Vítimas da violência que optaram pelo perdão relatam benefícios de se fazer as pazes com o passado

Na contramão de uma sociedade com sede de ''justiça com as próprias mãos'', pessoas com motivos para se vingar de criminosos escolheram perdoar

por Luciane Evans 18/05/2014 09:23

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Ao menino que rouba, crueldades. Ao homem que estupra, mutilação. À mulher suspeita de fazer mal a uma criança, linchamento até a morte. Inocentes ou culpados, nada disso importa à uma população que se diz descrente das leis e tem feito de tudo em nome da “justiça com as próprias mãos”. Não importa mais se quem apanha é mesmo quem cometeu o crime. Aliás, a violência existe, ainda que a notícia seja apenas um boato. A vingança virou sinônimo de heroísmo, exibido em vídeos que exaltam uma sociedade que não sabe mais perdoar os erros e, muito menos, os “supostos” crimes alheios. “Olho por olho e o mundo acabará cego”, já previa Mahatma Gandhi, para quem o perdão é uma característica dos fortes.

Stephen Eastop/SXC.hu/Banco de imagens
Libertar-se de maus sentimentos é processo que pode demorar e demanda entendimento da situação que gerou o trauma; pessoas que passaram por violência dizem que hoje se sentem leves e em paz (foto: Stephen Eastop/SXC.hu/Banco de imagens)
O Bem Viver foi ouvir aqueles que, na contramão desse desejo de vingança, optaram pelo caminho mais difícil, porém, libertador. São pessoas que reescreveram suas histórias sob outros pontos de vista. Tinham motivos de sobra para terem ódio, rancor e tantos outros sentimentos destrutivos. Mas disseram não à teoria cruel do “olho por olho, dente por dente”. Deram a si e aos algozes de seus familiares uma nova chance para a vida, escolhendo o perdão como uma resposta mais humana e de paz.

 

“É um ato de liberdade. É um movimento gratuito, que não precisa da razão. Quem perdoa se liberta da raiva, do rancor, do ódio e, consequentemente, de doenças que esses sentimentos podem trazer. Não é fácil, porém é heróico, nobre, elevado”, define a psicóloga, mestre em psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutoranda em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Maria Clara Jost.

GRANDEZA

De acordo com ela, a reação na linha do “se me fizer mal, eu faço também” é impulsiva e se assemelha à dos animais. “Se você pisa no rabo de um cachorro, por exemplo, ele reage imediatamente. Porém, a capacidade de perdoar os animais não têm”, diz a especialista, citando o livro 'A condição humana', da filósofa alemã Hannah Arendt. “Para Arendt, o ser humano é o único ser da natureza que, ao perdoar, inicia um ato novo. Quando ele perdoa, ele inaugura um outro movimento, saindo do círculo vicioso”, diz.

Impossível? Não. Foi possível para as mães que, mesmo convivendo com a falta de um filho, perdoaram os assassinos deles. Para o filho que perdoou o algoz do pai. E para a mulher que, mesmo sequestrada e correndo risco de estupro, conseguiu enxergar no trauma sua maior referência para o perdão. São essas histórias que nos mostram que a grandeza desse ato, muitas vezes visto como sobre-humano, existe, é real, traz leveza e, mais ainda, transforma vidas.

 

Jair Amaral/EM/D.A Press
O filho de Heloísa Duarte levou um gato persa para casa um mês antes de morrer, vítima de assalto: hoje ele é o xodó da atriz (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

PARA SEGUIR EM FRENTE

Um fofo gato persa e uma simples gravata. O animal pertence à atriz Heloísa Duarte, de 60 anos, que conta que o felino foi trazido com muito carinho pelo seu filho Madson Vargas, um mês antes de seu assassinato. Já para o empresário Lúcio Flávio Machado, de 43, a gravata lhe traz à memória a infância vivida com o pai, morto a tiros aos 83 anos. Além das boas lembranças e dessas recordações, Lúcio e Heloísa carregam em suas histórias semelhanças. Perderam pessoas que amavam por meio da violência e, mesmo diante do crime, jamais se revoltaram. Tiveram a chance de se vingar, mas optaram pelo perdão como forma de seguirem em frente. “Quem somos nós para querermos justiça com as próprias mãos? Somos todos imperfeitos”, ensina Heloísa.

