Quem tem mais 50 anos deve saber tudo sobre herpes-zóster; doença tem complicações sérias como dor que pode durar meses

Vacina contra a herpes-zóster chega à rede privada do Brasil ao preço médio de R$ 600. Ministério da Saúde diz que imunização não está prevista no Sistema Único de Saúde (SUS)

por Valéria Mendes 05/05/2014 09:00

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João Paulo Campos/Arquivo Pessoal
Herpes-zóster é diferente da herpes simples que acomete boca e genitais (foto: João Paulo Campos/Arquivo Pessoal)
A doença é popularmente conhecida como cobreiro. O que pouco se fala a respeito do herpes-zóster (HZ) – nome científico da enfermidade - é sobre as graves consequências que vão desde uma dor incapacitante que pode perdurar por meses e necessita de medicamentos fortes como a morfina para ser aliviada até o comprometimento da visão e da perda de audição. A incidência também é alta. “Ao longo da vida, um terço da população irá desenvolver herpes-zóster”, afirma a médica Marilene Lucinda. Isso por que 90% dos adultos brasileiros são soropositivos para o varicela-zóster (VVZ), que é o mesmo vírus que causa a catapora. “No Brasil, o contato com o vírus ocorre no início da infância. Um estudo que incluiu crianças e adolescentes de 1 a 15 anos nas escolas públicas no estado de São Paulo observou alta proporção de soropositivos na faixa etária de 1 a 3 anos de idade, ascendendo até os 10 anos e mantendo-se estável em cerca de 90% a partir dessa idade”, reforça a especialista. A conclusão é simples: quase todos os adultos do país estão sob o risco de desenvolver a doença. E é a partir dos 50 anos que aumentam as chances de evolução, complicações, hospitalizações e óbitos em função do HZ, já que é nesta fase da vida que o sistema imunológico começa a envelhecer e há uma queda na proteção do organismo, que fica mais exposto a doenças. A melhor forma de prevenir o HZ é não ter tido contato com a varicela durante a infância. Por essa razão, a vacinação contra a catapora é tão importante. “Uma criança vacinada contra a catapora nunca terá herpes-zóster”, afirma a responsável técnica do serviço de vacinas do Hermes Pardini, Marilene Lucinda. Como a vacina contra a catapora – que tem 97% de eficácia – passou a ser oferecida pelo SUS no ano passado, o que se pode fazer no presente para proteger a população que já teve contato com o vírus? A resposta está também na imunização. Utilizada nos Estados Unidos desde 2006, a vacina de dose única contra o herpes-zóster acaba de chegar ao Brasil na rede privada ao preço médio de R$ 600 e é recomendada para pessoas acima de 50 anos. Marilene Lucinda diz que dois terços dos casos da doença ocorrem em indivíduos nesta faixa etária. Segundo ela, 50% das pessoas que têm HZ vão sofrer de neuralgia pós-herpéstica (leia para saber mais), caracterizada por uma dor crônica e intensa. “É tão debilitante que o paciente não consegue fazer nada e precisa ser internado em uma clínica de dor”, reforça. Para pessoas menores de 30 anos, a vacina não é indicada. Para quem tem entre 30 e 50, é necessária uma prescrição médica. “Temos um único estudo que avalia o resultado da vacina entre pessoas de 30 a 50 anos que já tiveram herpes-zóster e foram imunizadas. Os resultados foram satisfatórios tanto em relação à eficácia quanto à segurança”, explica Marilene. Como a vacina existe há pouco tempo (oito anos), o que os estudos têm sinalizado, segundo a especialista, é que a proteção é prolongada. Ou seja, não precisa de reforço. Marilene Lucinda diz que eficácia da vacina é de 70% tanto para casos novos quanto para os de reincidência. “O desenvolvimento da doença não contém o risco de novo contágio”, explica a médica. Além disso, segundo ela, a vacinação diminui as brechas para as consequências graves e também para a dor, um dos principais sintomas da doença que incapacita o paciente para qualquer atividade. “Estudos clínicos da vacina incluíram mais de 60 mil indivíduos. Em geral, ela foi bem tolerada, sendo a maioria dos eventos adversos limitados a reações no local da injeção”, esclarece. A especialista diz ainda que o percentual de eficácia da vacina é considerado bom pela medicina. Para ela, a chance de a imunização contra o HZ chegar ao serviço público é pequena e, em nota, o Ministério da Saúde confirma: “No momento, não está prevista a inclusão desta vacina no Sistema Único de Saúde (SUS). A inclusão de novas vacinas no SUS leva em consideração vários critérios que devem ser cumpridos para que a implantação aconteça de forma estruturada: epidemiológico, imunológico, sócio-econômicos, custo