Álcool, a droga lícita que mata 3 milhões de pessoas

Relatório da Organização Mundial de Saúde prevê piora na situação. Especialistas pedem campanhas, como as de cigarro, que alertem a população sobre os perigos das bebidas

por Cristiana Andrade 13/05/2014 10:30

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Uma em cada 20 mortes no mundo está diretamente relacionada ao consumo de álcool, droga lícita que mata mais do que a Aids, a tuberculose e a violência juntos, adverte a Organização Mundial de Saúde (OMS), que teme um agravamento da situação. Mais de 200 doenças estão ligadas ao consumo de álcool, de acordo com relatório da entidade divulgado ontem em Genebra. Em 2012, o uso nocivo do álcool matou 3,3 milhões de pessoas em todo o mundo, contra 2,5 milhões em 2005, segundo a OMS, que lamenta a falta de ação por parte das autoridades durante este período.

Baseado em dados dos 194 países-membros das Nações Unidas, o documento alerta que a bebida não apenas provoca danos diretos à saúde, como aumenta a suscetibilidade a males infecciosos e está por trás da ocorrência de crimes e acidentes. A OMS traçou o perfil de consumo das nações, relatou o impacto da bebida na saúde pública e avaliou as respostas das políticas governamentais. No total, o consumo anual foi de 6,2 litros de álcool puro por ano na população com mais de 15 anos. Contudo, como 38,3% do planeta é abstêmio, calcula-se que os que bebem ingerem 17 litros no período de 12 meses.

Janey Costa / EM / DA Press
Clique para ampliar e saber mais sobre o relatório da OMS (foto: Janey Costa / EM / DA Press)
Segundo o oncologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, André Murad, o organismo como um todo é comprometido naqueles que fazem uso do álcool constantemente, mas é o fígado o órgão-alvo que sofre as maiores repercussões negativas. “Os danos ao fígado vão desde alterações subcelulares, raramente detectadas por exames microscópicos, passam pela esteatose (acúmulo de gordura no órgão), as hepatites, a fibrose (cirrose hepática), até o câncer”, diz. De acordo com Murad, que é vice-presidente da Associação Brasileira Comunitária de Prevenção ao Uso e Abuso de Drogas (Abraço-MG) – entidade voltada para a minimização de vícios, entre eles o tabagismo e o alcoolismo –, o fígado é um dos órgãos mais importantes do organismo, por exercer múltiplas funções.

“Ele produz albumina, para manter o sangue nos vasos; produz fatores de coagulação, além de ser responsável pela produção de hormônios femininos e masculinos. É no fígado também que ocorre a regulação da pressão venosa e arterial do corpo. Então, quando a pessoa bebe muito, tudo isso se desestabiliza. Um outro problema que pode ocorrer em quem faz uso constante do álcool é o surgimento de varizes na parte anterior do esôfago. Daí, quando a pessoa ingere algum alimento sólido, como pão ou carne, ele pode romper essas varizes, causando uma hemorragia que pode ser fatal. Ou seja, a pessoa sangra até morrer.”

Para André Murad, a maioria das pessoas acredita que beber socialmente é normal, mas não é. “Destilados (vodca, aguardente, whisky) são mais causadores de problemas que os fermentados (cerveja e vinho). Na esfera cerebral, o álcool gera prejuízos mental e cognitivos; afeta o coração, podendo provocar insuficiência cardíaca; atinge o estômago, causando úlceras e gastrites; e, associado ao tabagismo, dobra o risco da pessoa desenvolver câncer de cabeça e pescoço, que inclui boca, laringe, faringe, garganta e esôfago”, enumera.