Difícil passar pela vida sem se ferir, sem machucar ou ser machucado, decepcionar ou ser decepcionado. Todo mundo traz uma história de alguém que, um certo dia, lhe magoou. Nesta reportagem, o Bem Viver buscou o extremo, na tentativa de mostrar que o perdão pode vir de quem menos se espera. “O perdoar é inesperado. Nós, seres humanos, funcionamos muito no ‘toma lá dá cá’”, comenta a psicóloga Maria Clara Jost.

Foi com o “…assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, trecho da tão proclamada oração do Pai Nosso, que a atriz Heloísa deu o primeiro passo para o perdão. Durante o enterro de seu filho, Madson, assassinado em 2003, que ela, ao ouvir as palavras da oração, resolveu reagir. Poucos dias depois, frente a frente com o homem que tirou a vida de seu filho, pediu a Deus que o perdoasse. “No dia em que Madson foi assassinado, nós dois estávamos muito felizes. Era minha estreia como produtora de um espetáculo, e ele estava trabalhando pela primeira vez comigo na produção”, recorda Heloísa.

Quando saíram de um restaurante da Rua Rio Grande do Norte, onde comemoravam o momento de felicidade, Madson e Heloísa ouviram gritos de socorro. “Madson, no impulso de ajudar as mulheres que estavam sendo assaltadas, saiu em direção a elas e um dos assaltantes correu e atirou contra meu filho. Ele foi para o hospital. Rezei muito. Veio a notícia de ele não tinha resistido e eu queria morrer. Era meu único filho, meu parceiro, meu elemento principal na plateia. Mas não tive tempo para o ódio, para a vingança. No enterro, ao ouvir o Pai Nosso, resolvi ir ao encontro do homem que tinha matado Madson. Na cadeia, encontrei-o e disse a ele que iria trabalhar o meu perdão e pedia a Deus que o perdoasse. Ele estava muito assustado e me pedia desculpas”, conta.

Contra a pena de morte, Heloísa cobra leis mais severas, mais educação e mais espiritualidade da sociedade. “Sinto saudades de Madson. O perdão é o passaporte para reconquistar o prazer, a fé, a serenidade e a paz de espírito”, diz, lembrando que todos nós sempre temos que estar perdoando o outro, começando pelas pequenas coisas.

Segundo o autor do livro A arte de perdoar, o psicanalista Moíses Groisman, o perdão não é algo fácil. “Todo ato contra uma pessoa que é vítima produz uma lesão física ou emocional, e desperta em nós o sentimento de revanche, vingança”, afirma, acrescentando que não se perdoa o ato, “que está marcado e não pode ser apagado”. “Perdoamos, sim, a pessoa que o praticou.”

Cristina Horta/EM/D.A Press
Lúcio Flávio Machado perdeu o pai, assassinado aos 83 anos, e guarda com carinho uma gravata que o faz lembrar da infância ao lado dele (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press )
No caso do empresário e diretor-executivo da Associação dos Dirigentes Cristão de Empresas (DCE), Lúcio Flávio Machado, o perdão veio de um processo sem mágoas. Seu pai, Osvaldo, que sempre sonhou com a tranquilidade do campo, depois de sofrer um infarto foi morar sozinho em um sítio perto de BH. Até que, em uma terça-feira de maio do ano passado, a tranquilidade de Osvaldo chegou ao fim.

O caseiro do sítio foi rendido por quatro homens armados, e um dos assaltantes colocou a arma na cabeça do pai de Lúcio. “E de uma forma muito afobada, atirou contra ele. Ele morreu na hora. Os bandidos levaram poucos bens e foram embora”, conta Lúcio, dizendo que seu pai tinha 83 anos, era uma pessoa idosa e não representava risco aos assaltantes. “Foi algo brutal, sem necessidade.”