efetividade, tecnológicos, operacionalidade e financeiros”. A vacina da HZ é diferente da vacina da catapora apesar de as duas serem causadas pelo mesmo vírus (varicela). “A da herpes-zóster é para evitar a reativação do vírus. Assim, a potência dela é 14 vezes maior que a da catapora, ela estimula a produção de anticorpos muito mais intensamente”, esclarece Marilene Lucinda. Entenda a doença ”Eu não queria que você citasse o meu nome. Tenho medo de preconceito porque trabalho no meio de muita gente... Eu nunca tinha ouvido falar em herpes-zóster. Quando as bolinhas apareceram eu achei que era cobreiro. Só que começou a dar pus e resolvi procurar um médico. Latejava muito. Você sabe que a doença dá em quem já teve catapora? Tive que parar de trabalhar por uma semana por causa da dor. Dois dias depois que comecei a tomar o remédio, a dor começou a passar. As bolinhas começaram a secar com uma semana, também usei uma pomada para ajudar. Eu só tinha ouvido falar de herpes na boca, quando o clínico me disse que era herpes-zóster fiquei assustada, achei perigoso, fiquei com medo de contaminar meu sangue, de contaminar meu parceiro. É sério que tem vacina? Mas quem já teve precisa tomar? É uma doença muito incômoda, acho que eu tive porque chorei muito com saudade dos meus filhos. Eles moram em Belo Horizonte e eu em Divinópolis”. – E. J. F é cobradora de ônibus e tem 57 anos. Mesmo após a experiência com o herpes-zóster, o depoimento da cobradora de ônibus é repleto de conceitos errados sobre a doença. Para começar, é importante esclarecer que a enfermidade não tem nenhuma relação com a herpes simples, caracterizada pelas vesículas que aparecem nos lábios e que podem acometer também os genitais. O medo de contaminar outras pessoas e ser vítima de preconceito também não procede. Embora seja causado pelo mesmo vírus da catapora, que é transmitida de pessoa para pessoa, o herpes-zóster não é contagioso.
Matheus Maciel
Um terço da população irá desenvolver herpes-zóster ao longo da vida, afirma Marilene Lucinda (foto: Matheus Maciel )
 Especialista em infectologia, o médico João Paulo Campos explica como acontece a reativação do vírus. “A varicela-zóster é o mesmo vírus da catapora, só que os microorganismos atuam em épocas diferentes da vida. A catapora aparece na infância e os sintomas clássicos são febre, lesão cutânea e pele avermelhada. As bolhas das lesões da catapora estão cheias de vírus que seguem o trajeto do nervo da pele até a raiz da medula óssea. O vírus se instala no gânglio sensorial e fica inativo por vários e vários anos”, diz. O especialista lembra ainda que uma pessoa pode ser soropositivo para o varicela sem ter apresentado a doença na infância. “Há casos em que o paciente teve uma manifestação mais branda da catapora que na época pode ter sido confundida, por exemplo, com gripe”, explica. Por essa razão, ele recomenda a vacinação para todos os adultos acima de 50 anos, mesmo para aqueles que não se recordam de ter tido catapora e repete: “a prevalência de catapora no Brasil chega a 90%”. João Paulo Campos afirma que os Estados Unidos registram 1 milhão de casos de herpes-zóster por ano. “No Brasil, a tendência é aumentar a incidência da doença em 80% em função do envelhecimento da população”, salienta. O principal fator de risco para o HZ é a idade porque a doença está relacionada com a queda da imunidade. Por isso, quem é HIV positivo, transplantado, tem diabetes, lúpus ou toma corticóide em função de alguma doença também tem a chance aumentada de ativar a doença. Hepes-zóster e o estresse "Na época que eu tive a doença até suspeitei do herpes-zóster no início. Sabia que a doença acometia mais os membros superiores e provocava vesículas na pele, mas depois fiquei achando que era uma queimadura. Foi há oito anos, estava em um momento pessoal ruim e acho que foi desencadeada por um estresse emocional. Deixei passar e quando procurei ajuda médica estava com uma dor intensa, era terrível, e tive que tomar morfina. Fui internada na clínica de dor do hospital que procurei e fiquei lá por 48 horas, mas foram 72 horas de muita dor. A doença já estava na fase aguda, minha lesão foi intercostal, as vesículas na pele apareceram no dorso e no antebraço direito. Internei sem saber que era herpes-zóster, acho que as pessoas não têm muito conhecimento sobre as complicações da doença. No meu caso, uma semana antes de a doença se manifestar na pele eu já estava sentindo um incômodo na região. Sei que não estou livre de outros episódios e estou decidida a me vacinar” – Cássia Regina, tem 48 anos, é técnica de laboratório e enfermeira.
