Maternidade multifuncional não é novidade, mas como e por que é importante encontrar tempo si?

Ser mãe não significa viver 24 horas em função da prole. Manter o próprio espaço é fundamental, até mesmo para conseguir criar bem os pequenos

por Gláucia Chaves 10/05/2014 10:00

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Ter em mãos o resultado positivo para gravidez é um rito de passagem. A partir daí, a futura mamãe experimentará um novo universo, povoado por fraldas, horários de sonecas, amamentação e muito, muito trabalho. Acontece que esse novo mundo precisa se espremer no antigo, em que saídas com os amigos e idas ao salão também eram importantes. A maternidade multifuncional pode até não ser novidade, mas não se deixar engolir completamente pela nova ordem infantil é uma preocupação atual. Afoitas por manter interesses da vida pré-filhos, as mães modernas reúnem-se em espaços virtuais para conversar sobre vaidade, emprego, forma física e, de vez em quando, maternidade.

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"A gente, quando vira mãe, pensa muito no filho. No grupo, queremos fazer a mulher pensar nela, voltar a ser vaidosa, sair à noite, se divertir" - Ana Paula Leite Sousa, 30 anos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
A administradora Ana Paula Leite Sousa, 30 anos, tem três filhas: uma de 8, outra de 6 e uma caçula, com 2 anos de idade. Ao se mudar para Águas Claras, sentiu dificuldade de encontrar restaurantes para ir com as meninas, pediatras de confiança, indicações de profissionais e mesmo alguém para conversar. Em junho de 2012, resolveu criar o grupo Mães Amigas de Águas Claras para que outras mães tão perdidas quanto ela pudessem trocar informações sobre a cidade. “Sinto que, no mundo virtual, as pessoas podem se soltar mais, conversar, trocar mais ideias.”

Apesar do nome, na página da rede social de mães, há de tudo: dicas de beleza, desabafos sobre relacionamentos, indicações de médicos de confiança, piadas e o que mais vier à cabeça das mais de 14 mil inscritas. Questões sobre maternidade estão naturalmente presentes, mas não são, nem de perto, as únicas preocupações das mães multifacetadas. “A gente, quando vira mãe, pensa muito no filho”, explica Ana Paula, moderadora do grupo. “Queremos fazer a mulher pensar nela, voltar a ser vaidosa, sair à noite, se divertir.” Para ajudar nessa volta à vida social, as mães são estimuladas, a partir de diversos projetos encabeçados pelas mulheres da página, a saírem da frente das telas e se conhecerem em carne e osso.

Entre os principais projetos, segundo Ana Paula, estão o Bolsa de Empregos, em que mães empresárias divulgam as vagas disponíveis em seu negócio; o casamento coletivo Casando Mães Amigas; o Medida Certa, para orientar a melhor forma de emagrecer e a Feira Expo Mães Amigas, para participantes empreendedoras divulgarem produtos e serviços. “Também fazemos encontros para mulheres em que chamamos sexólogos para conversar e levantar a autoestima”, completa a administradora.

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"Foi ótimo poder me dedicar ao meu filho, não ter que esperar uma licença-maternidade. Mas, com o tempo, percebi que me faltava alguma coisa" - Carol Porto Xavier, 36 anos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Carol Porto Xavier, 36 anos, conta que, quando o filho nasceu, há quatro anos, sentia-se solitária. “Amigos que antes eu via muito e que não têm filhos distanciam-se, e eu vivia para meu filho”, conta a empresária. O fato de ela ter decidido largar o emprego para viver a gravidez e os primeiros anos do filho também contribuiu para aumentar a sensação de que estava se afastando de tudo. “Vivi os dois lados da moeda, em relação a ser uma mãe que trabalha e uma que não”, compara. “Foi ótimo poder me dedicar ao meu filho, não ter que esperar uma licença-maternidade. Mas, com o tempo, percebi que me faltava alguma coisa.” Independência financeira e queda da autoestima foram os primeiros sinais de que a vida pessoal estava ficando em segundo plano.

