Ocitocina favorece fidelidade masculina

Pesquisa mostra que quantidade maior de ocitocina no organismo diminui a chance de homens pularem a cerca

por Vilhena Soares 23/04/2014 15:00

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A fidelidade e a traição podem ter ligação com a ação de um hormônio? Estudos recentes apontam que, pelo menos em parte, sim. Uma quantidade maior de ocitocina no organismo diminui a chance de homens pularem a cerca, indicam esses trabalhos.

René Hurlemann é um dos pesquisadores envolvidos nessa linha de investigação. Em 2012, ele e colegas publicaram um artigo na revista especializada Journal of Neuroscience mostrando que homens com doses extras de ocitocina tendiam a ficar mais distantes de mulheres desconhecidas durante uma situação de interação social. A continuidade dos estudos resultou em outro artigo, publicado alguns meses atrás na Pnas.

SXC/Banco de Imagens
Dados do estudo podem levar ao uso da ocitocina como uma espécie de remédio para manter casais unidos? (foto: SXC/Banco de Imagens)
No segundo experimento, 20 homens heterossexuais que estavam há mais de seis meses em um relacionamento foram divididos em dois grupos: uma parte recebeu ocitocina por meio de um spray no nariz e a outra, apenas soro. Tendo os cérebros monitorados, os voluntários foram expostos, então, a fotos das parceiras e de mulheres desconhecidas. A turma que recebeu ocitocina deu preferência às imagens das companheiras, considerando-as mais atraentes. Além disso, o sistema de recompensa cerebral deles era muito mais ativo quando viam as parceiras. “A ativação do sistema de recompensa com a ajuda de ocitocina tem um efeito muito seletivo”, diz, em comunicado, Dirk Scheele, coautor do artigo.

Hulermann frisa que a ocitocina não é a única peça responsável pela fidelidade, mas faz parte de um grande mecanismo cerebral. “Nossos dados sugerem que ela pode contribuir para essa ligação de pares humanos”, afirma. O cientista vê aí uma vantagem evolutiva. “À primeira vista, a monogamia não faz muito sentido. Na visão clássica, os homens têm vantagem se disseminam seus genes em muitas parceiras. Mas, quando a ocitocina fortalece o vínculo, aumenta a estabilidade e as chances de sobrevivência das crianças”, destaca. Para Tatiana Mourão, psiquiatra da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esse é um aspecto interessante do estudo. “Ele mostra algo novo: o conceito de que o homem também teria vantagens com a fidelidade”, analisa.

Os dados podem levar ao uso da ocitocina como uma espécie de remédio para manter casais unidos? Dificilmente, dizem especialistas. “A indústria pode até criar medicamentos cada vez mais específicos como a ocitocina inalável, mas isso não vai garantir o ensino de habilidades emocionais e comportamentais que fazem parte de relacionamentos monogâmicos ou estáveis”, analisa Caroline Mota Branco Salles, psicóloga do Centro Universitário Iesb de Brasília. “A terapia com o hormônio de ligação poderia ser contraproducente. Só faria o anseio pelo parceiro maior”, acrescenta Hulermann, que, agora, pretende investigar o efeito do hormônio em mulheres.

Amor

A ocitocina é um hormônio presente no corpo humano, tanto feminino quanto masculino. É conhecida como hormônio do amor por estar ligada à sensação de prazer e de bem-estar físico e emocional. Tem ainda outras funções, como induzir o parto nas mulheres com mais de 41 semanas de gestação.

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