Matheus Maciel
O infectologista João Paulo Campos diz que o principal fator de risco para o herpes-zóster é a idade (foto: Matheus Maciel )
O infectologista João Paulo Campos diz que o herpes-zóster também se relaciona ao estresse e, por essa razão, apesar de não ser predominante, pode acometer pessoas mais jovens como no caso de Cássia. “O risco de complicações nos jovens é menor e a dor costuma ser mais branda também”, observa. Segundo ele, é muito raro que alguém tenha HZ sem apresentar a lesão. No entanto, o que pode ocorrer e confundir o diagnóstico é a dor intensa aparecer antes das vesículas na pele. Ele se lembra, por exemplo, de um paciente que deu entrada no hospital com uma intensa dor no peito e foi internado com suspeita de infarto. “Dois dias depois o quadro evoluiu com a lesão”. Principais complicações “Eu não conhecia a doença e, no ano passado, comecei a sentir uma dor muito forte na região do abdômen. Era uma dor que não passava com nenhuma medicação. Fui ao médico, mas o herpes-zóster não foi diagnosticado porque não tinha nenhuma lesão na pele. Na ocasião, o médico suspeitou que eu pudesse ter batido a região em algum lugar. Um mês depois começaram a aparecer bolinhas na minha barriga e eu pensei que fosse cobreiro. Fui em outro médico que diagnosticou a doença e entrei com a profilaxia, eram quatro comprimidos por dia. Também iniciei uma outra medicação para proteger meu estômago. Fiquei afastado do trabalho por mais de 15 dias, mas a dor demorou meses para desaparecer. É tão forte, tão intensa, que eu achei que ia morrer de tanto que doía. Olha, não tem remédio que tira a dor da herpes-zóster não”. - Silvanio Lúcio Júnior, 34 anos, técnico de enfermagem e patologia clínica. A neuralgia pós-herpética (NPH) é a complicação grave mais comum relacionada ao herpes-zóster. É importante reforçar que a frequência e a gravidade da NPH aumentam com a idade. Ela é descrita como dor em queimação, pulsátil, perfurante, penetrante ou aguda e pode persistir por meses ou mesmo por anos e, por isso, repercutir em algum distúrbio emocional. “É muito difícil de tratar”, afirma João Paulo Campos. Outra complicação que pode ocorrer é a infecção da pele. “A vesícula cheia de vírus estoura e acontece uma superinfecção bacteriana”, explica o médico. Apesar de raro, quando o HZ acomete o nervo da face é o quadro mais grave da doença, de acordo com o infectologista. “Pode acontecer a inflamação do olho, da córnea e causar cegueira ou paralisia facial”, diz. Por isso, é importante o diagnóstico rápido e o início imediato da medicação com antiviral específico para a herpes. No Sistema Único de Saúde (SUS) o remédio oferecido é o aciclovir. João Paulo Campos diz ainda que apesar de pouco comuns, outras conseqüências graves da doença são encefalite, meningite, pneumonia e perda de audição. Para ele, a principal contribuição da vacina é evitar todas essas complicações. “Indiquei para os meus pais. É uma vacina segura”, recomenda. Sintomas A doença é geralmente caracterizada por erupção cutânea dolorosa e vesicular em apenas um lado do corpo, com distribuição que acompanha o trajeto do nervo. Apesar de a erupção bolhosa ser a manifestação mais característica do herpes-zóster, o sintoma debilitante mais frequente é a dor, que pode ocorrer antes do surgimento das vesículas, na fase eruptiva aguda e na fase pós-herpética da infecção. Durante a fase eruptiva aguda, relata-se dor local em até 90% dos indivíduos.

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