Lúcio preferiu não conhecer de perto o rapaz que tirou a vida de seu pai. Reconhece que pensou em fazer justiça com as próprias mãos, mas logo a ideia foi descartada. “Não tive mágoas, senti-me tranquilo e sereno. Foi a primeira pessoa que perdi na minha família e acredito que ele perdeu a vida no susto”, afirma, contando ainda que seu perdão veio por esse processo. “Mesmo no momento em que pensei na vingança, meu coração estava tranquilo. Quis ficar com a gravata dele, pois ele gostava de usá-la quando saía do sítio e, além disso, me lembra a infância ao seu lado. Acho que a religião católica me deu a paz e a serenidade que precisei”, garante.

AMAR

A psicóloga Maria Clara Jost diz que o perdão é um jeito de continuar vivendo. “Ao perdoar, há a sensação de liberdade. E é como o amor, para o qual não há razão. Mas quem perdoa não está tirando a responsabilidade do agressor para com o ato que cometeu. No entanto, não podemos entrar no movimento da “mesma moeda”, é preciso uma maior capacidade de amar e perdoar."

Arquivo pessoal
Maria Clara Jost: ''Os infratores não se consideram merecedores de perdão'' (foto: Arquivo pessoal)
Ela afirma que muitas são as pessoas que procuram seu consultório com doenças provindas do ódio e do rancor. “O perdão é um movimento de resgate. Essas pessoas que o concedem estão tirando delas doenças como depressão, úlcera e tantas outras que vêm com esses sentimentos. Por isso, é possível fazer diferente”, defende. 

 

Um perdão para ser dado tem que ser verdadeiro. E não importa, segundo especialistas, se ele vai demorar para vir, mas é necessário que venha, até mesmo para libertar maus sentimentos que trazem prejuízos, tanto para a alma como para o físico e a mente. Por isso, há quem tenha perdoado só depois de compreender melhor todo o contexto de uma situação traumatizante. Outros, precisaram de tempo até para pronunciar a palavra “perdão”.

No próximo dia 27, será lançado em Belo Horizonte o Instituto Míriam Brandão, que terá sede no Bairro Jaraguá, na Região da Pampulha, e dará apoio psicossocial e jurídico às vítimas da violência. O dia 27 foi escolhido porque seria o dia em que Míriam completaria 27 anos. O caso da garota, morta aos 5 anos, chocou o Brasil na década de 1990. Ela foi sequestrada e cruelmente morta por seus sequestradores, que também queimaram seu corpo.

 

“Demorei 14 anos para dizer a palavra perdão”, comenta a mãe da menina, a socióloga Jocélia Brandão. Assustada com a onda de “justiça com as próprias mãos” que tomou conta do país recentemente, Jocélia diz que nunca teve ódio, rancor ou raiva das pessoas que tiraram a vida de sua filha. “Mas não conseguia falar sobre perdão. Só 14 anos depois que disse que os perdoava”, comenta. Ela conta que não foram poucas as vezes que alguém se ofereceu para vingar-se dos assassinos. “Naquele momento, ter aceitado essa proposta seria um grande erro que iria cometer”, afirma.

Beto Novaes/EM/D.A press
A sociólogoa Jocélia Brandão, mãe da menina Míriam, diz que nunca teve ódio, rancor ou raiva das pessoas que tiraram a vida de sua filha (foto: Beto Novaes/EM/D.A press)
Dois anos depois de perdoar, Jocélia encontrou um dos assassinos. “Deus me colocou frente a frente com ele, em um sinal de trânsito. Estava no carro e ele a pé. Ele ficou vermelho e eu tremi muito. Consegui encará-lo. Minhas pernas batiam muito e cheguei a passar mal. Pensei: ‘não é possível que não perdoei’”, recorda. Dois meses depois, a cena se repetiu e ela o viu novamente, no mesmo bairro. “Minhas duas filhas estavam dentro do carro. Pedi a elas que abaixassem a cabeça e disse a elas que o bandido da irmã tinha passado por ali. Ele passou ao lado do carro. Não tive reação alguma, nem passei mal.”