Ao encontrar o grupo da internet, Carol conta que descobriu uma nova gama de oportunidades que nem imaginava existir. Abriu uma loja on-line. O negócio virtual tornou-se físico, assim como a interação entre as colegas que fez na internet. “Eu me dedico muito ao grupo porque sinto necessidade de incentivar quem está lá, já que muitas mães largam a vida profissional para se dedicar a um sonho e estar mais perto dos filhos”, justifica. As mudanças de vida após entrar em um grupo virtual, segundo Carol, são visíveis: além da oportunidade de tocar um negócio próprio, há a possibilidade de aprender a lidar com os diversos papéis diários e a entender a verdadeira dimensão dos próprios problemas, a partir de relatos de outras mães.

Mais que a hora certa de desmamar ou qual fralda comprar, Carol diz que a troca de experiências significa um momento (para muitas, o único) de falar exclusivamente sobre o universo feminino. “Não somos só mães e esposas. Somos filhas, netas, irmãs”, enumera. Como uma das moderadoras, Carol recebe críticas, elogios e dicas sobre a página. Para ela, definir um limite entre a exposição e o apoio das colegas virtuais é fundamental. “Muitas mães usam o grupo como ponto fundamental de apoio”, comenta. “Mas é importante saber usufruir sem que ultrapasse a vida social. O ideal é estipular um prazo para estar no grupo e depois se desconectar e viver.”

Missão possível
Conciliar casa, trabalho e filhos é complicado, porém, viável. Desde que começou a moderar o grupo de Mães do Guará, Natália Santos Alencar, 31 anos, está um pouco mais habilidosa — mas confessa que ainda não encontrou o equilíbrio entre as diversas funções. Com um filho de 1 ano e 6 meses, a advogada e empresária diz que ainda não conseguiu se achar. “A gente que é mãe precisa ser uma supermulher”, brinca. Antes de o filho nascer, diminuir o ritmo de trabalho nunca foi uma opção. “Nunca achei que fosse parar de trabalhar. Até levantava essa bandeira, de não parar por causa de filho.”

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"Esse lado mulher fica um pouco em segundo plano, sim" - Natália Santos Alencar, 31 anos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Em meio a tantas prioridades, a própria Natália acaba ficando por último. “Esse lado mulher fica um pouco em segundo plano, sim”, admite. Ler o depoimento de outras mães na mesma situação, para ela, foi um alívio. No “consultório virtual”, Natália diz que confissões e desabafos são uma maneira de ter conforto, trocar experiências e diminuir o isolamento natural dos primeiros anos sendo mãe. “Esse feedback é interessante porque é imediato”, resume. “Muitas vezes, a gente precisaria ligar para uma amiga que já está distante. Não por culpa de ninguém, mas é uma coisa que vai acontecendo.”

Fernanda Machado, psicóloga membro da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), presidente da Associação de Terapia Familiar de Goiás (Atfago) e terapeuta de casais, explica que balancear as preocupações da maternidade e os interesses pessoais exige planejamento. “Esquemas contendo horários e bastante organização podem ajudar no cumprimento de todas as tarefas”, ensina. Para a especialista, contudo, antes de se debruçar em planilhas, o mais importante é ter disposição para incluir funções anteriores na nova rotina. “A inclusão dos projetos individuais e das preocupações que ficam fora do campo da maternidade em sua lista de prioridades só existirá quando a pessoa tem a consciência da importância de manter vivos seus interesses pessoais.”

Uma vez que percebe a importância de manter outros interesses e projetos, também é comum o sentimento de culpa por parte de algumas mães. De acordo com a psicóloga, as mudanças sociais dos últimos anos ainda não foram suficientes para acabar com a concepção de que a mulher deve “corresponder aos estereótipos dominantes do que deve ser o ‘ser’ mãe.” A mãe ideal seria sagrada, altruísta a ponto de tornar-se desprovida de vontades — uma vez que o filho passa a ser sua prioridade máxima. “A ideia da mãe sem desejos pessoais, sexuais, conjugais e profissionais ainda é amplamente difundida e faz parte do imaginário social.”

O sentimento de culpa por não se sentir totalmente plena apenas por ser mãe deve ser driblado, aconselha Fernanda Machado, uma vez que o papel de mãe não é capaz de suprir todas as necessidades da mulher. “Nem mesmo a mais dedicada das mães perdeu sua condição humana, não se tornou uma santidade apesar do milagre da vida ter se desenvolvido em seu ventre”, frisa. O ideal é substituir a culpa por adequação sempre que a mãe sentir vontade de conversar sobre outros assuntos e investir em outras áreas. “Quanto mais cheia de vida e de vontades elas forem, melhor elas desempenharão todos os seus papéis, inclusive o de mãe.”