De acordo com o relatório da OMS, uma das razões para o aumento no consumo de álcool é o crescimento da população no mundo. “Com isso, o fardo das doenças atribuídas às bebidas pode aumentar, caso novas políticas de prevenção não sejam implementadas”, alertou o diretor-geral adjunto do grupo de Doenças Não Transmissíveis da OMS, Oleg Chestnov. Outro dado alarmante é que quase 5,9% das mortes (7,6% entre os homens e 4% entre as mulheres) causadas por doenças infecciosas, acidentes de trânsito, ferimentos, homicídios, doenças cardiovasculares e diabetes, entre outras, têm alguma relação com o consumo de álcool. Segundo a OMS, o álcool encurta em cinco anos a vida dos brasileiros. (Colaborou Paloma Oliveto)

Bebida gera também os males psíquicos
As consequências psíquicas do usuário frequente e do usuário crônico do álcool vão de depressão, alterações de memória, atenção e percepção da realidade, envolvimento em brigas, acidentes de trânsito, violência doméstica, a alterações mais graves, como ciúme patológico (quando, geralmente o homem, chega a matar, por acreditar que a companheira o está traindo), demência alcoólica (a pessoa altera sua personalidade), a tentativas de suicídio e mesmo o autoextermínio.

Na opinião do psiquiatra Valdir Ribeiro Campos, especialista em dependência química e membro da Comissão de Controle do Tabagismo, Alcoolismo e Uso de Outras Drogas da Associação Médica de Minas Gerais (Contad/AMMG), é de extrema importância uma entidade como a OMS mostrar esses dados. “Assim como o tabaco, o álcool é outra droga legalizada que causa enormes prejuízos nas sociedades. Acho interessante que esse anúncio ocorra quando vários países tentam legalizar a maconha. Repetiremos o mesmo filme de combate ao vício se isso ocorrer”, opina.

“Inicialmente, o álcool gera uma sensação de bem-estar, de euforia, mas em seguida, ele deprime o sistema nervoso central. Dados da literatura geral (pesquisas científicas) mostram que entre os usuários frequentes de álcool 40% vão tentar se matar ao longo da vida; entre os dependentes, 10% vão conseguir tirar a própria vida”, alerta.

Na visão de Murad e Ribeiro, inicialmente a grande decisão a ser tomada, no âmbito de políticas públicas, é uma grande campanha preventiva para alertar a sociedade sobre os perigos das bebidas alcoólicas. “Ele causa dependência grave. Temos de combater propagandas de bebidas alcoólicas. Nossas crianças e jovens crescem sendo estimulados a fazer uso do álcool, que sempre está associado a figuras importantes, bem-sucedidas na vida, jogadores de futebol e artistas. Quem já tem a dependência, tem que fazer um tratamento médico, medicamentoso e psicoterapêutico, além da mudança de estilo de vida, para que possa vencer a dependência”, acrescenta Valdir Ribeiro.

Para Murad, o ponto da questão do alcoolismo nas sociedades é a educação para a conscientização. “Socialmente, beber é um vício muito bem aceito. Pessoas que não fazem uso do álcool muitas vezes se sentem constrangidas em ambientes sociais. O que ocorre é que nossos pré-adolescentes são estimulados a achar que beber é positivo, que é sinônimo de felicidade, que quem bebe se solta e é mais bem aceito nos círculos sociais. O que está ocorrendo é que adultos e jovens estão bebendo muito, sem controle. A exemplo do tabagismo, que caiu 35% nos últimos 20 anos, acho que temos de tomar medidas drásticas, como a abolição das propagandas de bebidas, hipertaxação para bebidas, fazer a contrapropaganda, falando dos males do álcool no organismo, e punindo severamente para quem vende álcool para menores de idade”, acrescenta.

 

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Ana Cecilia Petta Roselli Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e Outras Drogas (Abead) - Medidas isoladas
“Embora o Brasil tenha aprovado, em 2007, a Política Nacional sobre o Álcool e Outras Drogas, na prática, o que se tem são medidas isoladas e de alcance reduzido. Aqui, quem dita a política do álcool é a indústria. Um exemplo é a Copa do Mundo: cedendo à pressão da Fifa, o país liberou a venda de bebida alcoólica nos estádios. Na minha avaliação, para ser bem-sucedida, uma política de combate ao álcool tem de incluir ações de prevenção, tratamento
e controle da oferta. Infelizmente, a mulher está replicando o comportamento dos homens em relação ao cigarro, ao álcool e a outras drogas”.
 

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