam trabalhar por mais tempo, pelo bem da saúde física e mental. A pesquisa comparou dois grupos e indicou que há uma pequena melhora na saúde e na qualidade de vida imediatamente após a aposentadoria, mas uma queda significativa no funcionamento do organismo desses indivíduos a longo prazo. A aposentadoria pode elevar em 40% as chances de se desenvolver depressão, enquanto aumenta em 60% a possibilidade do aparecimento de um problema físico, tanto em homens quanto mulheres.

Jair Amaral/EM/D.A Press
'Um jovem idoso de 60 anos tem plena capacidade. É fundamental sempre ter metas, desejos e sonhos', diz Anna Cristina Pegoraro, da PUC Minas (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
O brasileiro se aposenta, em média, com 53 anos, idade em que atinge o auge de sua vida profissional, segundo especialistas. Não é à toa que as salas de aula da professora de psicologia de diversos cursos da PUC Minas, Anna Cristina Pegoraro de Freitas, recebem cada vez mais alunos na faixa dos 50 e 60 anos. A gerontóloga acredita que vivemos um conceito de transição em relação ao conceito de envelhecimento. “Em países em desenvolvimento, é considerado idoso aquele que passou dos 60. Mas a determinação do momento em que se inicia velhice é uma das questões mais difíceis de se responder”, pondera.

Por isso mesmo, vemos pessoas jovens (de idade) com estilo de vida e falta de estímulos característicos do fim da vida. E pessoas de 80 anos que fazem absolutamente de tudo - trabalham, dançam, viajam, ensinam, aprendem. “São indivíduos que vivem intensamente e desafiam o estigma da nossa sociedade sobre a velhice. O direto à dignidade e à plenitude não acaba quando você envelhece”, ressalta a professora.

Se os países desenvolvidos já estão velhos, aqueles em desenvolvimento estão em franco envelhecimento. “O IBGE tem uma projeção muito ilustrativa. Hoje nós temos 30 idosos para cada 100 crianças. Em 2050, serão 172 idosos para cada 100 crianças. A inversão da pirâmide populacional está em curso e nós todos teremos que lidar com isso em todos os setores da sociedade, em qualquer profissão”, alerta Anna Cristina.

Se temos que nos adaptar à convivência com pessoas mais velhas em todos os segmentos, a iniciativa de Carol Furtado é mais do que pertinente, na visão da pesquisadora. “Aos 61 anos, ele pode ser considerado um idoso jovem, que está fisica, emocional e mentalmente muito bem. Passa da hora de o mercado ter um olhar diferenciado e superar o preconceito, valorizando a experiência. Quem percorreu 30, 40 anos de profissão pode somar a qualquer equipe profissional e viver de forma mais satisfatória. Todos ganham”, orienta.

Novidades bem-vindas, sempre
Ter projetos e planos, conviver com pessoas e coisas novas. Anna Cristina coordena, dentro da universidade, o projeto de extensão PUC Mais Idade, que oferece atividades em diversas áreas, em sete unidades. “Entre os participantes é fácil observar que ampliar o conhecimento é fundamental para continuar ativo no mercado de trabalho. E é também um direito previsto no Estatuto do Idoso – frequentar cursos de aperfeiçoamento, estudar e trabalhar são garantias que fazem parte do texto da Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003”, destaca.

A observação foi feita também durante uma pesquisa com os professores universitários que tinham idade para se aposentar e continuavam trabalhando. “A grande maioria trabalha ativamente e não se sente como alguém que não tem condições de contribuir e aprender. Uma colega completou seu doutorado aos 65 anos. Cada vez mais alunos nessa faixa estão nas salas de aula”, relata.

Outro segredo é sempre manter projetos e sonhos. O erro é ter orgulho de ‘pensar como jovem’ porque tem sonhos e desejos. “É da natureza do ser humano, e não só do jovem, sonhar, planejar, desejar coisas novas. Lembrando o mestre Rubem Alves, é o preconceito que diz que pessoas mais velhas não sonham mais, se aposentam”, ensina a professora. Anna Cristina recomenda o livro de crônicas “Desfiz 75 anos”, do autor mineiro que completa 81 anos em setembro.