Camila de Sousa Ribeiro, 35 anos, sabe bem o que é ter que se desdobrar para dar conta de tudo. Além de trabalhar por oito horas diárias, a servidora pública presta serviços de informática com o marido. “Eu e ele ficamos até as 23h, todos os dias, recolhendo e entregando computadores”, detalha. A rotina com os trabalhos de informática continua aos sábado e domingos, por, pelo menos, sete horas diárias. Em maio, ela completa dois anos na moderação do grupo Mães do Guará. Camila fazia parte do grupo de Águas Claras, mas sentia falta de indicações de serviços mais próximos da área em que mora. Ela se define como uma mãe “extremamente ansiosa em questões de doenças”. “Sou aquele tipo de mãe que, se o filho espirrou diferente, coloco no grupo”, admite.

Para ficar um pouco mais com as duas filhas, Camila e o marido as mantêm perto durante o trabalho de informática. “Acho bom porque, se der alguma febre, eu já vejo logo”, comenta a mãe. De 2010, ano que a primeira filha nasceu, até hoje, ela diz não se lembrar muito de como era a vida. “A memória da gravidez, do nascimento, é tudo muito intenso”, reforça. A falta de tempo encontra aliadas no grupo de mães: de profissionais que fazem a unha em domicílio a desabafos, é lá que ela encontra formas de se sentir mais mulher. “Chegou em um ponto em que não tem a ver só com maternidade, extrapolou”, descreve. “Muita gente procura apoio nos grupos e, na maioria das vezes, consegue. A gente se apega às questões das outras mães.”

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"Muita gente procura apoio nos grupos e, na maioria das vezes, consegue. A gente se apega às questões das outras mães" - Camila de Sousa Ribeiro, 35 anos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Além da maternidade
Mais do que troca de fraldas, nascimento dos primeiros dentes, amamentação e tantos outros assuntos que permeiam o universo materno, as mães, nos sites especializados, trocam diversas informações. Veja os mais frequentes:

» Troca, venda e compra de objetos: muitas mães aproveitam o espaço para pôr roupas, sapatos, móveis, eletrodomésticos e tantos outros itens, novos ou usados, à venda.

» Dicas de viagem: os melhores destinos, com ou sem criança, os hotéis e os roteiros turísticos mais bacanas são temas recorrentes entre as mães.
» Volta à boa forma: as mulheres costumam trocar informações sobre nutricionista, personal trainner e outras formas de voltar ao corpo de antes da maternidade.

» Indicação de serviços: do eletricista ao detetizador; da faxineira à babá; do churrasqueiro ao instalador de rede de proteção. As mães trocam, diariamente, contatos dos mais diversos profissionais e serviços do cotidiano.

» Médicos: as mães sempre pedem indicação não só de pediatras, mas de médicos das mais diversas especializações.

» Atualidades: muitas mulheres costumam compartilhar vídeos, reportagens ou textos atuais, dos mais diversos temas, só porque acharam interessante passar adiante.

» Vida a dois: algumas mães costumam pedir dicas de programas românticos para fazer com o marido e até compartilham conselhos para não deixar a vida a dois sucumbir com a chegada dos filhos.

» Programas culturais: é comum também haver o compartilhamento de peças teatrais, filmes e outros programas culturais em cartaz na cidade.

» Festas: muitas mães procuram informações sobre bufês, não só para festas infantis, mas também para aniversário de casamento, reunião familiar e tantas outras celebrações.

» Reclamações: quando são mal-atendidas em determinados serviços, as mulheres tendem a compartilhar com as demais como forma de alerta.

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"Gostei mais ainda quando vi que os assuntos não eram só sobre maternidade. É papo de mulher de modo geral" - Aline Garcia Barcelos de Paula, 24 anos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Trocando figurinhas
Para uma mãe de primeira viagem, saber o que fazer exige pesquisa — seja com a futura avó, seja com mães mais experientes e, por que não, seja na internet. Aline Garcia Barcelos de Paula, 24 anos, entrou em todos os grupos de mães que encontrou assim que se descobriu grávida de gêmeos, há sete meses e meio. À época, ela havia acabado de se formar em gestão de recursos humanos. “Não tenho experiência, então, entrei para buscar informação”, reforça. “Gostei mais ainda quando vi que os assuntos não eram só sobre maternidade. É papo de mulher de modo geral.”

