É preciso ter fé para buscar a cura, dizem especialistas sobre os benzedeiros

Crucifixo, plantas, imagens de santos e orações inventadas por quem benze são usados no ritual

por Luciane Evans 13/04/2014 08:01

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Beto Magalhães / EM / D. A Press
Aos 91 anos, Dona Aurora Ferreira dos Santos cria as próprias orações. Ela é procurada por dezenas de pessoas interessadas em sua bênção (foto: Beto Magalhães / EM / D. A Press)
Quebranto, cobreiro, mau-olhado, espinhela caída, vento-virado, sentido… Esses nomes, longe do universo científico, fazem parte de um mundo mágico, povoado de rezas, crenças, simpatias e benzeções. São diagnósticos dos benzedeiros em Minas Gerais. São ditos por eles, sem enganos. E para cada um desses males, físicos ou espirituais, há orações e formas de benzer. Há quem use crucifixo, plantas, imagens de santos e até a água para o rito. A prática, em pleno século 21, não mudou muito, mas vem sendo adaptada. E hoje há até quem benza por telefone. Mas será que os rituais têm mesmo poder de cura? Para quem tem nas mãos e no olhar o dom, a resposta é uma só: é preciso ter fé.

Há 12 anos, o filósofo Stephen Simim, professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), fez uma dissertação de mestrado sobre as benzedeiras no estado e, desde então, se interessa pelo assunto. “Muitas são analfabetas, vivem em casas muito simples. A maioria é de mulheres. Acredito que isso está ligado à relação do feminino com a natureza. Lembro-me de uma dizer que da terra vem a doença e da terra vem a cura.” Diante de tudo que viu e ouviu, ele não duvida da cura e lembra-se de casos curiosos. “Todas as identificações de vento-virado, espinhela caída, mau-olhado e outros problemas estão associadas a algum mal. Diante do rito, percebi a mudança no estado da criança. Pude acompanhar de perto: as pessoas chegavam de uma forma e saíam de outra”, comenta.

Ele acredita que nesse encontro ocorra algo importante, que pode ser um milagre ou não. “Às vezes, nada mais é que a dificuldade de alguém que não conseguia um lugar para ser acolhido. As benzedeiras, antes de tudo, acolhem. Elas conversam, ouvem, tocam e interagem com o problema de quem as procura. Vi pessoas saindo bem diferentes do que entraram e aquelas que, ao fim de um ciclo de benzeções, mudavam. Não tenho uma definição para isso, mas acredito que a prática traga algo novo, senão, não estaria até hoje”, defende.

O segredo nada mais é que a fé, conforme resume Maria da Conceição de Souza, de 61 anos. Benzedeira no Bairro Nazaré, na Região Nordeste de Belo Horizonte, ela conta que aprendeu o ofício com uma senhora que benzia os filhos de sua patroa. Com o conhecimento adquirido, optou por benzer somente crianças, pois os “adultos chegam muito carregados”. Para ela, a benzeção é o caminho para aquilo que a medicina não cura. “Mas as mães têm que ter fé, senão, os meninos não melhoram.” Quando o Bem Viver esteve em sua casa, Michele Avelino, de 24 anos, já a aguardava. “Quando pequena cheguei aqui pois estava há dois dias sem comer. Quando ela me benzeu, comi até arroz com feijão. Hoje, trago o meu filho Lucas, de 1 ano.”

Quando chegou Miguel, de 3 anos, Maria deu o diagnóstico. “Está sentido.” Segundo ela, isso acontece quando a criança está indisposta, sem comer e triste, o que pode ser mau-olhado. “No caso de vento-virado, ela tem um dos braços ou uma das pernas mais curta que a outra. Isso pode ser um susto que tomou. Nesses casos, é bom benzer três vezes. Se a mãe está nervosa ou teve briga em casa isso reflete na criança. Quando os pequenos forem elogiados, é bom dizer ‘Benza Deus’, para protegê-los”, aconselha. Maria benze com folhas de arruda, manjericão, reza Pai Nosso, Ave Maria e Salve Rainha.

Ela não acredita no fim da prática, mas confessa não ter alguém para quem passar o seu conhecimento, já que seus filhos não querem tamanha responsabilidade. Segundo Stephen, há duas formas de eternizar a prática. A primeira delas é a transmissão por gerações. “A outra é a experiência mística. A pessoa não aprendeu com ninguém e passou a benzer por meio de uma vivência.” Ele lembra outros elementos que envolvem a prática, como o uso das plantas medicinais.

ORAÇÕES Outro destaque do pesquisador são as orações. Muitas benzedeiras criam suas rezas, que ninguém sabe de onde vieram, nem elas (veja na página 4). É o caso de Aurora Ferreira dos Santos, de 91 anos. Famosa em Belo Horizonte, Aurora cria suas orações, que já salvaram muitos. Analfabeta, ela diz que benzer é retirar o mal das pessoas e uma das dicas que dá a todos é relacionada a esses males abstratos. Ela diz para ficarmos atentos àquelas mariposas que entram dentro de nossas casas. “Tem que retirar e mandar para longe. A bruxa é sinal de que há alguém não está lhe desejando o bem”, ensina.

Mesmo com a idade avançada, todos os dias ela é procurada por dezenas de pessoas, inclusive por quem mora fora do país. E, nesses casos, ela usa o telefone para benzer. Na sua casa, no Bairro Floramar, na Região Norte da capital, já foram de pedreiros a juízes em busca de suas mãos e olhos abençoados. Ela tem no seu altar imagens de Santa Bárbara, Cosme Damião e São Sebastião. Como bem observou Stephen, é comum não se benzer à noite, somente na luz do dia. Aurora tem esse hábito e outros também. “Uma vez, na Sexta-Feira da Paixão, uma mulher me procurou. Quando a benzi, saíram dela três espíritos. Nunca mais benzi nesta data”, recorda. Toda noite, depois de benzer as dezenas de pessoas, ela pega um terço e reza por cada um que lhe procurou. Nunca cobrou pelo serviço e diz que a recompensa está na saúde que Deus lhe dá. “Enquanto Ele me der licença, vou trabalhar”, afirma.

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