Quem é velho?
Na medida em que vamos mudando de faixa etária, nossa visão sobre a velhice muda. “No terceiro Fórum dos Direitos do Idoso, realizado aqui na PUC no início de maio, brincamos que velho é aquele que tem mais de 20 anos que você. Só que eu tenho uma amiga de 102 anos, completamente lúcida, gosta de ler textos diversos no tablet, está ativa. Precisamos encontrar uma de 122, porque ela não está velha e acabada como a sociedade diz”, afirma Anna Cristina.

Se a medicina já garante a longevidade, é o paradigma da velhice que deve mudar. Não é fácil, mas não é impossível. Há escolas que já mantêm projetos permanentes de valorização dos idosos e do conhecimento que eles detêm, ou seja, de intercâmbio intergeracional. “Em uma palestra que fiz para crianças de 9 anos, estávamos discutindo a preferência para os idosos, os lugares reservados no transporte público. Uma delas levantou a mão para dizer que, em outros países, não é necessária mais a placa de assento preferencial, todos se levantam quando um idoso ou gestante entra. Segundo o aluno, o Brasil ainda ia chegar lá”, relata.

É aí que lembramos também da noção de respeito, citada por Carolina Furtado no currículo afetivo do pai. “Se houvesse outro olhar para os mais velhos, ela nem precisaria ter feito isso. Mas nossa caminhada diante dessa questão etária é lenta. Nos anos 70, me disseram que estudar a velhice era uma coisa mórbida. Hoje, a visão não é mais tão radical e o valor da experiência tem sido resgatado aos poucos. Mas ainda falta respeito em vários segmentos”, conclui Anna Cristina Pegoraro de Freitas.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Sem dúvida, as pessoas tendem a ver somente os campos desnudos da transitoriedade, mas ignoram e esquecem os celeiros repletos do passado, em que mantêm guardada a colheita das suas vidas:
as ações feitas, os amores amados e, não menos importantes, os sofrimentos enfrentados com coragem e dignidade.

A partir disso se pode ver que não há razão para ter pena de pessoas velhas. Em
vez disso, as pessoas jovens deveriam invejá-las. É verdade que os velhos já não têm oportunidades nem possibilidades no futuro. Mas eles tem mais do que isso. Em vez de possibilidades no futuro, eles têm realidades no passado – as potencialidades que efetivaram os sentidos que realizaram, os valores que viveram - e nada nem ninguém pode remover jamais seu patrimônio do passado.

(...) Assim como a vida permanece potencialmente significativa sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis, também o valor de cada pessoa, sem exceção, a acompanha, e o faz porque está baseado nos valores que a pessoa já realizou no passado. Não está subordinado à utilidade que a pessoa possa ter ou não no presente.

(...) Em linguagem figurada poderíamos dizer que o pessimista parece um homem que observa com temor e tristeza que a sua folhinha na parede vai ficando mais fina a cada dia que passa. Por outro lado, a pessoa que enfrenta ativamente os problemas da vida é como o homem que, dia após dia, vai destacando cada folha do seu calendário e cuidadosamente a guarda junto às precedentes, tendo primeiro feito no verso alguns apontamentos referentes ao dia que passou. É com orgulho e alegria que ele pode pensar em toda a riqueza contida nestas anotações, em toda a vida que ele já viveu em plenitude.

Que lhe importa notar que está ficando velho? Terá ele alguma razão para ficar invejando os jovens que vê, ou de cair em nostalgia por ter perdido a juventude? Que motivos terá ele para invejar uma pessoa jovem? Pelas possibilidades que estão à frente do jovem, do futuro que o espera? "Eu agradeço", é o que ele vai pensar. "Em vez de possibilidades, realidades é o que tenho no meu passado, não apenas a realidade do trabalho realizado e do amor vivido, mas também a realidade dos sofrimentos suportados com bravura. Esses sofrimentos são as coisas das quais me orgulho mais, embora não sejam coisas que possam causar inveja.


Viktor Frankl (Viena, 26 de março de 1905 — Viena, 2 de setembro de 1997) médico psiquiatra austríaco, judeu sobrevivente da barbárie nazista, fundou teorias sobre o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência. Trechos do livro “Em Busca de Sentido - um Psicólogo no Campo de Concentração”

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