Antes de saber que estava grávida, ela tinha planos de abrir um negócio na área em que estudou. Agora, porém, Aline quer adiar os planos em um ano, para aproveitar a fase. Ainda assim, nunca deixou de trabalhar: fez cursos de pigmentação de sobrancelha, aumento de cílios e atendeu clientes durante toda a gravidez — várias, inclusive, advindas do grupo de mães. Além de entender um pouco mais sobre o momento que está vivendo, ela diz que também conseguiu encontrar contatos profissionais importantes. Para o chá de bebê, por exemplo, encomendou todos os serviços de empreendedoras na internet. “Achei tudo com preço mais em conta”, comemora. A lista de indicações não parou na festinha: decoração, roupinhas para os futuros filhos, depoimentos, tudo a ajuda a viver de maneira completa a gravidez.

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"Às vezes, as dúvidas delas são tão simples e, pela falta de experiência, parecem enormes" - Nicéia Corrêa, 55 anos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Se, por um lado, há mães que buscam entender os pormenores do universo materno, por outro, há aquelas que entram nos grupos para dividir experiências. É o caso da empresária Nicéia Corrêa, 55 anos. “Às vezes, as dúvidas delas são tão simples e, pela falta de experiência, parecem enormes”, completa. “Então, entro com a minha experiência para ajudar.” Nicéia é mãe de dois filhos, com 33 e 28 anos, e tem dois netos. Além de se sentir útil, ela conta que o grupo a faz companhia, já que os filhos já estão crescidos e não moram mais com ela. “Vejo e respondo comentários, faço amizades. Assim, não me sinto tão sozinha.”

À época do nascimento dos filhos, Nicéia não pôde contar com a facilidade da internet. Mas isso não quer dizer que as redes de informação eram inexistentes. “As vizinhas e as pessoas mais velhas, com mais experiência, ajudavam muito”, conta. “Na minha época, a família morava perto. Hoje, principalmente em Brasília, muitas vezes isso não acontece. Então, a mãe fica muito isolada.” Nicéia admite, contudo, que a divulgação rápida da internet é uma aliada e tanto na busca por pediatra ou para a exposição de serviços. “Se você coloca uma dúvida, na mesma hora, aparecem milhares de respostas. Algumas eu até me espanto como não tinha pensado antes, mas a gente está sempre aprendendo coisas novas.”

Ter com quem conversar e tirar dúvidas é ótimo, mas a internet é um campo aberto. Não há garantias de que apenas pessoas bem intencionadas terão acesso ao que é divulgado, mesmo em grupos específicos, como os de mães. Quézia Bombonatto, psicopedagoga e diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), diz que o mesmo vale para as informações disponíveis, já que nem tudo que se lê on-line é verdadeiro. “As redes sociais, muitas vezes, levam o indivíduo a uma noção de que o que acontece é maravilhoso, que tudo está sempre muito bem, isso pode ser ruim para a mãe caso ela esteja com uma expectativa muito frustrada das suas ações”, completa.

A superexposição de problemas, muitas vezes íntimos, também é um problema. Relatos sobre a vida amorosa ou mesmo sobre a vida sexual, por exemplo, são assuntos delicados quando tratados de forma tão aberta para desconhecidas. “Isso pode acabar deixando a mãe ainda mais culpada, porque ela acha que deveria estar com uma vida sexual mais ativa e, se há uma questão na vida sexual do casal, é importante que seja resolvida entre os parceiros.” Se a mulher está frustrada, a sensação tende a se agravar quando exposta em redes sociais, segundo a especialista. “Ela precisa saber que o que o outro está postando é um momento diferente do dela”, aconselha. “Ela tem que ver qual o seu momento e suas opções.”

Susana Ório, psicóloga e coordenadora educacional, concorda: expor problemas íntimos, como a vida sexual, na internet, não é recomendável. No caso de mães casadas, o cônjuge pode sentir-se exposto, uma vez que os julgamentos podem estar errados — piorando ainda mais a frustração da mulher. “Essa conversa no grupo das mães em redes sociais não vai resolver os problemas dela”, frisa. “A melhor forma de a mãe tratar desse assunto é conversando com o cônjuge ou procurando ajuda de um profissional.”

