Ciência descobre que sinais do Down não estão apenas no cromossomo 21

A descoberta revela uma maior complexidade do distúrbio, mas pode ajudar no desenvolvimento de novas terapias

por Vilhena Soares 17/04/2014 12:00

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A síndrome de Down é um distúrbio raro, causada por uma cópia extra do cromossomo 21 (trissomia 21). Um estudo suíço, porém, indica que essa alteração gênica pode ser encontrada em outros pontos do genoma humano, o que torna o distúrbio ainda mais complexo. Os pesquisadores da Universidade de Genebra chegaram a essa conclusão após analisar minuciosamente o material genético de gêmeos idênticos. Um deles tinha doença e o outro era saudável. Os resultados estão publicados na edição de hoje da revista americana Nature.

O estudo surgiu como uma tentativa de tentar esclarecer perturbações gênicas que atrapalham a identificação da síndrome de Down. Uma das dificuldades encontradas pelos pesquisadores é comparar os genes de pessoas que têm o distúrbio com os de indivíduos que não o apresentam. Ao estudar o caso raro de gêmeos idênticos, os estudiosos da Suíça diminuíram as variações que podem interferir nas comparações genéticas. “Estudamos a expressão de todos os genes do genoma de um par raro de gêmeos monozigóticos em que apenas um tinha trissomia 21. O uso dessas amostras elimina o viés da variabilidade do genoma”, explica Stylianos Antonarakis, professor da Faculdade de Medicina e Genética da Universidade de Genebra e um dos autores do estudo.

Anderson Araújo/CB/DA Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais sobre a pesquisa (foto: Anderson Araújo/CB/DA Press)
Na análise do material retirado dos embriões, verificou-se que a adição de uma terceira cópia do cromossomo 21 perturba a expressão dos genes no genoma inteiro. “Essa desregulação ocorre em domínios ou territórios dos diferentes cromossomos. Assim, a trissomia 21 poderia, agora, ser vista como uma desordem genômica geral; de genes que, ao longo do genoma, podem estar envolvidos nos diferentes sinais e sintomas da síndrome de Down”, detalha o autor.

Para dar mais validade à constatação, o experimento foi repetido em ratos modificados para desenvolver a síndrome. Os cientistas detectaram semelhanças nos locais onde as alterações gênicas haviam sido mapeadas nos gêmeos. Porém, ao compararem os primeiros resultados com um grupo de humanos, identificaram dados distintos. “Isso pode ter acontecido pela falta de semelhança entre os indivíduos analisados, diferentemente da situação dos irmãos idênticos”, acredita Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Exame e não integrante do estudo.

O especialista ressalta ainda que, apesar de precisar de mais etapas, o trabalho é promissor. Guida acredita na possibilidade de a descoberta ajudar no desenvolvimento de intervenções que impeçam a alteração cromossômica que causa a síndrome. “Um grupo maior de pessoas, em que as descobertas sejam validadas e as discordâncias eliminadas, ainda é necessário e pode auxiliar em novos estudos”, pondera.

Suposição antiga
A suspeita de que outras desregulações gênicas, além da no cromossomo 21, poderiam estar relacionadas à síndrome de Down já existiam. O trabalho suíço consegue reforçar a suposição por meio de um caso genético incomum, segundo Zan Mustachi, geneticista e diretor clínico do Centro de Estudos e Pesquisas Clínicas de São Paulo (Cepec-SP). “Teoricamente, os gêmeos monozigóticos teriam que ser idênticos. A possibilidade de usar um caso único auxiliou essa confirmação”, observa.

Segundo o especialista, constatações feitas em consultórios médicos indicam que as alterações gênicas apontadas na pesquisa suíça fazem parte de um complexo sistema de genes ligados às características do distúrbio. “Por exemplo, o cromossomo responsável pelas funções tireoidianas é o 17, que está vinculado ao hipotiroidismo em pessoas com síndrome de Down. Porém, a causa desse problema também está relacionada ao 21, que permite a expressão do 17 com mais frequência. Isso mostra como esses cromossomos, em uma sinfonia desorganizada, podem estar correlacionados a características da doença”, explica.

Mustachi também acredita que a pesquisa americana possa trazer frutos para a área médica. Entre eles, entender e tratar de forma mais eficaz o raro distúrbio. “Não podemos falar ainda em tratamentos, mas é possível pensar em instrumentos facilitadores que possam nos auxiliar a entender e propor novos caminhos e projetos terapêuticos”, frisa.

Os cientistas da Universidade de Genebra também estão otimistas com o trabalho. Agora, buscam substâncias que possam anular a desregulação genética. “Ou seja, drogas que revertam a expressão de genes nos domínios e que façam eles voltarem ‘ao normal’”, adianta Antonarakis. Há ainda a possibilidade, segundo ele, de o estudo trazer mais dados importantes com relação a outras doenças graves. “A adição de material cromossômico perturba toda a função do genoma. Esse pode ser um caso geral em todas as anormalidades cromossômicas, inclusive as observadas nos casos de câncer”, completa.

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