Com o perdão, Jocélia diz ter se sentido mais leve. “ Nesses grandes momentos da minha vida, houve esse amor de Deus comigo. Realmente os perdoei. Mas não sou obrigada a gostar deles. Espero que eles tenham se regenerado”, diz, acrescentando que ver as cenas de linchamento que atualmente rondam as redes sociais lhe amedronta. “São atrocidades sem retorno. As pessoas perdem o controle e começam a acreditar em uma justiça que não existe.”

Essa libertação pelo perdão veio depois de 20 anos para a professora e funcionária pública Joana Angélica de Oliveira, de 56 anos. Sequestrada em 1979, por três homens armados, Joana diz que o trauma tornou-se sua referência para o perdão. “Tinha 21 anos quando esses homens me sequestraram, junto com um amigo. Rodaram conosco por várias ruas da cidade e diziam as atrocidades que fariam conosco. No meu caso, diziam que iriam me estuprar” recorda. Mas, quando dois dos três assaltantes batiam no amigo de Joana, o outro, que lhe apontava a arma, lhe dizia que ao olhar para ela se lembrava da própria irmã. “Estava em estado de choque e sentia muito medo. Ele me pediu que tirasse tudo de valor e lhe entregasse. Quando os outros vieram e disseram que, agora, seria ‘a minha vez’, esse homem me defendeu e brigou com os comparsas, não deixando que me fizessem mal. Mandou que corrêssemos, e assim fizemos”, lembra.

Euler Júnior/EM/D.A Press - 3/2/14
A professora Joana Angélica de Oliveira foi sequestrada por três homens quando tinha 21 anos. Ela buscou terapias e estudo para compreender o que havia ocorrido e hoje se diz mais leve (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press - 3/2/14)
Depois do ocorrido, Joana Angélica sentia medo de tudo. Teve ódio, raiva. “Nunca nos achamos merecedores de nada ruim, mas a vida não escolhe. Se não fosse esse homem, não teria a visão de mundo que tenho hoje. Passei a me proteger e a ter um olhar diferente para a vida.” Joana buscou entender todo o seu trauma, estudando. “Fui para terapias, busquei as religiões e fui compreendendo. Fui ficando mais leve. Na época, as pessoas não acreditavam que eu não tinha sido estuprada. Sofri muito. Mas o perdão só existe quando você compreende as coisas”, afirma, dizendo que somos humanos, mas ainda não sabemos o que é a humanidade.

 

PERDOADO

Quem perdoa se sente mais leve, mais liberto e mais em paz, e quem é perdoado também tem seus benefícios. A psicóloga Maria Clara Jost faz trabalhos com adolescentes infratores e conta que, por se tratar de um ato grande demais, muitos infratores não conseguem acreditar que são merecedores disso. “Mas, para aqueles que aceitam o perdão, há uma mudança. Muitos contam que a partir de um perdão conseguiram mudar suas vidas e acreditar nelas. Outros duvidam, porque já não conseguem crer que podem ser amados por alguém. Mas quando eles descobrem que alguém enxerga neles mais que o bandido, eles fazem uma virada na vida deles”, revela.

Em tempos de barbárie
Nos últimos meses, vários registros de linchamento tomaram conta do noticiário nacional. Segundo o Estado de Minas apurou, por meio de informações divulgadas em portais de notícias, foram 36 casos de linchamentos e espancamentos coletivos este ano em 15 dos 26 estados e no Distrito Federal. Dezenove deles resultaram na morte da vítima. A média é de um caso a cada oito dias. A maioria absoluta ocorreu a partir de fevereiro, logo depois que um adolescente foi espancado por cerca de 15 homens e amarrado nu a um poste no Bairro Flamengo, Zona Sul do Rio, em 31 de janeiro, com repercussão nos portais de notícias e redes sociais.

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