ENTREVISTA

Maria Alice Schuch

A pergunta é o título do livro de Maria Alice Schuch, especialista em psicologia. Lançado este ano pela editora Palmarinca, a obra é uma compilação de 12 anos de estudos e palestras feitas pela psicóloga sobre o universo feminino — e as muitas facetas das mulheres.

De onde veio a ideia para o livro?
Passei 12 anos pesquisando a inteligência e a liderança femininas e resolvi fazer uma síntese dos pontos que eu considero convenientes para as mulheres e os que não são. Comecei por mim, com 50 anos e uma vida aparentemente pronta: filho formado, empresa, casa na praia, viagens frequentes. Parecia que tinha acabado os planos de vida. Daí olhei para a minha avó, com 90 anos, e pensei: o que vou fazer nos próximos 40 anos? Então, comecei a pesquisar se ser mulher seria só ter filho, casar, ter emprego. Seria só isso ou teria algo mais? Cheguei à conclusão de que todos somos um projeto. Nós, mulheres, muitas vezes, oramos pelo marido e pelos filhos, mas esquecemos de nós mesmas.

Por que isso acontece?

Vejo em todas as mulheres um altruísmo exagerado. Queremos viver para o outro, para a família, para o marido, e esquecemos da nossa inteligência. Temos as mesmas ambições dos homens, mas, como historicamente temos uma posição de segundo plano, somos inferiorizadas.

O que você quer dizer com “todos somos um projeto”?

Todos somos um projeto de vida. As mulheres, muitas vezes, não veem como desenvolver isso, por criação, inferioridade social, etc. Não temos um egoísmo sadio para conosco, tendemos a deslocar o centro. Você tem filhos, marido, casa, mas isso não pode deslocar seu centro. A mulher tem que se sentir feliz, realizada. Toda a família vai ser feliz em decorrência da felicidade, porque a mulher é o centro da casa e da família.

Como isso influencia na maternidade?

Ter filhos é uma opção, não uma obrigação. É lógico que haverá um período em que ela vai se dedicar ao filho, mas ela não deve viver no filho. A pessoa tem que entender que o filho é uma outra individualidade, outra pessoa. O filho é um dos projetos: nós, como pais, temos obrigação de guiá-los para que eles desenvolvam o projeto deles. Se não faço nada por mim e o filho cresce, a mulher perde o ritmo da própria história. Ela, como pessoa, não pode se deixar em segundo plano jamais, esse é o segredo.

Sinais de alerta

Muitas vezes, ser mãe ocupa tanto tempo que a mulher acaba se deixando de lado. Veja alguns sinais de que a vida pessoal está perigosamente em segundo plano

» O sinal principal é interno: como um segredo, a mulher sente que a maternidade, embora traga muita felicidade, não a deixa plena e sem outros desejos, como ela acha que deveria ser. Assim, acaba sentindo que deve ter algo errado com ela.

» Outro sinal são as relações que a mãe estabelece (ou estabelecia) antes da maternidade. Queixas, distância e frieza nos vínculos que já foram importantes na vida dessa mulher podem estar sinalizando que existe algum problema.

» Cuidado: “deixar-se de lado” nada tem a ver com trabalhar fora ou não. A mulher pode trabalhar fora de casa ou dentro de casa e se esquecer de si. O que vai determinar que ela não se deixou de lado é a qualidade dos outros vínculos importantes na vida de qualquer pessoa: com a família, com os parceiros, com os amigos e com os seus prazeres.

» Por vezes, o próprio cônjuge sinaliza que a mulher não está prestando atenção a si mesma. Ela deve estar atenta a frequência que tinha esses cuidados com ela mesma, se esse cuidado diminuiu muito, ou se ela deixou de ter.

» Lembre-se: as crianças têm um papel importante, mas não devem se sobrepor aos seus próprios cuidados. Se a mãe não estiver bem, não dará conta de cuidar de outra pessoa.

Fontes: Fernanda Machado, psicóloga membro da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), presidente da Associação de Terapia Familiar de Goiás (Atfago) e terapeuta de casais; Quézia Bombonatto, psicopedagoga e diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp)

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